Debate sobre falsificação de trabalhos acadêmicos volta à tona na Rússia

Estudantes da Escola da Gestão de Skolkovo de Moscou Foto: Press Photo

Estudantes da Escola da Gestão de Skolkovo de Moscou Foto: Press Photo

Após os comentários de que o vice-primeiro ministro da educação teria um diploma falso de curso superior chegarem ao Parlamento, uma investigação criminal chegou a ser exigida.

O recente boato de que o vice-primeiro ministro da educação da Rússia teria um diploma falso de curso superior, surgido a partir dos comentários de um blogueiro russo, reacendeu o debate sobre o tema na Rússia.

Após os comentários chegarem ao Parlamento, uma investigação criminal sob a acusação de falsificação de documentos oficiais por um funcionário público chegou a ser exigida.

Mais tarde, com a descoberta de que todos os documentos do vice-ministro eram originais, descartou-se uma investigação. Ígor Fediukin, que dirige uma comissão para descobrir falsas dissertações, declarou que essa ação convinha aos “fraudadores da ciência e da educação", com quem o ministério esteve lutando ao longo de todo o ano passado.

A história foi outro episódio marcante de uma batalha com os donos de falsas dissertações. E o notável é que ela tenha ocorrido na rede.

No final do ano passado, blogueiros descobriram que dezenas de páginas de uma tese do deputado da Duma (câmara baixa do parlamento russo) e vice-chefe da Comissão de Educação, Vladímir Burmatov, continham irregularidades. Burmatov não se declarou culpado, mas foi forçado a deixar a comissão.

Em seguida, foi a vez de Andrew Andriyanov, diretor de uma escola de física e matemática para crianças superdotadas da Universidade Pública de Moscou, ser o foco da atenção do público. Os blogueiros conseguiram provar que a parte fundamental de sua tese era claramente um plágio. Andriyanov também se recusou a reconhecer as violações, mas demitiu-se do cargo de diretor.

De acordo com dados oficiais, em 2011, foram entregues 22.438 diplomas de mestrado na Rússia, número duas vezes maior do que na comparação com 1995.

O que aumentou de forma drástica foi exatamente o número de alunos com graus acadêmicos em especialidades na área das ciências humanas, direito, economia e ciência política. O número de diplomas no campo da física e da matemática pulou apenas de 1.059 para 1.233 no período.

Além disso, como apontado pela mídia russa, mais da metade dos senadores e quase um em cada dois membros da Duma possuem graus de mestre e até de doutor; a proporção de mestres e doutores entre os governadores é igualmente significativa.

"Desde os tempos da URSS, o grau acadêmico era um símbolo de status”, diz Aleksander Chepurenko, especialista da escola superior de economia.

Há ainda uma nuance importante: na União Soviética, por ocasião da defesa, a cada 1.000 teses, cerca de 300 eram rejeitadas. Hoje, na melhor das hipóteses, são rejeitadas três teses em 1.000.

Grave

As autoridades têm consciência da gravidade do problema.

"Infelizmente, o plágio e os trabalhos que visam a consecução de diplomas feitos à maneira de ‘pronta-entrega’, como agora costuma-se dizer, são publicações fictícias que se tornaram uma prática bastante disseminada, e isso é um caminho para a degradação da ciência como um todo”,  destacou, em um de seus discursos, o primeiro-ministro Dmítri Medvedev.

Recentemente, o Ministério da Educação apresentou um conjunto de ferramentas com as quais planeja combater os falsos trabalhos científicos.

De acordo com Fedukin, "a chave para a solução do problema está na publicação dos trabalhos na internet".

Alguns meses antes da defesa, os trabalhos serão publicados no site da Comissão Suprema de Certificação (responsável pela realização da análise das teses e decisão sobre a concessão de títulos e graus científicos), onde qualquer pessoa poderá deixar suas opiniões sobre o trabalho científico do candidato. Também será cobrada a responsabilidade dos consultores científicos que elaboram comentários sobre os trabalhos. Uma resenha favorável a uma dissertação plagiada colocará em sério risco a carreira desses cientistas.

Chepurenko acredita que essas medidas são boas, mas insuficientes. Para ele, “é necessário quebrar a dependência entre o desenvolvimento da carreira e a posse de graduação acadêmica. É preciso se basear em outros indicadores, como habilidades reais, projetos, publicações”. Nesse caso, a pressão dos que aspiram a graus acadêmicos seria reduzida consideravelmente.

Outra etapa a ser adotada seria dar às principais instituições de ensino superior do país o direito de conceder os seus próprios graus.

"Esse direito deve ser dado às universidades federais e aos institutos de pesquisa científica. Atualmente, tem-se a impressão de que ninguém é responsável pelo resultado final, pela qualidade da tese. Assim, uma instituição de ensino superior concreta iria garantir o nível do trabalho científico com a sua reputação”, afirma Chepurenko.

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