A "mão firme" do inconsciente coletivo

Visitantes enfrentam fila imensa e chuva para ver de perto raridades da exposição sobre os Romanov Foto: AFP/East News

Visitantes enfrentam fila imensa e chuva para ver de perto raridades da exposição sobre os Romanov Foto: AFP/East News

O novo paradoxo russo é o exacerbado amor pela monarquia. Em Moscou, filas quilométricas se formam diante do Majej, museu que está recebendo uma exposição dedicada ao 400° aniversário da última dinastia imperial da Rússia. Repórteres da revista “Ogoniok” entrevistaram os visitantes para entender o porquê do interesse renovado por esse período histórico.

O fluxo de visitantes da mostra “Rússia Ortodoxa. Dinastia Romanov” tem sido tão intenso que os organizadores decidiram postergar a data de encerramento. Porém, não é apenas no museu que os russo demonstram interesse por esse capítulo da história russa.

A televisão russa está repleta de programas sobre a contribuição da monarquia e, de acordo com os sociólogos do país, a população apresenta  crescente simpatia em relação ao passado monárquico.

Mas, afinal, o que pensam os russos sobre a ideia de um renascimento da monarquia? Foi justamente essa pergunta que os repórteres da revista “Ogoniok” fizeram aos russos que permaneciam em pé durante horas na fila para a exposição.

Serguêi Moschenko, 59 anos, ex-cosmonauta de testes de Moscou

“Estou na fila há 3 horas. Quando me aposentei, comecei a ter tempo livre e fiquei empolgado com a história do país. Atualmente, fala-se muito sobre a dinastia na televisão e na internet. Mas antes parecia não haver mais ninguém que se destacasse além de Pedro, o Grande. Então, comecei a pesquisar e descobri que os outros tsares não deixavam nada a desejar em relação a ele. Se analisarmos toda a história da Casa Romanov, tijolo por tijolo, teremos sempre o mesmo quadro: um tijolinho é perfeito, e o outro, todo torto. Pedro mandava cortar cabeças, mas também realizava trabalho pesado. Como resultado, o país prosperava. Existiram tsares dignos, eles realmente existiram!

Quanto ao retorno da monarquia? Por que não?”

Vera Ilincheva, aposentada de Moscou

“Vim com uma conhecida que frequenta a mesma paróquia. Estamos aqui por causa da história e do ícone ‘Mãe de Deus de Fedorov’, que deu início à dinastia dos Romanov e era a protetora de Nikolai II. Gostaríamos de ter a fé que ele tinha.

É difícil dizer se precisamos de uma monarquia. O povo já perdeu a fé, não consegue acreditar que a monarquia traz em si uma ajuda para nós e um futuro brilhante para os nossos filhos.”

Aleksêi Buliguin, 28 anos, engenheiro de São Petersburgo

“Cheguei a Moscou para uma reunião de trabalho e fiquei sabendo da exposição por amigos. Decidi visitá-la no meu tempo livre. Ouvi falar que essa exposição foi montada em um novo formato interativo e estou curioso para ver como isso funciona.

Acho que um dia, talvez, voltaremos à monarquia. Foi dada tanta liberdade às pessoas que é possível que elas acabem pedindo para ter alguém que esteja acima delas e lhes aponte o que fazer. Pode ser que, mais tarde, elas renunciem à sua liberdade.”

Olga Trinkunas, 41 anos, empresária de Moscou

“Uma colega ficou profundamente impressionada com a exposição e sugeriu que eu também fizesse uma visita. Uma pena que há tanto rebuliço e uma fila tão imensa. Pensei que hoje, um dia de semana, ela estaria menor, mas, infelizmente, a quantidade de pessoas é a mesma. Penso que os Romanov fizeram muito pelo país e quero conferir o que está exposto sobre eles.

Oras, ninguém consegue permanecer indiferente ao destino infeliz do último imperador. A monarquia tem perspectiva, e o país precisa de uma mão firme.”

A inércia e o mito

As pessoas anseiam por símbolos e figuras icônicas, mas as opções são bastante limitadas. No inconsciente coletivo, duas figuras imponentes coexistem lado a lado: Stálin e Nikolai II. A glorificação da monarquia é como um grande show para as massas. Além disso, suponho que as pessoas que brincam com tais sentimentos não buscam objetivos sentimentais, mas puramente pragmáticos. Tais sentimentos permitem acrescentar charme e autoridade extra ao poder instituído. Além disso, eles tiram o foco da qualidade da autoridade e o direcionam para a imagem vistosa.

Em nosso país, as pessoas, desde os representantes dos mais elevados estratos até as massas populares, estão basicamente habituadas a olhar para trás. Apenas uma pessoa autoconfiante e livre, o que é fundamental, pode olhar para frente. Às vezes, essas qualidades coexistem. O futuro assusta com a sua incerteza, por isso, dá um pouco de medo olhar para ele. O que mais assusta é o futuro de nossos compatriotas, pois eles não têm no que se apoiar: tudo é instável, paira um sentimento de extrema desorientação. Não existem instituições sociais que estejam funcionando, a começar pela escola. Elas não funcionam, pois não estão perfeitamente cientes, elas próprias, de sua função social. Tudo existe por inércia, e a inércia obriga a pessoa a procurar apoio no passado, naquilo com o que um dia havia se acostumado. É assim que surge a procura por símbolos atraentes desse passado.

David Gzgzian é membro do Concílio da Igreja Ortodoxa Russa e chefe do Departamento das Disciplinas Teológicas e Liturgia do Instituto Ortodoxo-Cristão de São Filaret.

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