Os incidentes na Síria e as relações entre Moscou e Ancara

Combatentes apoiados pela Turquia avançam em tanques na cidade de Al-Bab, no norte da Síria, na quinta-feira (9), tentando retomar o controle dessa, tomada pelo EI.

Combatentes apoiados pela Turquia avançam em tanques na cidade de Al-Bab, no norte da Síria, na quinta-feira (9), tentando retomar o controle dessa, tomada pelo EI.

Reuters
Na última quinta-feira (9), a aviação russa realizou um ataque não premeditado ao Exército turco no norte da Síria, levando à morte de três homens. Mas o ocorrido não gerou conflito: os interesses de Moscou e Ancara estão demasiadamente alinhados no momento para que a morte de soldados turcos azede as relações bilaterais

Na última quinta-feira (9), aviões militares da Federação da Rússia atingiram acidentalmente um edifício onde se encontravam militares turcos, nas cercanias da cidade de Al-Bab, controlada pelo EI (Estado Islâmico). A cidade é a última grande concentração de extremistas do EI no norte do país.

Ainda em janeiro, a Rússia e a Turquia bombardeavam conjuntamente os combatentes de Al-Bab e coordenavam as ações entre seus Estados-maiores. Desta vez, porém, houve visivelmente alguma falha na comunicação, já que três soldados turcos morreram e onze ficaram feridos no bombardeio russo.

De acordo com declarações de uma fonte do Ministério da Defesa que não quis ser identificada ao jornal russo “Kommersant”, as coordenadas dos alvos do bombardeio haviam sido acordadas com antecedência.

Reação reticente

O último incidente com mortos entre Rússia e Turquia com ocorreu em 24 de novembro de 2015, quando a aviação turca atingiu um bombardeiro russo Sukhôi Su-24 que teria supostamente avançado a fronteira turca enquanto operando no norte sírio. O saldo de mortos foi de dois russos.

A reação do Kremlin então foi bastante dura. Vladímir Pútin intitulou o incidente de “ataque pelas costas por cúmplices dos terroristas”. A Rússia também introduziu sanções econômicas contra a Turquia e as relações bilaterais ficaram bastante arrefecidas até o pedido de desculpas do presidente Erdogan, em junho de 2016.

Desta vez, porém, não se viu quaisquer belicosidades decorrentes. Já nas primeiras declarações do Estado-maior da Turquia ressaltava-se que o ataque não foi premeditado e que se dirigia aos extremistas do EI.

Vladímir Pútin ligou logo após o ocorrido a Erdogan apresentando suas condolências. Já Ancara, de acordo com uma fonte da agência de notícias russas Tass no exército turco, mostrou-se satisfeita com o contato.

De acordo com a fonte, a Rússia e a Turquia criarão uma comissão especial para “prevenção de tais incidentes no futuro”.

Sem consequências graves

“Parece que a Turquia poderia pagar pela reação de Pútin pelo avião russo derrubado, mas ela não irá. A Turquia [diferentemente do que ocorria em 2015] não tem mais planos na Síria que se contraponham aos dos russos”, escreveu no Facebook o editor-chefe do Centro Carnegie de Moscou.

Agora, os dois países não apenas bombardeiam juntos a Síria e o Estado Islâmico, mas também afirmam estar dando um empurrão nas partes conflitantes da guerra civil para que essas alcancem uma resolução pacífica. Assim, Síria, Turquia e Irã se propuseram a fazer as vezes de patrocinadores de acordos de paz em Astaná, capital do Cazaquistão.

“As relações russo-turcas alcançaram solidez suficiente para permitir diferenciar intenções reais de confluências sem sucesso”, disse à Gazeta Russa o chefe da seção política do Centro de Estudos da Turquia Contemporânea, Iúri Mavachev.

Segundo ele, Moscou e Ancara conseguiram chegar anteriormente a um acordo sobre as esferas de influência na Síria. Com o acordo ainda sendo seguido, diz ele, nada mais teria importância.

O pesquisador-chefe do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia Russa de Ciências, Víktor Nadeni-Raevski, tem opinião semelhante sobre o estado das relações bilaterais.

“Com certeza não haverá um rompimento radical. Mas agora é importante fortalecer a colaboração ‘na terra’ para evitar acontecimentos semelhantes no futuro”, diz.

O especialista relembra que incidentes de “fogo amigo”, infelizmente, ocorrem com bastante frequências nas guerras modernas.

Nó ao redor de Al-Bab

Especialistas ressaltam que a libertação de Al-Bab dos extremistas do EI é uma questão de tempo. Enquanto no norte o exército turco o ataca juntamente com o Exército Livre da Síria, no sul os ataques vêm do exército de Bashar com apoio da aviação russa.

O potencial para conflitos está nas críticas feitas anteriormente pelo presidente sírio Bashar al-Assad à presença turca no território da Síria.

“O fronte onde o EI se opõe aos turcos e ao Exército Livre e o fronte onde esses combatem o governo se aproximam e vão se tornar, literalmente, uma só linha”, afirma à Gazeta Russa Ilshat Saetov, pesquisador do Centro de Estudos do Oriente Médio da Academia Russa de Ciências.

Para ele, sob essas condições há grandes possibilidades de perdas ocasionais e combates locais. Por outro lado, nem a Turquia, nem o governo sírio desejariam uma guerra completa. Por isso, até mesmo em caso de mortes pontuais não haverá uma escalada do conflito.

Mavachev, do Centro de Estudos da Turquia Contemporânea, compartilha do mesmo ponto de vista. “O potencial bélico dos exércitos turco e sírios são incomparáveis”, afirma.

Ele também acredita que Moscou exerça influência suficiente sobre Assad para impedi-lo de travar uma guerra contra o exército turco. 

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