Risco de pobreza é maior preocupação dos russos, aponta pesquisa

As preocupações econômicas sempre estiveram em primeiro lugar nas pesquisas anuais do Centro Russo de Estudo da Opinião Pública Foto: AP

As preocupações econômicas sempre estiveram em primeiro lugar nas pesquisas anuais do Centro Russo de Estudo da Opinião Pública Foto: AP

Apesar de poder aquisitivo ter melhorado desde os anos 1990, russos temem nova reviravolta econômica. Receios estão relacionados a fatos da história recente do país, garantem especialistas.

Os problemas mundiais, como o aquecimento global e a possível escassez de água e alimentos, não figuram entre as principais temores dos russos. De acordo com pesquisa internacional conduzida pela agência de pesquisa Gallup International, o que mais preocupa os russos, ao contrário dos outros povos, é uma eventual crise econômica.

Maiores preocupações ao redor do mundo

1° lugar: Falta de água e alimentos

2° lugar: Aquecimento global

3° lugar: Terrorismo

4° lugar: Crise econômica

Fonte: Gallup International

“Todos os países têm suas particularidades, havendo problemas que preocupam mais as populações do que outros. É evidente que o maior problema dos povos de África, por exemplo, é a falta de água e de alimentos. Já os povos europeus se preocupam muito mais com os efeitos da crise financeira”, diz Andrêi Milékhin, presidente da Romir, holding responsável pela coleta de dados da Gallup na Rússia.

Quanto aos russos, Milékhin garante que as preocupações primordiais estão geralmente ligadas ao bem-estar. “A Rússia está numa fase em que dá a seus cidadãos aquilo de que eles precisam e em que procura conservar um certo nível de vida, e a população não tem tempo para pensar em coisas transcendentais”, explica.

As preocupações econômicas sempre estiveram em primeiro lugar nas pesquisas anuais do Centro Russo de EstudodaOpinião Pública (VTsIOM, na sigla em russo). No início deste ano, constatou-se que a maior preocupação de 32% dos entrevistados era o futuro de seus filhos. O medo da pobreza e miséria ocupou o quarto lugar, logo a após morte e doença de familiares.

“A maneira como hoje se encara a pobreza é muito diferente da de há 20 ou 25 anos. Além disso, quanto mais pobre for o local, menos assusta o povo, que se vai adaptando à situação”, comenta Mikhail Mamonov, especialista do VTsIOM. “Hoje em dia, embora o bem-estar das pessoas tenha melhorado, há mais gente que teme o regresso à aquela situação desprivilegiada de antes”, acrescenta.

Mês do cachorro louco

1991: tentativa de golpe de Estado, que viria a ter como consequência a queda do poder soviético

1998: país assolado por grave crise econômica

1999: atentado terrorista no metrô de Moscou

2000: tragédia do submarino “Kursk”

2008: Exército russo invadiu a Geórgia

2012: integrantes do Pussy Riot são condenadas a 2 anos de prisão

Superstição

Em artigo publicado no “The New York Times”, a jornalista Masha Gessen destacou que agosto provoca, na maior parte dos russos, um “medo supersticioso”, pois foi nesse mês que se deram vários acontecimentos nefastos na história recente da Rússia. Por isso, ao se aproximar dessa época do ano, aumentam as apreensões de caráter financeiro.

A mesma opinião é compartilhada por outros especialistas na área. “Nos últimos 100 anos, a Rússia viveu tantas catástrofes – guerras, fome, crises financeiras –, que tais temores se enraizaram em sua memória histórica. O russo médio, segundo dados estatísticos, está longe de ser rico – na maior parte dos casos, vive contando cada rublo. É natural, portanto, que tenha medo de perder o que tem”, diz Milékhin, do Ronir.

O psicólogo Vladímir Lútchnikov conta que, além os acontecimentos da história recente ligados ao risco de empobrecimento, seus pacientes demonstram receio pelo insucesso, rejeição, proximidade social e modo como são vistos. “São medos obsessivos que não podem ser explicados em termos lógicos”, esclarece Lútchnikov. 

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