Universidades russas não respondem às necessidades econômicas

Rússia já sofre com falta de profissionais de TI, especialmente nas grandes cidades como Moscou e São Petersburgo Foto: Kommersant

Rússia já sofre com falta de profissionais de TI, especialmente nas grandes cidades como Moscou e São Petersburgo Foto: Kommersant

Quase 6% dos jovens especialistas russos inscrevem-se na Bolsa de Trabalho, logo após concluírem a formação universitária. As universidades russas continuam se orientando pela quantidade de vestibulandos em vez de focar no mercado. Isso porque os estudantes que pagam propinas acabam se tornando financiadores suplementares dos estabelecimentos de ensino superior.

Há muito tempo se discute que o sistema de ensino russo está desatualizado. Os gestores de empresas reclamam que os concorrentes às vagas não estão em condições de aplicar na prática os conhecimentos teóricos que adquiriram durante o curso. Por isso, precisam ser treinados novamente nas empresas.

“Perdemos um tempo enorme. Temos que tirar profissionais nossos de suas funções para treinar os recém-formados”, afirma Elena Kotova, diretora de RH do grupo Labirint. “A empresa espera se beneficiar com estes funcionários no futuro, mas acontece que 90% destes, logo que ganham experiência, mudam-se para outras empresas. Só é possível mantê-los aumentando o salário, o que não nos adianta nada.”

São cada vez mais comuns as empresas que focam em candidatos jovens por remunerações modestas. Em 2009, os novos especialistas tinham acesso apenas a 2% das vagas existentes, mas esse índice subiu para 8% no ano passado. Nessas empresas há alta rotatividade e os ordenados não são altos, mas os jovens trabalhadores desfrutam da possibilidade de aliarem a prática à teoria que haviam já adquirido.

De acordo com o site HeadHunter, os mais baratos no mercado de trabalho são os ajudantes de advogado, cujo salário não vai além dos 23 000 rublos (cerca de US$ 709).

“Há advogados demais no país. No ano passado, havia, em média, nove currículos para cada vaga. Com uma concorrência dessas, fica difícil alguém arranjar trabalho de acordo com a sua especialidade”, salienta Irina Sviatítskaia, diretora do site de empregos career.ru.

Em compensação, apesar do grande volume de economistas recém-formados, eles continuam a ser uns dos especialistas mais procurados. “O segredo é que os economistas são usados na área de vendas, onde sempre são necessários em grandes quantidades”, explica Irina Abankina, diretora da Escola Superior de Economia. “O perfil destes especialistas é muito amplo, pelo que podem cumprir funções desde vendedor até analista.”

No ano passado, o maior número de vagas para jovens especialistas (11% do total) estavam concentradas na área de vendas e finanças. O menor número de candidatos foi verificado nos call centers (menos de dois candidatos para cada vaga aberta), já que os jovens com curso superior acabam procurando cargos mais altos.  

TI em falta

Em 2015, a área de tecnologia da informação (TI) vai apresentar um déficit de 320 mil pessoas. Atualmente, trabalham na Rússia cerca de um milhão de especialistas em TI, o que corresponde a apenas 1% do PIB. Nos países desenvolvidos, essa a marca chega a 4%.

“Hoje em dia, a indústria de TI é a área que cresce mais rapidamente, e já há falta de especialistas na Rússia, especialmente em Moscou e em São Petersburgo”, diz Irina Abankina, da Escola Superior de Economia.

Em 2011, a economia russa precisava de 80 mil novos especialistas na área de TI e recebeu apenas 70 mil. A curto prazo, haverá também procura de ecologistas e especialistas em nanotecnologia.

Os estabelecimentos de ensino superior russos não estão adaptados à dinâmica do mercado do trabalho. Além disso, o diretor científico do centro de ensino Eureka, Aleksandr Adamski, está convencido de que a escolha da profissão é feita não pelos estudantes, mas pelos pais, que não levam em conta fatores objetivos. “A decisão é habitualmente tomada pelos adultos, que são influenciados pela própria experiência, estereótipos e até superstições”, afirma.

Adamski acredita que a atual situação é mais difícil do que a dos tempos soviéticos. “Adivinhar hoje qual a profissão futuramente mais requerida é impossível”, ressalta o especialistas. “Os pais acabam por pensar que ‘o melhor é o meu filho aprender uma profissão qualquer, depois há de encontrar algo que goste de fazer’. Essa forma de pensar até tem certo fundamento, pois muitas pessoas de sucesso não trabalham na área da sua especialidade”, afirma o diretor científico.

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