Sem dar sorte ao azar

Transeuntes amarram fitas e cadeados na ponte Lujkov, em Moscou, na esperança de encontrar a sua alma gêmea Foto: Lori / Legion Mídia

Transeuntes amarram fitas e cadeados na ponte Lujkov, em Moscou, na esperança de encontrar a sua alma gêmea Foto: Lori / Legion Mídia

Um dos temas favoritos da comunicação intercultural entre russos e estrangeiros russos é a discussão de presságios e superstições. Mas, afinal, o que se deve evitar na Rússia para não atrair uma desgraça?

Não sendo uma pessoa muito supersticiosa, eu não iria sobrecarregar o leitor com os diferentes presságios. No entanto, isso acabou por surgir de um mero acaso. Uma vez, depois de uma grande tempestada, eu e os meus amigos italo-franceses entramos em minha casa, onde tive a infelicidade de abrir o guarda-chuva para que ele secasse como deve ser. De repente, todos correram para fechá-lo. Assim, soube pela primeira vez que abrir um guarda-chuva dentro de casa na Europa (assim como no Brasil) pode atrair um grande azar.

Palavra puxa palavra, e tive de descrever os nossos presságios russos. Aqui vão os mais comuns:

1. Não se deve entregar nada pela soleira da porta. Todos conhecem esse presságio desde a infância, mas ninguém sabe direito o motivo.

Antigamente, havia o costume na Rússia de guardar as cinzas dos antepassados na soleira da porta. Por isso, quanto menos esse lugar fosse perturbado, melhor. Se passava por cima dela sem pisar, as pessoas nunca se sentavam em cima dela, nem nunca entregavam nada por cima da soleira. A soleira da porta também era considerada como uma espécie de fronteira entre os dois mundos e um abrigo dos demônios. Assim, era preciso ultrapassá-la o mais depressa possível e nunca ficar aí muito tempo.

2. Não se deve voltar atrás depois de percorrido meio caminho. Se houve necessidade de regressar, se deve obrigatoriamente olhar três vezes para um espelho por cima do ombro esquerdo, se não pode acontecer algum azar pelo caminho. 

Por mais paradoxal que pareça, essa superstição também está ligada ao presságio anterior. Se considera que se a pessoa regressou sem ter atingido o objetivo, as suas forças vitais estarão enfraquecidas e na soleira da porta (que, como recordamos, é o abrigo das forças demoníacas), ele será precisamente apanhado pelos demônios. Agora a outra questão: por que olhar para o espelho por cima do ombro esquerdo? Como se sabe, um espelho é um portal entre os mundos. A tradição atribui a cada pessoa um anjo-protetor, que está por trás do seu ombro direito, e um demônio-tentador, que está por trás do esquerdo. Se nós olharmos para o espelho por cima do ombro esquerdo três vezes (o três é um número sagrado no Cristianismo), estaremos a neutralizar a influência negativa das forças do mal.

3. Não se deve jogar o lixo fora à noite.

Não há certezas sobre como apareceu este presságio, mas ela é uma das favoritas dos homens russos. Ele é um excelente pretexto para ele não ter que despejar o lixo, depois de regressar a casa vindo do trabalho.

4. Antes de partir para uma viagem longa, deve-se sentar “para o caminho”.

A nossa família também mantém essa antiga tradição. Quando alguém parte, imediatamente antes da partida, todos os membros da família devem se sentar, ficar sentados uns dez segundos, depois se levantam, dizem 'Deus nos acompanhe' e só depois sair do ambiente. Sempre me divertiu a forma como nos russos existe essa maravilhosa unidade da ortodoxia cristã com as tradições pagãs, pois o costume de 'sentar para o caminho' vem precisamente desses tempos. Na sua base está a resistência dos espíritos da casa em deixar partir a pessoa para fora de casa e enfrentar um mundo exterior terrível e perigoso, já quando nos sentamos, estamos como que a enganar o espírito da casa demonstrando que não tencionamos ir a lado nenhum.

5. Não se deve assobiar em casa.

As pessoas que gostam de assobiar, com ou sem pretexto, ficam bastante decepcionadas quando lhes dizem que na Rússia isso não se deve fazer dentro de casa. A ideia é que "se assobiamos em casa, não teremos dinheiro". Ninguém acredita nisso, é claro, mas, por alguma razão, todos os estrangeiros deixam de assobiar ao saber disso.

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