Solidão afeta cada vez mais moradores das grandes cidades

O problema de solidão se deve a um conjunto de fatores, tais como a divisão da sociedade, o rompimento de ligações sociais, a falta de confiança no próximo e no governo, além da insegurança em geral Foto: Getty Images/Fotobank

O problema de solidão se deve a um conjunto de fatores, tais como a divisão da sociedade, o rompimento de ligações sociais, a falta de confiança no próximo e no governo, além da insegurança em geral Foto: Getty Images/Fotobank

Há pouco tempo, os sociólogos acreditavam que as novas tecnologias, principalmente as redes sociais, seriam capazes de curar a sensação de solidão. No entanto, segundo pesquisas recentes, estas expectativas não foram alcançadas.

Cada vez mais os moradores das grandes cidades se socializam menos e dedicam mais tempo ao trabalho e outras atividades. Uma pesquisa realizada recentemente em Moscou por Christopher Swader, cientista do laboratório de pesquisas sociais comparativas da Escola Superior de Economia da Rússia, em conjunto com as informações do Estudo Mundial de Valores, demonstra que os habitantes de metrópoles modernas preferem a companhia de seus amigos a dos seus familiares.

A vida solitária é a mais recente tendência na sociedade e começou a se revelar nas últimas décadas, aponta Eric Klinenberg, pesquisador da Universidade de Nova York. Segundo ele, a população mundial encontra-se no processo de transição entre o conceito de coletivismo e os princípios de individualismo. E não faltam fatos que comprovem esta afirmação.

Na década de 1950, a população americana era composta por 22% de indivíduos solitários. Hoje, alcança 50%. No mundo moderno vivem 277 milhões de solteiros, quase o dobro da população atual da Rússia, segundo os dados de Klinenberg. Nos seus trabalhos científicos, ele dividiu o grupo em três: jovens em início de carreira, indivíduos de meia-idade divorciados ou que nunca foram casados e idosos, a maioria mulheres, quase todas viúvas. Na opinião do sociólogo, compartilhada pelos especialistas russos, na maioria das vezes a solidão é uma consequência direta das escolhas pessoais, como, por exemplo, a preferência pela construção de uma carreira.

John Cacioppo, professor da Universidade de Chicago, aponta os efeitos colaterais da solidão, tais com a imunidade baixa, pressão alta e outros males, que permitem considerá-la um fator de risco como para dependência de nicotina e obesidade. Não é fácil de acreditar, mas a solidão é contagiosa. Uma pesquisa realizada numa pequena cidade americana demonstrou que o contato direto com as pessoas solitárias aumenta em 50% a sensação de isolamento, mas a sua pertinência a um grupo de amigos em comum reduz a porcentagem em 25% ou mais.

Vale ressaltar que as peculiaridades culturais também influenciam a percepção pessoal de solidão.

Há pouco tempo, os sociólogos acreditavam que as novas tecnologias, principalmente as redes sociais, seriam capazes de curar a sensação de solidão. No entanto, segundo pesquisas recentes, estas expectativas não foram atingidas.

"As nossas pesquisas revelaram um fenômeno interessante: quanto maior o uso do Facebook, maior será a sensação de isolamento", diz Ethan Cross, pesquisador do Instituto de Estudos Sociais da Universidade de Michigan.

Cacioppo afirma que a quantidade de conhecidos na vida real possui uma ligação direta com a quantidade dos amigos virtuais. As redes sociais ajudam a compensar a ausência de contatos com as pessoas, mas não substituem a interação ao vivo.

Dmítri Leontiev, chefe do Laboratório de Psicologia Positiva e Qualidade de Vida da Escola Superior de Economia da Rússia, aponta a existência de peculiaridades culturais que contribuem para o crescimento da população solitária no país.

"O problema de solidão se deve a um conjunto de fatores, tais como a divisão da sociedade, o rompimento de ligações sociais, a falta de confiança no próximo e no governo, além da insegurança em geral. Mas os motivos de caráter social incluem também os aspectos culturais. Todas as sociedades existentes no mundo moderno podem ser divididas em dois grupos: as individualistas e as coletivistas, dependendo do papel atribuído ao indivíduo na construção do seu próprio sucesso. Historicamente, a Rússia foi considerada uma sociedade coletivista, porém, de acordo com estudos recentes, a população do país, assim como a da China, não cumpre os critérios nem para ser considerada individualista, nem coletivista", explica especialista.

O pesquisador ressalta que os países desenvolvidos compensam as fracas relações interpessoais e o egoísmo da sociedade através da área de serviços sociais bastante desenvolvida. No entanto, na Rússia, as instituições sociais e o apoio comunitário são quase inexistentes.

"Uma das consequências diretas deste fato é o escândalo referente à reforma de aposentadoria que deixou os cidadãos inseguros em relação ao próprio futuro que deveria ser garantido pelo Estado, uma vez que quaisquer outros meios de subsistência na terceira idade não estão disponíveis. Os acontecimentos deste tipo em combinação com as peculiaridades culturais tornam o problema da solidão no país ainda mais grave", explica Leontiev.

Por outro lado, uma vida solitária é muito mais do que uma situação que deverá ser evitada a qualquer custo. Dependendo do nível de instrução do indivíduo, ela poderá contribuir para o seu crescimento pessoal e profissional.

"Auto-comunicação é um termo recente que significa a interação consigo  mesmo. Hoje em dia existe uma grande demanda para a criação de novos cursos de autoajuda que ensinem as pessoas a se sentirem confortáveis na sua própria companhia", aponta o pesquisador. 

 

Publicado originalmente pela revista Ogoniók

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.