Polícia inicia caça aos empregadores de imigrantes legais

Atualmente, imigrantes legais são enviados para campos de acolhimento e depois deportados para seus países de origem Foto: RIA Nóvosti

Atualmente, imigrantes legais são enviados para campos de acolhimento e depois deportados para seus países de origem Foto: RIA Nóvosti

Ao contrário da iniciativa atual de perseguir os imigrantes, autoridades focarão nos indivíduos responsáveis pelos esquemas de mão de obra ilegal. Empresários duvidam que medida se mostre eficaz por causa da corrupção interna na polícia.

Às vésperas das eleições para prefeitura de Moscou, no dia 8 de setembro, imigração continua sendo uma das questões mais debatidas. Nos últimos dias, o chefe da direção geral do Ministério do Interior para a cidade de Moscou, Anatóli, foi severamente criticado pela implementação da polêmica iniciativa de colocar os imigrantes ilegais em campos de acolhimento, do tipo “guetos”, especialmente criados nos arredores de Moscou.

A polêmica veio à tona porque, segundo o jornal “RBC Daily”, a ação da polícia se limita a algumas batidas em mercados e prédios em construção ou ao transporte de imigrantes ilegais para esses campos e posterior deportação.

“Os mecanismos existentes de combate à imigração ilegal que se limitam a elaborar relatórios administrativos e a deter os indivíduos não nos permitem proteger plenamente os interesses dos cidadãos. Temos de mudar a nossa tática, instaurar processos criminais, especialmente no que diz respeito aos empregadores sem escrúpulos”, disse o chefe da polícia de Moscou em uma recente reunião da diretoria.

As subdivisões da polícia já receberam ordem para orientar seus agentes a procurar as pessoas que empregam os imigrantes ilegais. “As batidas não vão parar, mas vai se alterar o mecanismo de ação depois de se pegar um imigrante ilegal: se atualmente ele é levado para a delegacia e, em seguida, enviado para um campo de acolhimento, a partir de agora os agentes vão se focar em descobrir onde ele trabalha e quem o empregou”, disse a fonte do “RBC Daily” no departamento central da capital.

Dependendo de sua colaboração com as autoridades policiais, alguns imigrantes ilegais poderão até mesmo ser libertados. “É claro que isso não será prática oficial, mas esse sistema de recompensa talvez funcione”, acredita a polícia de Moscou.

Os primeiros resultados positivos dessa medida já podem ser observados. Alguns dias atrás, policiais do UVD (Gabinete da Administração Interna) dos municípios de Troitski e Novomoskovski fizeram uma batida no mercado Mejdunarodni. Na sequência, foi instaurado um processo de responsabilidade criminal contra o diretor do mercado, D. Djafarov, o sublocatário do ateliê de costura, M. Danilov, e o gerente do mesmo ateliê, S. Juraev. Os suspeitos não foram libertados sob fiança, como costuma ser a prática nesses casos, mas colocados em um centro de detenção.

Punição severa

O chefe do Comitê da Duma (câmara dos deputados da Rússia) para o Trabalho e Política Social, Andrei Isaiev, falou sobre as batidas policiais na capital em uma coluna no jornal “Komsomolskaia Pravda”. Em seu artigo, Isaiev escreveu sobre a necessidade de reforçar as medidas de ação contra os empregadores que recorrem a mão de obra ilegal.

“Devemos considerar penas severas de prisão, e não apenas multas altas. No entanto, é importante fazer uma distinção entre aqueles que usam mão de obra ilegal em escala industrial e que criam com isso nichos escravagistas em nossa economia e os cidadãos comuns que resolveram recorrer a imigrantes para suas datchas [casas de campo] e hortas”, disse Isaiev, acrescentando que a Duma vai viabilizar as mudanças legislativas pertinentes.

A presidente do Conselho Público sob a alçada do Ministério do Interior para a cidade de Moscou, Olga Kostina, acredita que a pasta não deve esperar pelos deputados, mas, em vez disso, desenvolver um projeto de lei que torne mais pesadas as penas para os empregadores.

“O golpe sem precedentes na captura de imigrantes ilegais e os campos de acolhimento temporário fazem parte da luta contra as causas, mas não contra as consequências: a detenção e deportação de imigrantes pode ser um processo interminável e bastante doloroso”, disse. “É necessário que as pessoas que estão realmente envolvidas no comércio dessa mão de obra sejam, no mínimo, privadas de seus negócios e, no máximo, de sua liberdade.”

Trabalho dobrado

A medida também vai aumentar o trabalho polícia na hora de buscar de evidências. “A responsabilidade penal vem não apenas da contratação de imigrantes ilegais, mas de redes que põem esses imigrantes dentro do país, arranjam moradia, etc., isto é, toda uma organização de recepção do trabalhador estrangeiro ilegal”, diz o advogado sênior da firma jurídica Iakovlev & Parceiros, Anton Alekseiev . “Será difícil documentar tudo isso.” Os empregadores que forem pegos nesse esquema poderão pegar até sete anos de prisão, além de arcar com uma multa de até 500 mil rublos.

Ainda assim, a operação especial da polícia não convence os membros da comunidade empresarial. “O mecanismo é unilateral. Eu não acredito que ele consiga levar ao efeito desejado. Precisamos de regras de jogo transparentes, caso contrário isso vai simplesmente levar ao aumento da corrupção”, diz o chefe do OPORA Rossii, Aleksandr Bretchalov.

“É claro que tem muitos problemas relacionados com os imigrantes. Mas nós introduzimos regras que não são aplicadas na prática e que não funcionam. Por exemplo, a de querer tornar obrigatório que os imigrantes saibam falar russo e outras dos gênero”, argumenta o empresário.

 

Publicado originalmente pelo jornal RBC Daily

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