Jovem russo passará inverno vivendo nas condições da Idade Média

A experiência é dura, mas Pável terá especialistas acompanhando sempre a sua situação Foto: Dmítri Vinogradov/RIA Nóvosti

A experiência é dura, mas Pável terá especialistas acompanhando sempre a sua situação Foto: Dmítri Vinogradov/RIA Nóvosti

Pável Sapójnikov viverá até março isolado em uma casa de campo que emula as condições encontradas na época da Idade Média; objetivo é verificar como se comportam na prática os instrumentos medievais que conhecemos e o que acontece com a psique de uma pessoa que se torna eremita voluntário durante algum tempo.

Um experimento em grande escala conduzido por reconstrutores históricos e amantes da história começou nos subúrbios de Moscou. Nele, um jovem de 24 anos de idade terá que abdicar de todas as invenções da modernidade e viver seis meses rodeado apenas com a tecnologia existente na Idade Média: sem internet, eletricidade ou roupas modernas. O objetivo é verificar como se comportam na prática os instrumentos medievais que conhecemos e o que acontece com a psique de uma pessoa que se torna eremita voluntário durante algum tempo.

Um dia antes do início do experimento, Pável Sapójnikov coloca de lado tudo que nos próximos seis meses não vai usar: iPad e iPhone, um rolo de fita adesiva e fósforos. Em seu lugar entram pederneira e barrinha de ferro para fazer fogo, fivela-botão, um pente, pedras de afiar, antigas tesouras de mola, um pedaço de cera para passar nos fios (eles assim furam melhor as peles) e "a ferramenta mais importante de todas: um machado".

"Pode se fazer tudo o que se quiser com o machado", diz Pável.

"Muitos objetos permaneceram imutáveis durante séculos”, diz Pável, ao mesmo tempo que admira o machado. “Os nossos ancestrais inventaram a forma ideal."

Pável amarra todos os "gadgets", exceto o machado, no cinturão de couro, que depois coloca em volta da cintura.

A vida sem milho, batatas e tomates

Esta casa medieval, recriada a partir dos achados nas escavações arqueológicas, fica a apenas 45 quilômetros de Moscou, perto da movimentada rodovia de Iaroslavski. No pátio há cabras e galinhas correndo e, vestindo uma camisa velha e com botas de couro nos pés, um gigante de barba ruiva tenta fazer fogo.

Este gigante é Pável, o herói do experimento. Durante seis meses ele vai viver sozinho no pequeno sítio recriado a partir dos achados de escavações arqueológicas de Novgorod do século 9, irá se alimentar com o menu de 1.000 anos atrás e terá que sobreviver ao inverno russo sem aquecimento central.

No meio do sítio fica uma casa comprida formada por três cômodos. O do meio é um quarto de habitação com uma pequena lareira. Em vez da habitual cama haverá um banco corrido coberto com peles. No teto está pendurado peixe seco e cogumelos, em um canto há uma tina de madeira com arando e toucinho. Sente-se o forte cheiro a peixe no ar. Segundo os organizadores, é precisamente no cômodo mais quente que o peixe tem que secar. Há ainda um celeiro lotado de vários tipos de cereais, mas apenas os conhecidos dos europeus do século 9. O milho, por exemplo, viria a ser descoberto por Colombo com a sua chegada à América quinhentos anos mais tarde.

A última divisória da casa é para os animais, onde ficarão as galinhas e as cabras. Os organizadores trouxeram para Sapojnikov comida e animais para os primeiros tempos. Além disso, ele terá que caçar lebres e raposas nas florestas circundantes. No entanto, só pode recorrer à ajuda dos métodos antigos: com armadilhas.

"Achamos que seria interessante ver como uma pessoa consegue viver a inter-estação, ou seja, o outono e o inverno, quando a comida e os suprimentos escasseiam e quando os dias são mais curtos”, explica o promotor do projeto, Aleksêi Ovcharenko. O projeto deve durar até 22 de março, o dia do equinócio e o começo do novo ano no calendário eslavo.

"Um homem escolhe sozinho o seu caminho. Aqui é mais seguro do que em Moscou e eu não concordo quando dizem que ele vai assim riscar seis meses da sua vida. Afinal de contas, ele pode sempre terminar os estudos a qualquer hora, tal como obter uma carreira", diz a mãe de Pável.

No entanto, o que Pável mais teme não é frio, mas a fome de informação –teme sentir falta dos livros, jornais e internet.

Como a cabra sobrevive sem ração

Não apenas Pável Sapójnikov estará sendo analisado, mas também os sapatos de couro que ele tem calçados. Verificar quanto tempo é que eles duram é uma dos objetivos da experiência. Os autores classificam este projeto como “arqueologia experimental”. "Quantas vezes terá ele que cerzir as meias de lã? Quanto tempo irá durar os esquis e as facas? Será ou não seguro o teto coberto com peles? Queremos verificar muitas pequenas curiosidades da vida comum", explica um dos organizadores do projeto.

Os animais do sítio também estarão sob observação. Quando as cabras foram trazidas para cá davam um litro e meio de leite por dia. Agora que deixaram de ser alimentadas com ração e de levar antibióticos, a produção de leite caiu para metade. "Queremos ver como esta alteração se fará sentir na produção de leite e no tamanho dos ovos. Serão as cabras e galinhas da próxima geração menores do que as de agora? Como é que elas serão afetadas pelo pastoreio livre e pela falta de químicos no alimento?”,  questiona Ovcharenko.

A experiência tem ainda um aspecto psicológico. Os organizadores querem descobrir como a vida solitária atua sobre o indivíduo. "Nós enviamos Pável deliberadamente sozinho para o ‘passado’. A imersão na sua realidade e o desprendimento da realidade moderna será assim mais profunda”, comenta Ovcharenko. “Se ele ficasse aqui com um parceiro, eles, mesmo sem querer, acabariam por discutir algumas questões contemporâneas."

A continuação lógica da reconstrução

Pável não tem curso superior. Ele terminou quatro anos do curso universitário de Medicina de Emergência, mas acabou por desistir e por se dedicar às reconstruções históricas, que viraram a sua profissão. As pessoas próximas aprovam a decisão. A noiva, Irina, ajuda Pável a equipar o sítio.

"Um homem escolhe sozinho o seu caminho. Aqui é mais seguro do que em Moscou e eu não concordo quando dizem que ele vai assim riscar seis meses da sua vida. Afinal de contas, ele pode sempre terminar os estudos a qualquer hora, tal como obter uma carreira", diz a mãe de Pável, que também se chama Irina. O fato de o seu filho, "no auge das forças", se condenar ao confinamento voluntári, de modo algum a assusta.

A experiência é dura, mas Pável terá especialistas acompanhando sempre a sua situação. Do outro lado da sebe ele será sempre observado de perto por um cronista, com o qual Pável está proibido de se comunicar. Uma vez por mês ele receberá no sítio a visita de um médico e um psicólogo, que vão avaliar seu estado.

Um dia por mês ele terá direito a receber a visita dos familiares. Tirando o dia da visita, a família só poderá acompanhar o que está acontecendo com o seu ente querido através do blog e das mensagens do cronista. Além disso, Pável será o protagonista de um filme dedicado a esse experimento. De acordo com os organizadores, o orçamento da reconstrução histórica está atualmente em cerca de 2 milhões de rublos (cerca de US$ 62 mil).

 

Publicado originalmente pela RIA Nóvosti

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