Pesquisa indica desinteresse dos russos por política

Muitos dos russos estão com a sensação de que a política é para os ricos e que as pessoas comuns não têm nada a esperar dela porque a política não tem nada a ver com seus interesses nem problemas Foto: AFP / EastNews

Muitos dos russos estão com a sensação de que a política é para os ricos e que as pessoas comuns não têm nada a esperar dela porque a política não tem nada a ver com seus interesses nem problemas Foto: AFP / EastNews

Desconfiança no governo é uma das principais causas para o desinteresse, segundo especialistas.

Segundo recente pesquisa, cerca de 66% dos russos são indiferentes à situação política do país. Os especialistas explicam isso pelo fato de a maioria da população estar focada em seus problemas cotidianos e desconfiar do governo.

Levantamento realizado pelo Centro de Análise Iúri Levada (Levada Center) mostrou que, entre as opções de proposta, 34% dos entrevistados escolheram "não gosto de política " e 29% se declaram indiferentes à política e disseram "não se preocupar com isso".

"A maioria dos russos, exceto a população de algumas grandes cidades, está tentando sobreviver. Portanto, eles estão mais preocupados com o problema da pobreza, da alta dos preços dos serviços públicos e dos alimentos e com seus baixos salários. Quando as pessoas estão satisfeitas com a vida e abastecidas do necessário, elas começam a se preocupar com  ecologia, política e valores democráticos", disse um dos sociólogos do Levada Center Oleg Savéliev.

A desconfiança no governo é uma das principais causas para o desinteresse da população pelo tema. De acordo com o diretor do departamento de pesquisas sociais e políticas do Centro de Estudos de Opinião Pública (VCIOM, na sigla em russo), Stepan Lvov, a desconfiança no governo é sentida nos mais diversos domínios: do econômico ao cultural, e provoca o desinteresse pela política.

As pessoas que, apesar de tudo, se interessam pela política, apresentam algumas caraterísticas comuns –são consideradas "classe média urbana", como explica o funcionário do Instituto de Sociologia da Academia de Ciências da Rússia, Leônti Brizgalov. Essa categoria engloba pessoas com uma renda e nível de educação mais elevados e moradores de grandes cidades.

"Como resultado, muitos dos russos estão com a sensação de que a política é para os ricos e que as pessoas comuns não têm nada a esperar dela porque a política não tem nada a ver com seus interesses nem problemas", acrescentou o sociólogo.

De acordo com Savéliev, a maioria dos russos simplesmente não entende o que a competição política é e nem por que ela é necessária. "Nunca tivemos tradições de luta política no país: tanto na Rússia antiga quanto na União Soviética não houve partidos políticos", disse Savéliev.

Já Brizgalov afirma que, apesar de essa opinião ter sido reforçada nos últimos 20 anos, os anos 1990 foram marcados por um grande interesse da população pela política.

"Desde então, porém, as pessoas se sentem afastadas do governo do país, considerando que todas as questões políticas são resolvidas em um círculo estreito e que nada depende de sua opinião nem de seus votos nas eleições. Portanto, tudo o que está associado à política é visto pela população como elemento decorativo. A política só interessa àqueles que nela estão diretamente envolvidos", disse Brizgalov.

Por outro lado, a atitude dos russos para com a política não é uma constante.

"A atitude de pessoas pode mudar e, por vezes, de forma dramática, até se tornar contrária. Isso pode acontecer quando as pessoas tomarem conhecimento de que algumas irregularidades incompatíveis com suas noções de moralidade ou da ordem pública estão acontecendo. Portanto, a atitude dos entrevistados para com a política é causada pela situação vivida em um momento em que estão sendo questionados", disse Stepan Lvov.

Mesmo assim, os especialistas apontam uma tendência positiva observada nos últimos 18 meses.

"Eu diria que o interesse da população pela política começou a crescer após os acontecimentos na Praça Bolótnaia. A sociedade começou a se aquecer. Além disso, a nova geração quer ser ouvida e não está interessada na estagnação. Pessoas estão começando a desejar mudanças e influenciar a situação no país", concluiu Brizgalov.

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