Escândalo envolvendo Museu do Poder chama atenção para causa gay

"A arte está sempre no limite da provocação", diz diretor do museu interditado Foto: ITAR-TASS

"A arte está sempre no limite da provocação", diz diretor do museu interditado Foto: ITAR-TASS

Quadros provocativos representando figuras públicas foram confiscados em galeria de São Petersburgo.

Na semana passada, a polícia selou as instalações do Museu do Poder, em São Petersburgo, Onde eram apresentadas pinturas com imagens provocantes de altas personalidades, políticos e líderes religiosos.

No total, quatros pinturas foram apreendidas: “Travesti”, que trazia o presidente russo Vladímir Pútin e o primeiro-ministro Dmítri Medvedev vestidos em trajes íntimos femininos; “Sonhos Eróticos da Deputada Mizulina”, em referência à autora da lei que proíbe a propaganda gay entre os menores; “Da Confissão”, retratando o Patriarca Kirill com tatuagens típicas de prisioneiros; e “Milonov no Arco-Íris”, um retrato do deputado de São Petersburgo conhecido por sua luta contra a propaganda homossexual que tem como pano de fundo a bandeira utilizada como símbolo da comunidade LGBT.

Fontes do Ministério do Interior explicaram que a intervenção da polícia foi conduzida após um aviso de cidadãos sobre a violação da lei antigay por parte dos organizadores da exposição. As obras apreendidas foram então enviadas para análise.

No entanto, o proprietário da galeria, Aleksandr Donskoi, explicou à Gazeta Russa que os policiais não apresentaram quaisquer documentos para confiscar os trabalhos, de modo que a atuação policial poderia ser considerada ilegal.

Sátira política

Aleksandr Chaburov, pintor e membro da associação “Narizes Azuis”, já recorreu muitas vezes a imagens de políticos de diferentes países em suas obras. Entre os protagonistas de suas obras já estiveram Vladímir Lênin, Vladímir Pútin , o presidente da georgiano Mikhail Saakashvili e a ex-primeira-ministra ucraniana Iúlia Timochenko. O artista explica o uso de políticos em seus trabalhos para atrair a atenção do público. Certa vez, a sua obra “A Era da Misericórdia”, na qual dois homens com uniforme policial se beijavam, não recebeu autorização para deixar o país para uma exposição no exterior.

“Umas pessoas de uniforme nos levaram quatro obras, uma das quais acabamos encontrando em uma delegacia de polícia, enquanto as outras simplesmente desapareceram. Estas obras são propriedade do artista e ele gostaria de tê-las de volta”, disse Donskoi. “À exceção de um tenente, nenhum dos policiais se identificou, mas nós reconhecemos ainda Milonov. Ele disse que estamos envolvidos em atividades extremistas. Mas, afinal de contas, foi ele que entrou no nosso espaço e insultou o trabalho dos nossos artistas.”

Donskoi, que já foi prefeito de Arkhanguelsk e atualmente dirige diversos museus em Moscou e São Petersburgo, alega que a arte contemporânea tem sido muitas vezes alvo de escândalos. “A arte está sempre no limite da provocação, mas tem um certo exagero nisso. Alguns de nossos trabalhos, pelo contrário, eram muito positivos em relação às nossas mais altas entidades. A arte deve provocar emoções”, acrescentou.

O ex-diretor do Museu de Arte Contemporânea de Perm, Marat Guelman, concorda que qualquer trabalho só pode ser confiscado com ordem do tribunal. Além disso, o comportamento dos policiais apenas chamou atenção para um evento que, sem isso, continuaria apagado. “Era uma exposição fraca e desinteressante que teria passado despercebida, mas agora todo mundo sabe que trabalhos estavam lá. A polícia acabou fazendo publicidade gratuita ao artista e ao proprietário da galeria”, diz Guelman.

Segundo ele, os políticos deveriam ficar contentes por alguém retratá-los em obras irônicas. “Tudo o que acontece dentro do espaço artístico, inclusive as críticas ao governo, é normal. Isso deveria deixar as pessoas felizes. A ironia é própria da cultura russa.”

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