“É possível falar russo sem conseguir ler Dostoiévski”

Entusiasmo pela cultura russa leva ao interesse em relação à língua, aponta Petrov Foto: PhotoXPress

Entusiasmo pela cultura russa leva ao interesse em relação à língua, aponta Petrov Foto: PhotoXPress

Poliglota, tradutor, psicolinguista e apresentador de TV, Dmítri Petrov reflete sobre as dificuldades de aprender a língua russa.

Gazeta Russa: Qual papel a psicologia desempenha na hora de aprender um novo idioma?

Dmítri Petrov: A aprendizagem de línguas envolve psicologia e matemática. A matemática está representada no idioma pelo conjunto de algoritmos básicos, e o aspecto psicológico é a superação de barreiras, a sensação de conforto, liberdade e satisfação. Em muitos alunos está presente a sensação de pânico, o medo de cometer um erro. Isso, muitas vezes, atrapalha mais do que as dificuldades objetivas relacionadas com a assimilação de novas informações.

GR: Quais motivações costumam levar uma pessoa a estudar a língua russa?

DP: Tenho experiência de ensinar russo para diplomatas e empresários de diferentes países. A motivação dessas pessoas é óbvia; o idioma é indispensável para que possam desenvolver o seu o trabalho. São o tipo de pessoa para as quais a carreira ou o negócio é a coisa mais importante na vida. Além disso, foi na Rússia que eles receberam a possibilidade de se desenvolver. Mas, não é raro acontecer de uma pessoa que nunca esteve em nosso país se interessar pelo estudo da língua russa. Neste caso, via de regra, trata-se do entusiasmo em relação à cultura russa, e depois surge o interesse em relação à língua.

A propósito, muitos estrangeiros ficam surpreendidos com a vida cultural na Rússia. Eles descobrem que neste país há muitos lugares interessantes além do Kremlin de Moscou e do Hermitage, em São Petersburgo. Eles acham estranho, com razão, o fato da Rússia não desenvolver o turismo em seu território de uma maneira mais ativa.

GR: Muitos estrangeiros têm a percepção de que é muito difícil aprender russo. Isso é verdade?

DP: Durante o processo de aprendizagem de qualquer idioma é necessário apresentar ao estudante as suas vantagens e a sua riqueza. Sim, na língua russa há um sistema de declinações; em compensação, não existem os artigos. No idioma russo, há um sistema de conjugações, mas também há muito menos tempos verbais do que no inglês, por exemplo. Além disso, apesar de a língua russa ser baseada no alfabeto cirílico, a ortografia difere muito menos dos aspectos fonéticos da língua, quando comparada a outras línguas europeias. Ou seja, para cada aspecto negativo há, em contrapartida, um aspecto positivo. E é a partir daí que devemos começar!

GR: Existe alguma maneira de facilitar o estudo da língua russa?

DP: É muito importante estudar a língua por etapas. Inicialmente, é indispensável consolidar o nível fundamental. Não se pode, desde o início, explicar aos estudantes estrangeiros as formas de particípio que, além disso, já não são mais usadas há muito tempo na linguagem coloquial. Em outras palavras, se você ainda chegou à fase de ler Dostoiévski, é possível se virar muito bem sem isso. E não há nada de repreensível nessa situação. Nem todos, mesmo entre os russos, leem Dostoiévski, assim como, nem todos os ingleses leem Shakespeare. 

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