Currículo das escolas desestimula pensamento sistêmico

A maioria das crianças não adquire a capacidade de pensar e cresce assim o fosso entre as mais e menos inteligentes Foto: ITAR-TASS

A maioria das crianças não adquire a capacidade de pensar e cresce assim o fosso entre as mais e menos inteligentes Foto: ITAR-TASS

Segundo pesquisas, menos de 20% das pessoas consegue identificar as relações de causa-consequência. "São aquelas que estudaram ciências naturais e técnicas, que aprenderam as operações de destacar as principais características, de categorizar e a estabelecer relações causais”, diz Liudmila Iassukova, do Laboratório de Psicologia Social da Universidade Estatal de São Petersburgo.

De acordo com pesquisas recentes, na Rússia de hoje aumenta drasticamente o fosso entre as pessoas mais e menos inteligentes. A capacidade do pensamento sistêmico e a capacidade de tirar conclusões se formam durante o programa escolar, que nas últimas décadas tem sofrido uma série de grandes mudanças na Rússia.

A chefe do Laboratório de Psicologia Social da Universidade Estatal de São Petersburgo e do Centro de Diagnóstico e Desenvolvimento das Capacidades, Liudmila Iassukova, estuda há muitos anos o pensamento dos estudantes e assegura que o principal papel da escola é formar um pensamento conceitual válido.

"O pensamento conceitual pode ser definido por três pontos importantes. O primeiro é a capacidade de conseguir distinguir a essência do fenômeno ou do objeto. Em segundo lugar vem a capacidade de ver a causa e prever as consequências. E, em terceiro lugar, vem a capacidade de organizar a informação e construir um quadro completo da situação”, explica a especialista.

“Aqueles que têm pensamento conceitual compreendem adequadamente a situação real e tiram as conclusões acertadas. Eles também acreditam estar certos na sua leitura da situação, mas esta é uma ilusão que acaba se chocando com a vida real. Seus planos não se realizam, suas previsões não se concretizam, e eles acreditam que a culpa é de quem os rodeia e das circunstâncias, mas nunca da sua má leitura da situação."

Pode se determinar estas capacidades com a ajuda de testes psicológicos.

Segundo pesquisas, menos de 20% das pessoas consegue identificar as relações de causa-consequência. "São aquelas que estudaram ciências naturais e técnicas, que aprenderam as operações de destacar as principais características, de categorizar e a estabelecer relações causais. No entanto, entre elas poucas são as pessoas que tomam decisões que dizem respeito ao desenvolvimento da sociedade. Entre os consultores políticos temos psicólogos, filósofos e professores que não vingaram na carreira docente, ou seja, pessoas que não têm um pensamento conceitual muito bom, mas que são capazes de falar e de apresentar habilmente as suas ideias em belas embalagens", explica Iassukova.

Estatísticas compiladas 1998 mostram que a situação em países desenvolvidos é semelhante à da Rússia. Acontece que mais de 70% dos adultos pensam como crianças: generalizam do particular para o particular e não pela característica essencial, não conseguem enxergar as relações causa-efeito. As fontes abertas não apresentam nenhum estudo mais detalhado.

A especialista explica que é impossível formar pensamento conceitual ao longo da vida. "Isso só é adquirido através do estudo das ciências, uma vez que elas assentam no princípio conceitual: na sua base estão conceitos sobre os quais se constrói toda a pirâmide da ciência. É a pirâmide conceitual. E se saímos da escola sem pensamento conceitual, então, quando confrontados com um fato particular, não conseguiremos interpretá-lo objetivamente e iremos antes agir de acordo com as nossas emoções e os nossos conceitos subjetivos", diz Iassukova.

E os programas escolares têm uma influência particularmente forte na formação do pensamento. A atual situação na escola russa, em que se mudam os programas, vem piorar seriamente a situação.

"Antes, os fundamentos do pensamento conceitual começavam a ser dados na história natural. Agora, em vez de História Natural, temos Meio Ambiente, que é uma disciplina sem sentido. Apenas aqueles que elaboram estes programas, que não têm pensamento conceitual, é que conseguem ver lógica nisso. Supostamente, esta seria uma disciplina orientada para a prática, orientada para a pesquisa. Não tem nada disso", diz ela.

“O desenvolvimento seguinte era dado pela Botânica e pela História como conceito de história do desenvolvimento das civilizações. Agora, em vez delas, crianças estudam a história natural em forma de histórias sobre a natureza, sem qualquer lógica, e no lugar da História de civilizações elas têm ‘História em ilustrações’, onde lhes são apresentadas algumas coisas sobre os povos primitivos, algumas coisas sobre os cavaleiros.”

Para a pesquisadora, o princípio da passagem científica de informação foi substituído pelo princípio do caleidoscópio, “onde vão se alternando as imagens que os criadores destes programas consideram ser uma abordagem ativamente sistêmica".

Como resultado dessas mudanças, a maioria das crianças não adquire a capacidade de pensar e cresce assim o fosso entre as mais e menos inteligentes. Como resultado do declínio geral da inteligência, as pessoas inteligentes não encontram lugar no país e acabam por partir para o estrangeiro.

 

Publicado originalmente pelo Rosbalt

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