Ataque ao diretor do Bolshoi retrata impunidade nacional

Dmitritchenko se apresenta no teatro há mais de uma década, e desempenhou o papel de tsar em “Ivan, o Terrível” (na foto). Foto: RIA Nóvosti

Dmitritchenko se apresenta no teatro há mais de uma década, e desempenhou o papel de tsar em “Ivan, o Terrível” (na foto). Foto: RIA Nóvosti

Segundo a vítima, incidente ainda não foi solucionado e suscita dúvidas em relação à segurança de todos os cidadãos russos.

“Se você olhar para o todo, não se trata apenas de jogar ácido no [meu] rosto, é um desafio para toda a sociedade”, disse ao jornal “Itogi” o diretor artístico do Balé Bolshoi, Serguêi Fílin, que foi vítima do recente ataque.

Embora o suposto organizador do crime contra Fílin tenha sido identificado como o bailarino do Bolshoi, Pável Dmitritchenko, a alta administração do teatro e o próprio Fílin acreditam no envolvimento de outras pessoas. Segundo eles, Dmitritchenko está apenas encobrindo alguém.

Isso também soaria como uma péssima trama de filme, se não fosse a dura realidade de um artista famoso desfigurado em frente à sua casa no centro de Moscou.

A audácia do crime em si vai manter as pessoas falando sobre o assunto por muitos anos. Ainda assim, é realmente tão surpreendente que isso tenha acontecido com Fílin?

Usar intimidação e violência para conseguir parece uma tática de resolução de problemas comum em Moscou. Segundo as estatísticas oficiais publicadas no mês passado pelo jornal “Rossiiskaya Gazeta”, menos de 30% de todos os crimes da cidade são resolvidos. Na prática isso quer dizer que a probabilidade de se dar mal ao prejudicar alguém são poucas.

Fílin está certo em falar sobre um desafio para a sociedade, mas ao olhar para o problema sob um ângulo diferente, parece que o tal desafio foi lançado há muito tempo. O espírito de vale-tudo na forma de lidar com os concorrentes foi intensificado ao longo das últimas duas décadas.

Enquanto isso, a polícia, além de ser vista com desconfiança por quase todos os moscovitas, tem dificuldade de recuperar o atraso, uma vez que a população de Moscou inflou juntamente com o submundo do crime.

Nesse contexto, os criminosos costumam agir como se nem tivessem que tentar. Segundo a polícia, o homem que realmente jogou ácido no rosto de Fílin, o criminoso de longa data Iúri Zarutski, acabou se confundindo ao esconder seus rastros, facilitando as coisas para os detetives.

Zarutski, que recebeu menos de dois mil dólares pelo “serviço”, chegou ainda a insultar Fílin diante de um juiz na semana passada. Dmitritchenko alegou que havia pedido para Zarutski apenas “dar uma surra” no diretor artístico, em vez de atacá-lo com ácido.

O conto do criminoso desastrado seria quase engraçado – até lembrar que os criminosos que atacam pessoas menos famosas no dia a dia ficam geralmente impunes na Rússia.

 

Publicado originalmente pelo The Moscow News

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