Rússia tem um dos maiores índices de aborto do mundo, aponta pesquisa

Foto: PhotoXPress

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A popularidade dos abortos é consequência, entre outras coisas, da falta de conhecimento sobre métodos modernos de contracepção. Somente 14% das mulheres russas declaram usar pílulas anticoncepcionais.

A interrupção artificial da gravidez na Rússia é ainda uma das principais formas de contracepção, de acordo com um estudo realizado por peritos da ONU e divulgado recentemente.

Na Rússia, uma das leis mais liberais é a que diz respeito ao aborto. Não é de se estranhar que o país esteja entre os líderes de adoção da medida, muito à frente não somente de países desenvolvidos, mas também de seus vizinhos na CEI (Comunidade dos Estados Independentes).

Outra razão para a popularidade dos abortos é a falta de conhecimento sobre métodos modernos de contracepção. Somente 14% das mulheres russas informaram que usam pílulas anticoncepcionais.

Desde 1990 até os dias de hoje, o número de abortos na Rússia caiu em mais de um terço: de 4,1 milhões para 1,2 milhões por ano. Mas este número é ainda muito elevado. Se na Rússia, para cada 1.000 mulheres em idade fértil são feitos 50 abortos por ano, nos Estados Unidos, o número cai para 20, no Reino Unido, para 18 e na Alemanha, para menos de 10.

Aleksêi Ulianov, conselheiro do presidente da organização pública Delováia Rossía, vê a legislação demasiado liberal como principal causa do problema.

“Realmente, fazer um aborto na Rússia não é um problema. Como escreve em um fórum um antiga conterrânea, que atualmente vive na Alemanha, ‘a minha amiga na Rússia faz abortos quase todos os anos. É algo já corriqueiro: você vem, paga e tudo é resolvido’.”

Na Rússia, é permitido interromper gratuitamente a gravidez de até 12 semanas. Depois disso, somente mediante pedido médico ou atestado de cunho social de impossibilidade para exercício da maternidade.

Mas é muito simples contornar esse problema –existem muitas clínicas particulares, onde, como se diz, “qualquer capricho pode ser solucionado por dinheiro”. Neste caso, a lei não prevê nenhuma responsabilidade para o médico.

Exatamente por isso, Uliánov propõe uma série de medidas que poderiam reduzir o número de abortos em até mais de um terço no país. Entre eles estão a realização da operação somente uma semana após a apresentação do pedido, entrevista obrigatória com um psicólogo ou assistente social, responsabilidade da equipe médica pelo aborto ilegal e a obrigação de obediência à lei.

Contracepção

Outra ótima maneira de se reduzir o número de abortos é a difusão do conhecimento sobre a contracepção. Até nesta questão a Rússia está atrasada com relação aos países europeus desenvolvidos.

De acordo com um estudo conjunto da Faculdade de Economia da Universidade Estadual de Moscou e do Instituto de Demografia, aproximadamente 10% dos casais não usam contracepção alguma. Para efeito de comparação, na Hungria, este indicador é de 4%, na França, de 3% e na Bélgica, de 2%.

Quase 80% das mulheres, porém, afirmaram que se protegem contra uma gravidez indesejada. No entanto, quando indagadas de maneira mais detalhada, tornou-se evidente que somente 20% delas utilizam o dispositivo intrauterino e 14%, a pílula. As outras preferem os métodos de suas avós: o da tabelinha e do coito interrompido.

Tal atitude não depende muito do lugar de residência. Por exemplo, as mulheres residentes em Moscou e São Petersburgo deveriam estar mais conscientes dos métodos modernos de contracepção. Mas para elas o preservativo está em primeiro lugar (44% das mulheres o chamaram de método principal de proteção). A pílula (16%) vem em segundo.

Uma das razões prováveis para isso é a persistente desconfiança nos medicamentos. Em fóruns para mulheres, muitas ainda afirmam que as pílulas hormonais afetam a saúde. Por alguma razão, a reflexão sobre as tristes consequências do aborto à saúde da mulher vem com muito menor frequência.  

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