Pesquisa aponta aumento de tensão interétnica na Rússia

Um hijab na cabeça pode levar não só à perda do emprego, mas também para a delegacia de polícia Foto: Ramil Sítdikov/RIA Nóvosti

Um hijab na cabeça pode levar não só à perda do emprego, mas também para a delegacia de polícia Foto: Ramil Sítdikov/RIA Nóvosti

Agravamento do conflito interétnico manifesta-se em atitudes extremamente negativas em relação a qualquer expressão de identidade nacional em público que não seja a russa ou a Ortodoxa.

As inclinações xenofóbicas se intensificaram significativamente na capital e em todo o país, aponta pesquisa do Centro Levada realizada em outubro. Segundo o levantamento,   43% dos russos e 83% dos habitantes de Moscou estão sentindo “as tensões interétnicas em sua cidade ou em seu bairro”. Os sociólogos descobriram que, atualmente, as inclinações xenofóbicas são compartilhadas por um número de russos uma vez e meia maior do que em 2012 e quase duas vezes maior do que em 2011.

Se tratarmos do assunto de forma mais detalhada veremos que 61% dos russos experimentam irritação, hostilidade ou medo em relação aos nativos do Cáucaso e da Ásia Central que vivem em sua cidade e somente 6% sentem respeito ou simpatia por eles. Além disso, de acordo com o que descobriram os sociólogos, em Moscou, nenhum dos entrevistados experimenta simpatia em relação aos imigrantes.

O agravamento do conflito interétnico manifesta-se em atitudes extremamente negativas em relação a qualquer expressão de identidade nacional em público que não seja a russa ou a Ortodoxa.

Em Kislovodsk, por exemplo, 18 estudantes foram expulsos recentemente da Faculdade de Medicina por dançarem o lezginka (antiga dança dos povos do Cáucaso) na rua. Os estudantes, que eram moradores das repúblicas do Cáucaso do Norte, dizem que estavam comemorando um aniversário. A execução da lezginka em lugar público foi considerada violação da ordem pública pelo Ministério de Assuntos Internos do Território de Stavropol. Os alunos foram chamados à responsabilidade administrativa e multados. A direção da faculdade, por sua vez, propôs aos dançarinos que elaborassem uma declaração na qual constasse que eles estão deixando a instituição “por vontade própria”.

Em 2010, cinco calouros provenientes da Tchetchênia foram expulsos da Universidade Tecnológica Estatal de Piatigorsk por terem dançado lezginka na praça principal de Kislovodsk.

Além da lezginka, também o hijab é um estopim para a hostilidade. Em algumas regiões do país é proibido o uso do véu nas escolas, introduzida com base no pressuposto de que, por lei, a educação na Rússia é laica.

Em Tchita, sete meninas foram obrigadas a passar a estudar em casa: os pais não permitem que as meninas saiam de casa sem o hijab.

Aparecer com hijab em instituições educacionais é problemático não só para os alunos, mas também para os funcionários. Em um jardim de infância de Moscou, os pais ficaram indignados com o fato de que uma muçulmana do Tadjiquistão que usava hijab estava trabalhando como lavadora de louças no local. Eles exigiram que a direção do jardim de infância demitisse a moça ou a obrigasse a tirar o véu. A administração pediu à moça que usasse um lenço comum e não o véu tradicional.

Um hijab na cabeça pode levar não só à perda do emprego, mas também para a delegacia de polícia. No dia 13 de novembro, em uma sala de cinema de Petrozavodsk, uma funcionária que trabalhava no caixa chamou a polícia depois de ter vendido um ingresso para uma moça com véu na cabeça.

Normalmente, para suavizar o ódio étnico, propõe-se eliminar as manifestações das diferenças aparentes. Por exemplo, em São Petersburgo, ativistas lançaram um livreto com algumas regras de conduta que devem ser seguidas na cidade. Nele consta que não se deve: "usar trajes nacionais sempre e em todo lugar, pois eles atraem muita atenção, que nem sempre é necessária; usar o tempo todo um agasalho esportivo, muito menos com sapatos clássicos; sair na rua de roupão; ficar sentado de cócoras na rua.”

Pável Tchikov, presidente da Associação Interregional de Direitos Humanos Agora, explica que o ódio dos russos voltado a quaisquer manifestações étnicas é um fenômeno social que não tem uma causa única.

“O principal problema é a exploração da imagem de inimigo no âmbito da política interna dos migrantes de diferentes níveis promovida pelas autoridades”, diz o especialista. Para ele, o ódio étnico é provocado pelo flerte com os nacionalistas, o apoio tácito das ideias conservadoras de direita, e o "aquecimento" dos sentimentos antimigrantes na sociedade. A organização recente pelas autoridades da capital de um acampamento temporário para migrantes na periferia de Moscou, na subprefeitura de Golianovo, é um exemplo. “Tudo isso estimula a sociedade a se dividir em ‘os nossos’ e ‘os estranhos’, o que cria a base para as mais variadas formas de xenofobia.”

De acordo com a opinião de outro especialista, os hijabs não são aceitos por serem vistos como um fenômeno arcaico.

“A reação negativa dos russos em relação aos hijabs e às danças tornou-se um pretexto para o público liberal acusar os cidadãos do país de xenofobia”, afirma Viatcheslav Danilov, diretor executivo do Centro de Análise Política. “No entanto, na realidade, trata-se da reação natural de uma sociedade modernizada à exibição pública intrusiva de modelos arcaicos.”

Segundo a opinião do cientista político, seria mais apropriado que algumas manifestações anárquicas de identidade étnica fossem realizadas em locais destinados aos festivais etnográficos e não em espaços públicos.

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