“A língua só espelha a divisão da sociedade”

Foto: PhotoXPress

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Filólogo Maksim Krongauz fala sobre a importância de ser alfabetizado e deficiências atuais do sistema russo.

A décima edição do evento “Ditado Total”, realizada no último dia 6, contou com 32 mil participantes voluntários de 180 cidades em 11 países. No entanto, a ação, que visa testar o grau de alfabetização dos russos, foi acompanhada por um grande escândalo neste ano.

Em primeiro lugar, o texto usado no ditado havia sido redigido pela escritora israelense de língua russa, Dina Rubina. Além de a autora não viver na Rússia, alguns especialistas criticaram que seus livros (não o próprio ditado) são carregados palavrões sem censura. O governador da região de Ulianovskaia chegou, inclusive, a substituir o texto na última hora por um conto do escritor local Vassíli Peskov.

Ainda assim, a maior controvérsia foi o fato de menos de 400 pessoas terem atingido a nota máxima no ditado, ressaltando, assim, as deficiências do sistema de educação. Para esclarecer alguns pontos em torno dessa questão, o veículo “Kommersant Ogoniók” conversou com o diretor do Instituto de Linguística da Universidade Estatal de Humanas da Rússia, Maksim Krongauz.

Kommersant-Ogoniók: O “Ditado Total” surgiu há dez anos e desde o início tem sido objeto de controvérsia. Tudo parece discutível: objetivos, meios e até os próprios textos. Esse é um projeto útil ou apenas mais uma campanha promocional?

Maksim Krongauz: Definitivamente útil. Os adultos se sentam ali na carteira e reproduzem o ditado não porque são obrigados, mas só por curiosidade. Pensam: “Será que eu consigo?”  É ótimo ver as pessoas se envolvendo com a linguagem não a força, mas para se divertir.

Porém, algumas coisas são realmente intrigantes. Fiquei espantado com as estatísticas do ditado do ano passado, no qual foi verificado que muitas pessoas estavam colando. Para quê? Se fosse anunciado que todos os cidadãos russos eram obrigados a participar do ditado e quem tirasse uma nota baixa perderia o prêmio, o motivo para a trapaça seria compreensível. Mas se estamos brincando, não faz sentido. Outra coisa desagradável foi a reação pouco adequada dos jornalistas. Em vez de admirar a brincadeira jogo e elogiar a quantidade de participantes, os jornalistas ficaram se lamentando sobre como somos todos analfabetos.

O “Ditado Total” foi realizado pela primeira vez na Universidade Estatal de Novosibirsk em 2004. Até 2010, era um evento local com a participação de cerca de 200 pessoas. A ação passou a ser nacional somente em 2011, quando apresentou um texto de Dmítri Bikov.

KO:No mês que vem, os alunos têm o EGE 2013 (Exame Unificado Nacional) em língua russa. Qual é a importância dessa prova? 

MK: Quanto mais estável a sociedade, mais importante manter os padrões literários. Na década de 1990, o prestígio do idioma baixou acentuadamente, assim como o da educação em geral. Mas hoje tudo está voltando ao normal e até mesmo muitas empresas fazem treinamentos sobre a linguagem com seus funcionários.

Antes era importante se destacar, agora o importante é ser como todo o mundo e, para isso, é necessário dominar as normas de conduta, incluindo as do discurso. Mas ter somente o domínio de uma linguagem literária é pouco. O homem civilizado deve dominar outras variantes da língua. E o mais importante é ser capaz de mudar o registro, entender qual variante é adequada. Trata-se de um fator de adaptação social.

KO: A atitude em relação ao idioma mudou muito ao longo de 20 anos, enquanto que o sistema de ensino permaneceu o mesmo. Cada vez mais se fala que uma mudança no sistema é necessária. O que exatamente vale a pena alterar?

MK: O objetivo da educação soviética era alfabetizar as crianças. Isso é importante, mas deve haver também outros objetivos, principalmente o do desenvolvimento da fala. As crianças devem ser ensinadas a se comunicar, é preciso conversar mais com elas. Existem problemas sérios de comunicação na sociedade: agressividade excessiva, incapacidade de ouvir uns aos outros. Ao lerem um texto, muitas pessoas sequer tentam compreendê-lo. Logo que aparece a palavra Tchetchênia ou Ucrânia, a pessoa já não enxerga mais o texto, ela tem um texto próprio na cabeça. Durante os últimos anos isso piorou. Houve uma drástica diferenciação entre “nós” e “eles”. Antes não havia essa raiva, esse sentimento de ódio e incapacidade de se unir por objetivos comuns e chegar a um acordo.

KO: Parece que a única coisa que nos restou é o idioma, mas hoje ele provavelmente divide mais que integra. Falamos russo, mas sobre algo tão diferente e de maneira tão distinta que não existe uma compreensão mútua...

MK: Mas não é uma questão de linguagem. A língua só espelha a divisão da sociedade. Vamos usar um exemplo simples. Os programas de TV com votação são cada vez mais populares. Em alguns casos, a votação começa imediatamente, antes mesmo que os adversários façam qualquer coisa. Não importa o que digam, não queremos entender ou prestar atenção em suas palavras.

KO: Existem maneiras de mudar isso?

MK: Conversar mais. Infelizmente, a tendência atual é evitar a conversa. Não existe um dialogo direto e isso é muito mais perigoso do que uma discussão feia. 

 

Publicado originalmente pelo Kommersant

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