Pussy Riot põe prisões em evidência

Na Rússia, há cerca de 58 mil mulheres encarceradas Foto: RIA Nóvosti

Na Rússia, há cerca de 58 mil mulheres encarceradas Foto: RIA Nóvosti

Iniciativa declarada na semana passada por uma das integrantes da banda punk russa Pussy Riot, Nadejda Tolokônnikova, gerou enxurrada de comentários sobre a situação das detentas na Rússia, assim como investigação do comitê de direitos humanos.

No início da semana passada, Tolokônnikova escreveu uma carta aberta no qual denunciava casos de maus-tratos às detentas e ameaças de morte por parte da diretoria do presidio, e declarou greve de fome. A diretoria do estabelecimento rejeitou as acusações, alegando que a situação das detentas no presídio situado na Mordóvia "não é muito diferente da de colônias penais em outras regiões do país". Mesmo assim, c Conselho de Direitos Humanos junto à Presidência do país exigiu a realização de inspeções.

Na Rússia, há cerca de 58 mil mulheres encarceradas. Para entender a realidade delas, a repórter da Gazeta Russa também visitou um presídio feminino na região de Ivánovo, semelhante ao local onde Tolokônnikova está presa. Perto de uma muralha alta de aço, três enormes pastores-alemães latem ferozmente para uma fila de detentas. As mulheres param sem dizer uma só palavra. Uma cerca separa a área das celas de uma oficina de costura onde as detentas trabalham.

"Abram as maletas", grita uma agente penitenciária. As detentas obedecem e abrem suas maletas e sacos de plástico, mostrando um par de sapatos para o uso no interior do presídio e um uniforme de trabalho. A guarda revista cada detenta, procedimento padrão ao entrar e sair da oficina.

"A medida visa impedir que as detentas levem da oficina coisas que possam ser usadas como arma em brigas. As mulheres são mais violentas do que os homens", comenta a guarda.

Nos quartos, panos molhados para seca estão pendurados por diversos fios esticados. O piso de madeira rangendo de um longo corredor está cheio de bacias com roupas molhadas. "Tirem essa porcaria anti-higiênica daqui! Querem passar algum tempo na solitária?", grita outra funcionária da equipe de segurança. As garotas rapidamente se mexem para organizar o espaço, e a sensação é de estar em um alojamento coletivo feminino da época soviética.

Pelo regulamento, na oficina de costura, todas as detentas devem trabalhar. No entanto, um grupo de ciganas permanece à parte, cortando os fios pendurados das peças prontas, pois a diretoria não lhes confia máquinas de costura. Quase todas as ciganas estão cumprindo penas por tráfico de drogas e, nos últimos anos, o seu número vem crescendo.

Com saias azuis abaixo do joelho, jaquetas largas informes e lenços brancos, as presidiárias parecem todas iguais. Apenas Alina, 20 anos, se destaca das outras detentas que enchem a oficina de costura. Uma mecha de dreads escapando do lenço, além dos piercings no nariz e na sobrancelha, são uma recordação de sua vida em liberdade, quando frequentava discotecas e show de rock. "Nunca pensei que pudesse ficar aqui entrecriminosas. É um pesadelo", conta Alina. "Mas o pior é que aqui o pessoal se devide em grupos. Você tem de ter coragem para se defender. Esses grupos colaboram com a diretoria da colônia para ter mais facilidades em controlar as demais detentas", diz Alina.

Alina havia estudado Química e vendia drogas leves após as aulas. Foi condenada a três anos de prisão e teve sua vida completamente alterada após chegar à colônia. "Vivia tensa nos seis primeiros meses. Agora consegui mais ou menos controlar minha situação", conta.

De acordo com Aleksandr Egorov, diretor do mais antigo centro de ressociliazação de presos da Rússia, as mulheres raramente se dirigem ao seu estabelecimento e quase nunca voltam a cometer crimes após a prisão. "Paramos de trabalhar com ex-detentas. Elas não precisam de nossa ajuda", explica Egorov. "Somos raramente abordados por mulheres reincidentes. Na maioria das vezes, são criminosas de longa data com as quais é impossível trabalhar, embora o governo pretenda criar para elas um centro especial", continua.

Por outro lado, a presidente da Fundação Inter-Regional de Assistência aos Reclusos e membro da Câmara Pública da Federação Russa, Maria Kannabikh, confirma a existência de problemas nas colônias penais russas. "Tolokônnikova tem razão em dizer que o sistema penitenciário russo deve estar sempre em processo de aperfeiçoamento para se tornar mais humano. Mas, infelizmente, temos muitas colônias penais com problemas. Em muitas delas, os detentos trabalham mais de oito horas por dia", diz a especialista. "Eles trabalham 10 a 11 horas por dia, recebendo salários iguais aos funcionários contratados. Alguns deles me disseram receberem sete mil rublos [cerca de R$ 480] por mês como os funcionários da cantina", acrescenta Kannabikh.

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