Retirada das banquinhas de rua leva consigo imagem da crise dos anos 90

Banquinhas de Moscou estão desaparecendo, e  isso impressiona, especialmente em áreas próximas a metrôs Foto: Fran Martínez

Banquinhas de Moscou estão desaparecendo, e isso impressiona, especialmente em áreas próximas a metrôs Foto: Fran Martínez

Autoridades municipais estão eliminando por decreto inúmeras banquinhas de rua em Moscou. A capital russa está se globalizando e cada vez se parece mais com outras metrópoles mundiais. No entanto, a polarização social é mais intensa do que na maioria das cidades ocidentais.

O prefeito de Moscou, Serguêi Sobiânin, eliminou cerca de 6 mil quiosques das ruas da capital russa ao longo dos seus dois primeiros anos de mandato. Depois da campanha para demolir todas as lojinhas ao lado das estações de metrô, o número de banquinhas passou de 14 mil para 8 mil – e sua intenção é apagá-las de vez da paisagem urbana.

Após a nomeação como prefeito pelo então presidente Dmítri Medvedev, em outubro de 2010, o siberiano Sobiânin tentou se distanciar da imagem do seu antecessor, Iúri Lujkov. Para isso, desacelerou vários empreendimentos imobiliários já em andamento, mudou a política sobre o patrimônio arquitetônico e embarcou em uma campanha maciça contra as banquinhas nas calçadas – já ameaçadas por Lujkov por causarem uma “imagem negativa”.

A ideia por trás da iniciativa é favorecer a concentração de distribuidores, portanto, além de retirar as banquinhas das ruas, Sobiânin também reduziu o número de novas licenças comerciais e perseguiu as vendinhas tradicionais.

Depoimento do autor

Será difícil se acostumar a Moscou sem as banquinhas. Em 2005, quando cheguei à capital, esses espaços provisórios faziam parte do meu dia a dia. Sempre comprava frutas e vegetais da banquinha de uma “babuchka”. Ela ria de mim, porque na época falava russo muito mal. Também lembro que depois de ir a um show ou explorar a cidade, dávamos uma passada no Teremok ou no Kroshka- Kartoshka para comer algo. Ao redor de qualquer estação de metrô havia banquinhas amarelas com centenas de CDs e DVDs piratas, peças de computador ou caixas de fósforos cosmonáuticos.

“É verdade que as banquinhas de Moscou – tão feias quanto cômodas – estão desaparecendo, e  isso impressiona, especialmente em áreas próximas a metrôs ou terminais. Em primeiro lugar, porque estavam muito mais organizados e limpos do que antes, e depois é quase impossível comprar alguma coisa rápida antes de partir sem a existência deles. Na sexta-feira passada, quase perdemos o trem porque o meu marido saiu para comprar água e perdeu quinze minutos em vão zanzando pela estação Kievski a procura de algum estabelecimento”, diz a moscovita Nastia.

Segundo ela, a retirada das barracas da rua é um novo passo para tornar a cidade mais “europeia”. “Também acredita-se que irá diminuir o crime e o consumo de álcool (e talvez até de cigarro). Isso, só o tempo vai dizer, mas espero que seja uma das consequências favoráveis da medida”, continua.

A também moscovita Olga concorda que um dos benefícios da medida será reduzir o consumo de bebidas alcoólicas nas ruas. “Acho que as banquinhas deveriam vender apenas coisas como tabaco, flores ou jornais. Ao lado dos que vendiam bebidas alcoólicas ficavam reunidas pessoas estranhas”, diz. “Na minha opinião, poderiam continuar existindo, mas desde que não fossem muitas nem todas com a mesma aparência. Por exemplo, no parque Górki há agora umas banquinhas bonitas onde se vende sorvete, refrigerantes e outras coisas. Se bem me lembro, nunca comprei nada de qualquer banquinha, não me convencia muito a qualidade dos produtos. Claro que li algumas reportagens sobre as condições de trabalho dos vendedores e dava pena. Ainda dependiam do proprietário da barraca”, relata Olga.

Desde o final dos anos 1980, as banquinhas serviam para a venda de cigarros e jornais. Na década seguinte, ampliaram o leque de produtos oferecidos para comidas, roupas, bebidas alcoólicas, eletrônicos e música. Foram se proliferando como espaços provisórios da economia informal, fornecendo bens e serviços não consolidados pelo Estado.

Os decretos de Sobiânin também coincidem com a campanha do governo contra o consumo de tabaco, segundo a qual os 175 mil barracas do país estão proibidas de vender o produto. A Rússia é o segundo maior consumidor de tabaco do mundo.

“As banquinhas são prejudiciais porque os jovens podem comprar cigarro nelas, e as autoridades não conseguem controlar esses pequenos vendedores”, declarou recentemente a vice-ministra Olga Golodets.

De cara nova

Nos corredores do metrô, passagens subterrâneas, ruas, jardins e avenidas, diferentes tipos de compunham a paisagem cotidiana da capital russa. Agora todas começaram a ser demolidas por força de um decreto. Primeiro foram as ilegais e depois as legalizadas – mas todas, sem exceção, estão sendo afastadas das ruas. Até mesmo as banquinhas da rede fast food russa Kroshka-Kartoshka ou Stardogs.

Eric Le Bourhis, editor da revista “Regard sur l'Est”, conta que, apesar da proximidade e da conveniência das banquinhas, elas têm uma imagem negativa entre os moscovitas. “Seu desaparecimento não vai provocar nostalgia. Esses pequenos comércios são, de fato, um símbolo da crise da década de 1990, caracterizada pela corrupção, quando muitas pessoas tiveram que abandonar a sua profissão e abrir uma banquinhas para sobreviver”, defende o jornalista.

De acordo com as autoridades municipais, o decreto para eliminar as  banquinhas de rua tem dois objetivos principais: promover novas formas de venda e serviços “mais civilizados”, e incentivar novos investimentos e oportunidades de negócios na cidade.

A capital russa está se globalizando e quer cada vez mais se parecer com outras metrópoles mundiais. No entanto, a polarização social é mais intensa do que na maioria das cidades ocidentais. Além disso, Moscou é tomada como um modelo por quase todas as cidades da Rússia e países vizinhos.

A Associação dos Vendedores Informais estima que as novas regras antitabagismo por si só podem resultar na perda de um milhão de postos de trabalho, em grande parte ocupados por imigrantes. No entanto, o próprio prefeito se manifestou contra os imigrantes em Moscou no mês passado. “As pessoas que falam mal russo e tem uma cultura diferente estariam melhor em seu país. Moscou é uma cidade russa e deve permanecer assim. Não é chinesa, tadjique ou uzbeque”, declarou Sobiânin.

Depois de dois anos e meio à frente do governo de Moscou, o prefeito pediu demissão recentemente e convocou as primeiras eleições municipais em 10 anos. A iniciativa surpreendeu a oposição, já vez que Sobiânin também se apresentará como candidato e tem apenas três meses para se preparar para as eleições.

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