Russos simpatizam com divórcio de Pútin

Presidente francês Jacques Chirac (esq.) faz sinal positivo para Pútin e sua mulher durante Desfile da Vitória, em maio de 2005 Foto: AP

Presidente francês Jacques Chirac (esq.) faz sinal positivo para Pútin e sua mulher durante Desfile da Vitória, em maio de 2005 Foto: AP

Franqueza do presidente foi elogiada por observadores, mas seu assessor já adiantou que boatos sobre novo casamento não passam de intriga.

A decisão tomada pelo presidente Vladímir Pútin e sua mulher, Liudmila, se divorciar depois de quase 30 anos de casamento foi amplamente considerada como um passo corajoso e honrado por diversos especialistas e comentaristas russos.

“Pútin vinha aparecendo frequentemente sozinho em locais onde deveria estar acompanhado da esposa por protocolo, colocando cada vez mais lenha na fogueira. Agora há pouco a especular, se é que ainda resta alguma coisa”, disse Victor Lochak, ex-editor-chefe da revista política “Ogoniok”, à rádio Kommersant FM.

“Queremos saber mais sobre os políticos, especialmente o presidente, e agora estamos virando uma nova página”, disse Lochak. “Muitos devem estar aliviados com a atitude do presidente, em vez de levar uma vida dupla para seguir um protocolo artificial”, acrescentou Lochak.

“É uma notícia incrível, sem comparação”, disse Andrei Kolesnikov, um correspondente do Kremlin de longa data e autor de uma série de livros sobre Pútin, à rádio Business FM. “Talvez esse não seja o último ato desse drama.”

O porta-voz do Kremlin, Dmítri Peskov, desmentiu os boatos de que o presidente estaria deixando a mulher para se casar com outra mulher.
“É uma informação falsa”, disse Peskov à rádio Ekho Moskvi. “Foi uma decisão mútua, todo o resto é fofoca. “Dê uma olhada na agenda de Pútin e você verá que sua vida, por mais triste que pareça, está fadada às suas responsabilidades como chefe de Estado.”

Peskov se recusou a comentar sobre a possibilidade de Pútin casar-se novamente. “Não acho que é essa resposta esteja dentro da minha alçada, mas posso assegurá-los de que não passa de boato e especulação.”

Novo solteiro

Evguêni Mintchenko, diretor do grupo de reflexão Mintchenko Consulting, acredita que o divórcio é um problema pessoal de Pútin e não afetará sua reputação.

“A Rússia é um Estado secular com alto nível de tolerância [nesse aspecto]. Os divórcios não são incomuns, muitas pessoas passam por isso”, disse Mintchenko à agência de notícias RIA Nóvosti. “O fato pode aproximar Pútin do povo, afinal, muitos pensariam: ‘Isso pode acontecer até com o presidente”, acrescentou.

O analista político Vladímir Slatinov também simpatizou com o dilema de Pútin. “Pútin apertou o gatilho. Deve ter sido uma decisão difícil, porque ele é o tipo de político que não costuma expor sua vida privada”, disse Slatinov.

O analista disse que não espera nenhuma influência nas avaliações do governo Pútin. “Alguns ficarão provavelmente desapontados, enquanto outros vão apreciar a honestidade e dignidade do presidente”, completou.

O diretor do Centro de Informação Política, Aleksêi Múkhin, disse que era importante que o divórcio fosse civilizado, acrescentando que as mulheres agora podem ter um interesse maior em Pútin como político, o que pode elevar sua popularidade e classificação.

                             

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“Lembro do alvoroço em torno de Prôkhorov quando ele concorreu para presidente no ano passado”, disse Múkhin à RIA Nóvosti.
O bilionário Mikhail Prokhorov, 48 anos, é um dos solteiros mais ricos do país, com uma fortuna estimada pela revista “Forbes” em US$ 13 bilhões.

Em março de 2012, Prôkhorov ficou em terceiro lugar na corrida presidencial, perdendo apenas para Pútin e para o líder do Partido Comunista, Guennádi Ziuganov. “Prôkhorov certamente usou esse fator durante a sua campanha”, disse Múkhin, referindo-se à solteirice do bilionário.

Cabeça aberta

Dmítri Abzalov, vice-presidente do Centro de Comunicações Estratégicas, alega que o mundo está se tornando cada vez mais aberto, e os eleitores valorizam a sinceridade mais do que nunca.

“Na política contemporânea, é preciso conciliar todos os fatores sem se comprometer, mas, se preciso, um político forte deve ser capaz de agir com dignidade e deixar sua esposa e filhos sem insultos, de uma maneira civilizada, séria e aberta”, disse Abzalov.

Em sua opinião, a vida pessoal de um político é, na maioria das vezes, um fator insignificante nas pesquisas de opinião. “É o que menos afetará a imagem do presidente”, garantiu Abzalov.

Embora o casamento de Pútin fosse secular – na Igreja Ortodoxa Russa, os cristãos podem se casar na igreja depois de registrarem o matrimônio no cartório –, a instituição é geralmente contrária ao divórcio. Porém, o líder da Associação dos Especialistas Ortodoxos, Kirill Frolov, diz que o Patriarca Kirill, líder da Igreja, vai “simpatizar com a decisão do casal”.

“Acredito que apenas o Patriarca tem o direito de avaliar essa triste notícia”, escreveu Frolov em seu blog no LiveJournal. “Tenho certeza de que seu julgamento será cheio de compaixão, amor, justiça e sentimento moral”, arremata Frolov.

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