Divisão da Síria é proposta como solução para conflito

Quarta rodada de negociações para paz na Síria ocorreu no Cazaquistão

Quarta rodada de negociações para paz na Síria ocorreu no Cazaquistão

AFP
Especialistas acreditam que a introdução de zonas de “desescalada” vão culminar na dissolução do país. No entanto, não haveria outra maneira de brecar a guerra civil.

Durante as conversações em Astana, na quarta (3) e quinta-feira (4), Moscou e seus parceiros propuseram a ideia de introduzir zonas de “desescalada” na Síria, que serão monitoradas por contingentes estrangeiros de manutenção da paz.

A trégua na Síria, estabelecida graças à mediação da Rússia, da Turquia e do Irã em dezembro de 2016, sofreu diversas violações durante os últimos meses. Durante semanas, as forças governamentais e a oposição armada bombardeiam-se cada vez mais. A situação se agravou ainda mais após os ataques químicos na província de Idlib, em 4 de abril, que causou a morte de 89 pessoas.

Na quarta rodada de negociações na capital do Cazaquistão, os três mediadores – Rússia, Turquia e Irã – propuseram um plano de regulamentação completamente novo que prevê a criação de quatro zonas de “desescalada”, onde qualquer uso de armas será proibido, as infraestruturas serão restauradas e serão criadas condições para o trabalho de organizações humanitárias. Além disso, linhas de demarcação serão instaladas nas fronteiras para evitar bombardeamentos.

Resistência interna

Rússia, Turquia e Irã assinaram na quinta-feira (4), em Astana, um memorando para criar as zonas de “desescalada”. Representantes do governo de Bashar al-Assad expressaram apoio à iniciativa, enquanto a delegação da oposição protestou contra o papel do Irã nesse processo.

Segundo o presidente russo Vladímir Pútin, a proposta havia sido discutida também com seu homólogo americano, Donald Trump, que teria dado apoio à iniciativa.

O especialista russo em assuntos árabes Serguêi Balmasov, que integra o Conselho Russo de Assuntos Internacionais, acredita, porém, que o governo e a oposição na Síria não concordarão com a iniciativa na prática e farão o possível para miná-la.

“A ideia de criar zonas seguras tem sido discutida há vários anos, mas o conflito não foi resolvido; agora, qualquer acordo, mesmo apoiado no papel, será violado”, ressalta o acadêmico. “A guerra civil ainda está em uma fase em que ambos os lados estão dispostos a lutar para vencer, portanto, não assumirão quaisquer compromissos.”

Paz de fora para dentro

No entanto, se a pressão da troika mediadora (Rússia, Turquia e Irã) for suficientemente forte e apoiada por EUA e países do Golfo Pérsico, as forças externas poderão impor a sua solução a Damasco e a oposição, defende Leonid Issaev, professor sênior de Ciências Políticas da Escola Superior de Economia, em Moscou.

“Os players externos concordam com esse acordo, com essas regras do jogo: os sírios não estão sendo convidados e é compreensível, já que não conseguiram chegar a um acordo ao longo de anos. É por isso que agora terão de concordar com o que as outras partes estão propondo”, explica.

O memorando prevê a possibilidade de enviar contingentes estrangeiros à Síria que cuidarão das linhas de demarcação. O documento não especifica, no entanto, de onde virão os contingentes citados. Para o diretor do Centro de Estudos Islâmicos do Instituto de Desenvolvimento Inovador, Kirill Semenov, “poderíamos falar de players internacionais neutros, como a Malásia, a Indonésia e os países do Magreb”.

Segundo Semenov, as medidas que impõem uma trégua devem ser duras e aplicadas não só à oposição, mas também às forças governamentais. “Só então será possível o sucesso das novas propostas”, conclui.

Síria “só existe no Google Maps”

Os trabalhos relacionados ao memorando apenas começaram. Segundo a delegação russa, a ação de combate nos territórios indicados no documento cessará a partir deste sábado (6), e as fronteiras das zonas de “desescalada” ainda precisam ser definidas.

O objetivo é que, após a implantação do projeto, o país seja dividido entre áreas controladas pelo governo e pela oposição, com a atuação de mediadores.

“Isso significará, de fato, uma divisão da Síria. Mas a verdade é que a Síria não está unida há vários anos”, destaca Balmasov, acrescentando que nenhum dos lados tem ilusões sobre a coexistência pacífica. “Sua participação nas negociações em Genebra e Astana é apenas de fachada”, acrescenta o especialista.

Também segundo Issaev, da Escola Superior de Economia, “a Síria como Estado existe apenas no Google Maps, nas aulas de geografia e na placa da cadeira da ONU”.

No entanto, o professor acredita ser improvável que as forças opostos a Damasco, sejam elas a oposição ou os curdos, estejam pensando seriamente em estabelecer Estados independentes. “Estes serão, a priori, Estados falidos, pois não dispõem de recursos para uma existência independente. Isso cria a possibilidade de a Síria se restaurar como um Estado único, ainda que num futuro longínquo”, conclui.

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