Até que a realidade nos separe

Foto: Getty Images/Fotobank

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De acordo as estatísticas oficiais de registro civil, metade dos casamentos russos são desfeitos os anos. Entre os três motivos principais para separação, os sociólogos apontam alcoolismo, dificuldades financeiras e más condições de moradia. Apesar da tentativa do governo de travar a onda de divórcios, subindo os custos processuais de divórcio de 400 (pouco mais de US$ 12) para 30 mil rublos, é pouco provável que a medida influencie quem já decidiu dar outro rumo à própria vida.

Depois de uma das habituais críticas de seu chefe, Váleri Lepékhin deu-lhe um murro e se sentiu um herói – mas acabou perdendo o emprego. As consequências de seu ato não tardaram. Durante três meses, Lepekhin procurou trabalho, mas os potenciais empregadores exigiam referências, telefonavam ao escritório em que trabalhara.

“A nossa filha mais nova não tinha nem seis meses, e precisamos de dinheiro. Eu ainda não podia trabalhar”, queixa-se Irina Lepékhina, mulher do de Váleri. “O meu marido é teimoso. Tivemos que mudar para casa da minha mãe e alugar o apartamento, que ainda não está pago ao banco”, conta ela. A sogra de Váleri, Nina Arkádievna, nunca nutriu grande afeição pelo genro, mas, mesmo assim, ofereceu moradia e sua pensão para sustentar a família da filha.

Foi então que Irina deu um ultimato: enquanto Váleri não fizesse as pazes com o chefe, ela não lhe dirigiria a palavra. Esse castigo teve um efeito catastrófico, pois foi o estopim para Váleri começar a beber e agredir sua mulher. Pouco depois, Nina Arkádievna pôs o genro para fora de casa e convenceu a filha entrar com o processo de divórcio.

As difíceis condições de moradia não só destruíram a família Váleri, mas também são, segundo Aleksandr Sinélnikov, professor de Ciências Sociais na Universidade Estatal de Moscou, uma das principais causa maior da destruição das relações conjugais.

O “não” eterno

A Universidade de Medicina de Rostov conduziu uma pesquisa com 11 mil casais que vivem juntos há mais de 10 anos. A pergunta era simples: vocês aceitariam se casar com seu atual parceiro se fosse possível voltar ao tempo? Apenas 100 dos entrevistados responderam positivamente.

No ano passado, cerca de 650 mil casais russos se divorciaram, contra os 1.213 casamentos realizados no país. Pelas estatísticas oficiais, um em cada três casamentos se desfaz nos primeiros três anos de união, e a maior parte dos divórcios corresponde à faixa etária abaixo dos 35 anos.

A segunda onda de crises matrimoniais atinge o período dos 25 aos 30 anos de casados, ou seja, cônjuges na casa dos cinquenta anos de idade. Muitas vezes, a cisão acontece porque, quando os filhos alcançam a idade adulta, os pais julgam não haver razão para continuarem a viver juntos.

“Quando os filhos chegam à idade madura, o espaço comum que unia os cônjuges se dissipa. É como a conclusão de um projeto conjunto: alcançados os objetivos, deixa de haver incentivos. Há casais que ultrapassam todas as crises graças ao ‘prazer mútuo’, mas muitas vezes descobre-se que eram os filhos que cimentavam o relacionamento”, explica Kirill Khromov, diretor do Centro de Psicologia “Perekriostok”.

Vida pós-divórcio

De um modo geral, as mulheres costumam se preocupar com as consequências financeiras da separação, por causa da necessidade de sustentarem os filhos e do aumento das responsabilidades. “Com tantos divórcios, são poucos os russos que sabem se separar civilizadamente. Em 70% dos casos, os ex-cônjuges se tornam arqui-inimigos”, diz Khromov.

Nesse contexto, as crianças acabam se tornando vítimas dos casamentos destruídos, embora geralmente permanecem no lar com as mães. “Nos termos do Código de Família, os direitos dos pais na educação dos filhos são iguais, mesmo quando o tribunal delibera que a criança deve viver com a mãe”, ressalta Artiom Zaimentsev, advogado especializado em direito civil.

Uma pesquisa do Instituto de Estudos de Opinião Pública da Rússia, realizada entre pais com menos de 5 anos de divórcio, demonstra que só 44,1% dos entrevistados viam seus filhos com frequência. Cinco a 9 anos depois, esse índice cai para 31,9%, e, entre os divorciados de 10 anos e mais, apenas 24,5% dos pais desejam se encontrar frequentemente com os filhos. 

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