Russian Railways marca fim do uso de carros-leito da segunda classe

O espaço interior de um carro-leito da segunda classe é dividido em compartimentos sem portas que abrigam os bancos em dois níveis e as mesas instaladas nos corredores, que são facilmente transformadas em mais dois lugares para os passageiros Foto: Vladímir Astapkovitch/RIA Nóvosti

O espaço interior de um carro-leito da segunda classe é dividido em compartimentos sem portas que abrigam os bancos em dois níveis e as mesas instaladas nos corredores, que são facilmente transformadas em mais dois lugares para os passageiros Foto: Vladímir Astapkovitch/RIA Nóvosti

A recente decisão da diretoria da Russian Railways referente à retirada dos carros-leito da segunda classe dos trens russos marca o fim de uma época na história do país e nas vidas dos seus cidadãos.

Os representantes da empresa de transporte ferroviário Russian Railways anunciaram a substituição dos carros-leito da segunda classe pelos vagões de dois andares. A decisão da empresa, segundo o seu presidente, Vladimir Iakúnin, tem o objetivo de oferecer mais conforto aos passageiros.

Os vagões passageiros da segunda classe que compõem a frota dos trens de passageiros russos são chamadas de "Platz Karte", que em alemão significa "o recibo adicional à passagem que dá direito a uma cama". Integrados ainda na época da União Soviética, eles continuam fazendo sucesso entre os viajantes do país.

O espaço interior de um carro-leito da segunda classe é dividido em compartimentos sem portas que abrigam os bancos em dois níveis e as mesas instaladas nos corredores, que são facilmente transformadas em mais dois lugares para os passageiros.  

O baixo nível de conforto comparado com os vagões das classes superiores é compensado pelo preço relativamente acessível. Por exemplo, uma passagem do trajeto Moscou-São Petersburgo custa cerca de 1000 rublos (ou US$ 30).

Todos os passageiros que em algum momento de suas vidas percorreram grandes distâncias entre as cidades russas lembram o mínimo conforto, a falta de espaço, o balanço do trem, além do calor sufocante e dos banheiros frequentemente fechados. No entanto, uma viagem no carro-leito reunia as pessoas e permitia a cada um deles se sentir um membro de uma grande comunidade, compartilhar as experiências e refeições trazidas de casa, assim como se divertir. Qualquer tipo de talento, seja de contar piadas ou tocar violão, sempre foi recompensado pela comida e bebida oferecida pelos espectadores gratos.

As pessoas faziam amizades, falavam dos seus problemas, escutavam os seus companheiros de viagem ou simplesmente refletiam em silêncio olhando para a janela. Choravam e riam, se apaixonavam e perdiam cabeça.

O carro-leito moderno nasceu do conceito dos vagões de carga criados no final do século 19, cujas estruturas permitiam a sua rápida transformação em carros para o transporte de pessoas, e que se tornaram um item importante na história do país.

O primeiro vagão para transporte de carga que poderia ser transformado em carro-leito passageiro saiu das oficinas da cidade de Kovrov, do departamento ferroviário de Moscou-Níjni Novgorod em 1872. Para se tornar adequado para o transporte de pessoas, o interior do vagão deveria ser submetido a uma rápida mudança que incluía a instalação de um fogareiro e das grandes prateleiras em dois ou três níveis que serviam de camas, assim como um acabamento interno feito por meio de tábuas de madeira para manter o calor nas épocas frias. Desta forma, o vagão teria capacidade de transportar até 40 pessoas e foi amplamente utilizado na locomoção dos soldados pelas ferrovias russas ao longo de setenta anos, da década de 70 do século 19 até a década de 40 do século passado. Além disso, ele teve um papel importante nas guerras entre a Rússia e a Turquia, na guerra civil e na Primeira e Segunda Guerras Mundiais.

Além dos vagões de carga transformados para o transporte de passageiros, na mesma época existia a sua versão mais simples usada na locomoção de imigrantes da região europeia da Rússia aos locais de exploração de terras virgens na Sibéria. No interior destes carros criados em 1908 foi instalado apenas um fogareiro e, além de transporte das pessoas, eles foram destinados à locomoção de gado e equipamentos agrícolas. Nas décadas posteriores, os vagões também serviram para o transporte dos condenados à prisão, o que confirma a sua descrição detalhada apresentada na famosa obra do Aleksandr Soljenitsin, “Arquipélago Gulag”.

Sendo assim, a recente decisão da diretoria da Russian Railways referente à retirada dos carros-leito da segunda classe dos trens russos marca o fim de uma época na história do país e nas vidas dos seus cidadãos, que os consideram não apenas um meio de transporte, mas também a encarnação do modelo de uma comunidade coletivista que já faz parte do passado. 

Mas o que os próprios russos pensam em relação a esta mudança?

Os carros da segunda classe estão prestes a se tornar uma parte da história! Acredito que esta é uma das poucas heranças da União Soviética da qual não deveríamos sentir saudades. Tenho certeza que a minha opinião será compartilhada por aqueles que já viajaram de trem para passar as férias de verão na Crimeia ou foram no Extremo Oriente nos meses de primavera ou outono, que ao longo de vários dias foram forçados a fazer parte de uma família composta por pais e filhos, soldados desmobilizados e estudantes, entre outros viajantes. Levar um tapa no rosto por um pé com meia suja não foi o pior que pudesse acontecer com um passageiro desatento. Vale apenas lembrar o calor insuportável e as janelas lacradas. Além dos cantos noturnos em voz baixa, mas com acompanhamento de um violão. E aquele cheiro. Meu Deus. (http://jurij-sotnik.livejournal.com)

Eu adoro viajar no vagão da segunda classe. Há pouco tempo fiz uma viagem para São Petersburgo e gostei muito. Bati papo com outros passageiros, tomei chá, e as famosas meias sujas nunca me atrapalharam em nada (Lídia Rudanova).

Sou fã dos carros da segunda classe, ao longo da minha infância este foi o meio de transporte que usava com muita frequência. Sempre houve muitas pessoas ao redor, portanto não faltava com quem conversar. Mas em geral eu considero os vagões da segunda classe mais seguros que os da primeira, onde basta fechar a porta e já pode fazer o que quiser. No carro da segunda isso é quase impossível (Elena Ivanova).

 

Publicado originalmente pelo Rússki Reportior

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