Empresários russos recorrem a aulas de teatro

Por meio de aulas em grupo e individuais, empresários desenvolvem habilidades para lidar com negociações e entrevistas importantes Foto: Caroline Voagennelson

Por meio de aulas em grupo e individuais, empresários desenvolvem habilidades para lidar com negociações e entrevistas importantes Foto: Caroline Voagennelson

Prática introduzida no país ao longo dos anos 2000 ganha novos adeptos dispostos a superar dificuldades pessoais e garantir papéis na cena empresarial.

Nos EUA e Reino Unido, as aulas de interpretação teatral para políticos foram iniciadas ainda nos anos 1950, mas na Rússia a prática só começou a ser disseminada no início deste século. A primeira aula ministrado no país pelo mestre Serguêi Centalinski foi experimental e gratuita. “Havia um vendedor de automóveis, um especialista em marketing e um vendedor de imóveis. Logo após os primeiros exercícios vi o brilho em seus olhos”, relembra o professor.

Na época, Centalinski já tinha experiência de 10 anos com o Teatro Acadêmico de Arte de Moscou, mas estava apenas iniciando esse trabalho de interação entre homens de negócios e a arte teatral. “No início, a minha principal motivação foi o dinheiro, porque, para realizar projetos teatrais, era preciso ter certa segurança financeira e patrocinadores”, conta.

Alguns meses depois, um formando pagou duas viagens completas a Nova York para sua turma apresentar cinco espetáculos no Centro de Artes de Mikhail Baríchnikov. “Outro patrocinou a peça ‘Tenho Medo do Amor’, da qual estou participando”, diz.

No total, cerca de 300 homens de negócios já passaram pelas oficinas de teatro de Centalinski. Por meio de aulas em grupo e individuais, funcionários de empresas como Sberbank, Commertsbank e Gazprom, entre outras, desenvolveram habilidades para lidar com negociações complicadas, dar entrevistas importantes etc.

Centalinski, que também se aventura pelos campos da política para oferecer aula a administradores regionais, garante que existe uma ligação direta entre o nível financeiro da região e as exigências culturais de seus dirigentes.

Porém, o professor acredita ser mais fácil trabalhar com empresários, pois, além de mergulharem de cabeça no curso, não precisam se limitar a cumprir as ordens de seus superiores, como geralmente ocorre com os políticos. “De qualquer modo, política e negócios são duas áreas fortemente correlacionadas.”

Nos bastidores

“Encontro muitas vezes personalidades confusas, fechadas, que não sabem falar como deve ser”, expõe Centalinski. Durante as aulas, o professor recorre a exercícios que desenvolvem atenção, coordenação, retórica e oratória, por meio de exercícios de improviso e libertação.

A motivação de quem procura Centalinski tende a ser pessoal. “Certa vez, o diretor de uma grande empresa me confessou que não conseguia atrair mulheres, e era esta a razão que o fez recorrer ao curso de apresentação teatral”, recorda.

Outro aluno que o procurou, também diretor de uma grande empresa, tinha baixa estatura, usava óculos, vivia e era incapaz de sorrir. “Ele se esforçava muito, até seus óculos se embaciavam, mas sem resultado”, conta.

Quando, nos primeiros dias, o empresário se dispôs a levar o professor para a casa, Centalinski pensou que iriam devagarinho em um Volkswagen qualquer. Mas acabou sendo convidado a entrar num conversível esportivo a toda velocidade. Mais tarde, ficou sabendo que o tal homem de negócios era também alpinista, conduzia um iate e um avião esportivo. “Percebi que entre nós vivem ‘alienígenas’. Sabem pouco sobre nós, sabemos pouco sobre eles. No entanto, graças ao teatro, encontramos o entendimento.”

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