Um passeio pelo melhor colégio russo

O liceu tem como parceiros instituições do ensino superior Foto: Elena Potchiótova

O liceu tem como parceiros instituições do ensino superior Foto: Elena Potchiótova

"Talvez seja uma coincidência que desde o início o liceu reúna almas gêmeas e que a administração da escola consiga criar e depois manter uma atmosfera única que facilita o aprendizado", confessa a diretora.

Segundo o ranking das escolas russas elaborado em colaboração com o Ministério da Educação, o liceu no1535 obteve os melhores resultados de aprendizado em todo o território do país durante o ano escolar de 2012-2013. Como os professores da instituição conseguem manter o alto desempenho dos seus alunos? Qual é o segredo dos bons resultados?

"Acredito que o alto desempenho já foi previsto pelos fundadores do colégio”, explica Tatiana Vorobieva, a diretora da escola. “Em 1999, o Instituto dos Países Asiáticos e Africanos da Universidade Estatal de Moscou (MGU, na sigla em russo) e os professores do internato no14 especializado em ensino do idioma chinês se reuniram e criaram um colégio cujo conceito permitiria oferecer aos alunos as amplas oportunidades de ensino de acordo com as suas preferências. Inicialmente, foram criadas duas turmas experimentais, onde os estudantes poderiam dedicar mais tempo às matérias do seu interesse. Em 1991, o internato adquiriu o direito oficial de ser chamado de liceu e começou a aceitar as inscrições das crianças de todos os bairros moscovitas, adotando um processo seletivo destinado a identificar os mais capazes e esforçados. O liceu foi ampliado e, hoje em dia, inclui 38 turmas, totalizando cerca de 1.080 alunos e oferecendo sete especializações diferentes.”

No entanto, os professores e os alunos são os mesmos que em outras escolas.

"Talvez seja uma coincidência que desde o início o liceu reúna almas gêmeas e que a administração da escola consiga criar e depois manter uma atmosfera única que facilita o aprendizado", confessa diretora.

Começamos a nossa excursão pelos ambientes escolares e logo notamos vários sofás confortáveis colocados ao longo do corredor, onde as crianças estão sentadas em posições diferentes sem receber nenhuma crítica por parte dos professores.

Iniciamos uma conversa com duas meninas da nona série sentadas uma ao lado da outra.

"Já mudei de escola duas vezes, e essa é diferente das outras", conta uma delas.  “Tem uma ótima atmosfera, os professores nos tratam como iguais, nos escutam e nos veem como adultos.”

“Temos algo que outros colégios não possuem”, entra na conversa outra menina.

“A escola do meu irmão também entrou na lista das melhores, mas os seus alunos não param de falar como se sentem orgulhosos. Nós também estamos muito felizes, porém entendemos que precisamos focar nos estudos.”

Foto: Elena Potchiótova

“Aqui ninguém dá importância às roupas do outro”, diz a primeira estudante. “Apesar de termos filhos de pessoas famosas entre os nossos colegas, que gostam de se exibir e demonstrar as roupas de grife, ninguém dá muita bola. Devido às aulas puxadas e à alta concorrência, precisamos nos manter focados nos nossos estudos. No meu colégio anterior eu sofria dores de cabeça e tinha uma enorme vontade de sair de lá assim que as aulas terminavam. Aqui isso nunca acontece”, diz a aluna. 

O liceu tem como parceiros instituições do ensino superior. Aliás, sete especializações oferecidas foram criadas para satisfazer as demandas dessas faculdades. Por exemplo, os perfis com foco nas ciências históricas e filológicas, assim como nas ciências sociais e econômicas, são destinados aos alunos que se veem como futuros estudantes do Instituto dos Países Asiáticos e Africanos da MGU. O perfil com foco em ciências sociais e humanitárias foi elaborado para os futuros estudantes das faculdades de direito, ciências sociais e ciências políticas. No entanto, ao contrário dos colégios comuns, o liceu não para de crescer e se desenvolver conforme as demandas do mercado, apesar da inexistência de qualquer exigência do Ministério de Educação.

 “Apesar de termos filhos de pessoas famosas entre os nossos colegas, que gostam de se exibir e demonstrar as roupas de grife, ninguém dá muita bola. Devido às aulas puxadas e à alta concorrência, precisamos nos manter focados nos nossos estudos"

As alunas entrevistadas pela reportagem são integrantes da turma focada em ciências humanitárias. Elas contam que os seus professores preferidos ministram as aulas de literatura, história e física. Surpreendidos com a última opção, vamos conhecer Andrêi Khotuntsev, seu professor de física.

No fim do dia escolar, a sala de aula encontra-se vazia, mas serve como um palco para debates sobre uma batalha histórica entre o próprio professor e um dos seus alunos.

"Os estudantes não querem deixar a sala de aula nem durante o intervalo”, confessa Khotuntsev. “Eles estão sempre dispostos a debater. E eu entendo, pois aqui se passa uma grande parte da vida deles.”

O professor é um membro da equipe escolar desde o primeiro dia da sua fundação.

“Este é o nosso liceu”, diz ele. “As pessoas se reuniram e criaram um ambiente confortável, que valoriza a curiosidade natural. Nós trabalhamos com as crianças que gostam de estudar. Antes de tudo, o professor deverá amar a sua matéria para poder despertar o interesse dos alunos. E isso cria o verdadeiro conhecimento e a capacidade de ensinar.”

Ao contrário das outras escolas, onde o processo de ensino tende a ser simplificado, os professores do liceu organizam atividades externas, como excursões a museus, que facilitam o processo de aprendizado. Apesar do método não apresentar nenhuma inovação, a maioria das escolas preferem não incluí-lo na sua agenda. 

Na opinião dos professores do liceu, uma escola eficiente não segue à risca as regras do Ministério da Educação, mas trata-as como uma base, dando mais liberdade aos professores e incentivando a curiosidade dos seus alunos.

Mas, enfim, qual é o principal segredo do liceu? São os professores competentes ou uma boa organização?

“Não sei”, confessa Assia, uma das alunas entrevistadas. “Mas aqui, ao contrário de outros colégios, todos os alunos tem um armarinho próprio, ou seja, cada um tem o seu próprio lugar.”

   

Foto: Elena Potchiótova

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