Uma reforma para trazer as escolas ao século 21

Apesar de pequenas mudanças, o sistema educacional na Rússia moderna não difere muito do soviético. As crianças começam a escola em torno dos sete anos de idade e passam as quatro primeiras séries com o mesmo professor e colegas de classe Foto: RIA Nóvosti

Apesar de pequenas mudanças, o sistema educacional na Rússia moderna não difere muito do soviético. As crianças começam a escola em torno dos sete anos de idade e passam as quatro primeiras séries com o mesmo professor e colegas de classe Foto: RIA Nóvosti

Avaliação da OCDE revelou alto analfabetismo funcional entre estudantes russos, ape-sar de figurarem no topo de rankings internacionais.

A professora Svetlana Levkovets, 49 anos, está se acostumando a competir com celulares na sala de aula e tenta passar lições de casa que obriguem os seus alunos a trabalhar sem tecnologia.

“Basta dar tarefas nas quais as crianças tenham que comparar os fatos”, diz ela. “Assim, a internet não ajuda muito.”

Mas os adolescentes russos de hoje têm mais cartas na manga do que apenas seus celulares. Em maio, as respostas para o EGE (da sigla em russo, Exame Unificado Nacional), que tinha a intenção de revolucionar o sistema de ensino da Rússia, vazaram na rede social Vkontakte, o chamado “Facebook russo”.

Já a professora Lília Brainis, 24 anos, que lecionou por três anos no Liceu de Moscou 1535, considerado uma das melhores escolas da capital, acredita que não há motivo algum para lutar contra a tecnologia. “Em uma época em que todas as respostas podem ser encontradas on-line, são os professores que devem se adaptar”, diz ela.

No caminho do bem

A diretora do Instituto de Desenvolvimento de Ensino da Escola Superior de Economia, Irina Abánkina, acredita que os problemas envolvendo o EGE refletem a falta de valores da sociedade russa moderna e que, apesar de tudo, a reforma da educação está caminhando na direção certa.

De acordo com dados da da Escola Superior de Economia, desde que o EGE foi introduzido, em 2009, o número de estudantes que se mudou de cidade por motivos educacionais aumentou 16%.

No passado, cada universidade formulava seu próprio exame, e os alunos que queriam participar de determinado processo tinham que ir pessoalmente à instituição para fazer a prova. Como resultado, muitos faziam facul- dade na mesma cidade em que haviam crescido. “Antes do EGE, os estudantes que viviam fora das grandes cidades raramente tentavam entrar em algumas das melhores instituições”, diz Abánkina.

Desde a primavera passada, porém, todos os estudantes do último ano devem fazer um exame unificado, o GIA (da sigla em russo, Certificação Final do Estado) antes de continuar os dois últimos anos do ensino médio. Os alunos que não passam no exame continuam os estudos em uma escola profissionalizante.

De volta à URSS

Apesar de pequenas mudanças, o sistema educacional na Rússia moderna não difere muito do soviético. As crianças começam a escola em torno dos sete anos de idade e passam as quatro primeiras séries com o mesmo professor e colegas de classe.

A educação primária é considerada forte, mas, depois de os alunos passarem para o ensino secundário, as diferenças entre o currículo da Rússia e o de escolas de outros países ficam mais evidentes.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, aplicado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em 2009, revelou que estudantes russos na faixa dos 15 anos não têm capacidade de solucionar problemas em um contexto real e refletir sobre o significado do que leem, em comparação com seus pares de outros países.

Os resultados da avaliação foram particularmente surpreendentes porque os estudantes russos costumam rondar o topo dos rankings internacionais. O estudo Timms (da sigla em inglês, Tendências no Estudo de Matemática e Ciências), conduzido em 2011, inseriu os alunos russos da quarta e oitava séries no top 10 em todas as categorias entre os 57 países analisados.

Abánkina aponta que as razões por trás dos resultados recentes são claras. “A capacidade de aplicar o que se sabe, de pensar, realizar pesquisas e trabalhar em projetos continuam a ser o nosso ponto fraco. E já não tínhamos isso nas escolas soviéticas.”

As reformas educacionais que representarão uma ruptura com o passado soviético só foram lançadas agora, na forma da nova Lei sobre Educação, que entrou em vigor em 1º de setembro deste ano.

Novidades à vista

A implementação do novo sistema em todo o país só será concluída em 2020. A partir de então, todos os alunos do ensino médio escolherão alguns temas para estudo em profundidade e selecionar outras disciplinas optativas.

Outra parte da reforma envolve a consolidação das escolas. A crise demográfica no país resultou na falta de alunos em muitas regiões. Assim, entre 2000 e 2011, quase 30% das escolas russas foram fechadas.

Algumas escolas de pequeno porte passaram a compartilhar uma administração única ou, como no caso da escola 685 de São Petersburgo, onde Svetlana Levkovets leciona, duas escolas foram agrupadas em um único prédio. 

O novo edifício está localizado perto de uma via movimentada, bem diferente do pátio arborizado onde sua antiga escola ficava. Mesmo assim, Levkovets mantém o otimismo. “É interessante ver como o novo padrão vai funcionar”, afirma. “Na pior das hipóteses, nada mudará.”

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