Mudanças climáticas estão alcançando ponto crítico?

O maior problema será a escassez de água potável, algo que já é sentido em muitos locais Foto: Alamy / Legion Media

O maior problema será a escassez de água potável, algo que já é sentido em muitos locais Foto: Alamy / Legion Media

Não há duvida de que o clima atual é muito diferente do de há duas décadas. No entanto, a comunidade científica continua dividida quanto o que ocorrerá. Enquanto isso, as mudanças climáticas originam problemas perigosos, dos quais um dos maiores é a escassez de água doce.

Em um recente artigo publicado na revista científica “Nature”, um grupo de cientistas britânicos afirmou ter identificado o ponto de não retorno no aquecimento de determinadas regiões da terra. Na Cidade do México, segundo eles, o fenômeno acontecerá por volta de 2031. Moscou será atingida somente em 2063.

No entanto, a questão é saber se o aquecimento global observado ultimamente é uma tendência de longo prazo ou um resultado dos processos sazonais passageiros. A comunidade científica não chega a um consenso a esse respeito.

A teoria do aquecimento global é apoiada pelos mais recentes dados de observações meteorológicas. De acordo com observações de estações meteorológicas russas, nos últimos 100 anos, a temperatura média no país aumentou em 1º C. Somente na última década do século passado, no entanto, a temperatura na Rússia aumentou 0,4º C.

Segundo previsão do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), até 2100 a temperatura média global poderá aumentar entre 1,8º C a 4,6º C no pior dos cenários.

De acordo com o professor catedrático do Departamento de Ecologia Geral da Faculdade de Biologia da Universidade Lomonosov de Moscou, Aleksêi Giliarov, o derretimento das geleiras da Groenlândia é uma prova convincente do aquecimento global.

"Observamos como a massa total de gelo vem diminuindo. Isso nos deixa preocupados porque a água doce deságua no Atlântico e pode quebrar o mecanismo em que a água salgada profunda proveniente do Sul se desloca em direção à superfície perto da Groenlândia, esfria e desce ao fundo. Esse mecanismo é o principal motor do ciclo da água na Terra e traz calor à Europa Ocidental", disse o cientista.

Já Elena Grigórieva, do Instituto de Análise Multidisciplinar dos Problemas Regionais da sucursal do Extremo Oriente da Academia de Ciências da Rússia, não está inclinada a considerar os atuais processos climáticos como aquecimento global.

"Olhe para pinturas antigas: na Inglaterra, onde a temperatura média anual é de 10º C, era comum patinar no gelo. Basta ver pinturas dos séculos 16 a 18. Isto é, o clima é instável e nossos conhecimentos sobre o clima são incompletos e fragmentados. O período de observação das mudanças climáticas globais é demasiadamente curto", disse Grigórieva.

Se a teoria do aquecimento global pode ser contestada, ninguém contesta que o impacto das mudanças climáticas é prejudicial à humanidade. Temperaturas ambientes mais elevadas criam condições ​para a propagação de doenças infecciosas, estresse de calor e problemas psíquicos daí decorrentes. Além disso, o aumento das temperaturas de forma desigual poderá ter como consequência a migração maciça de pessoas e, como resultado, a desestabilização da situação político-militar.

No entanto, o maior problema será a escassez de água potável, algo que já é sentido em muitos locais. De acordo com especialistas da ONU, em 2025, mais da metade dos países do mundo poderá enfrentar falta de água doce e, em meados do século, cerca de três quartos da população mundial não terá acesso a água potável. Segundo cientistas do Instituto Internacional de Gestão de Água, se a economia e a população mundiais continuarem no atual ritmo de crescimento, em meados deste século, a demanda por água vai aumentar mais de três vezes. Como resultado, a falta de água potável poderá ser sentida já dentro de 20 anos. Enquanto isso, desde já, uma em cada seis pessoas (mais de um bilhão de pessoas do planeta) sofre, em maior ou menor grau, com a escassez de água potável.

Na Rússia, a situação é melhor: o país está entre os com as maiores reservas de águas superficiais. Só o lago Baikal contém 23,6 mil km cúbicos de água, o que equivale a 20% das reservas mundiais de água doce.

Mas como abastecer de água as regiões áridas da Rússia e os países subdesenvolvidos e aqueles em desenvolvimento caracterizados por uma alta densidade populacional? Cientistas sugerem economizar água e fornecer alimentos e bens de necessidade às regiões desérticas e semidesérticas. No entanto, a livre circulação de mercadorias exige o cumprimento de determinadas condições políticas e econômicas, o que nem sempre é possível em uma época marcada por conflitos regionais. 

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.