Guerra de resoluções marca busca por paz na Síria

Lavrov (à dir.) reage a declarações dos EUA sobre atuação russa na Síria, durante sessão da ONU em Nova York

Lavrov (à dir.) reage a declarações dos EUA sobre atuação russa na Síria, durante sessão da ONU em Nova York

Reuters
Projetos apresentados ao Conselho de Segurança da ONU foram rejeitados tanto pela Rússia como pelos países ocidentais. Segundo analistas, situação em Aleppo e clima no cenário internacional impedem o sucesso de propostas diplomáticas.

O Conselho de Segurança da ONU analisou no último sábado (8) dois projetos de resolução sobre a Síria, mas não adotou nenhum deles. O primeiro, elaborado por França e Espanha, e que estabelecia o cessar-fogo imediato na cidade de Aleppo, parcialmente sitiada, e uma zona de exclusão aérea, foi vetado pela Rússia.

O embaixador russo para ONU, Vitáli Tchúrkin, apresentou, porém, um projeto alternativo, segundo o qual Staffan de Mistura, o enviado especial da ONU para a Síria, realizaria consultas para a retirada de militantes da Frente al-Nusra da parte oriental de Aleppo a fim de conter os combates.

Este acordo, por sua vez, foi rejeitado por nove membros do Conselho de Segurança, incluindo Reino Unido, EUA e França. A China apoiou o projeto de resolução russo e se absteve de votar na proposta francesa.

Resultado previsível

O fracasso dos dois projetos de resolução não foi surpresa alguma. No início da sessão do Conselho de Segurança, Tchúrkin se referiu ao encontro como “um dos mise-en-scènes mais estranhos da história”, alegando saber que todos os participantes estavam “bem cientes de que nenhuma das duas propostas seria adotada”.

Mais cedo, o enviado russo já havia indicado que não considerava aceitável a Rússia restringir as ações de sua força aérea na Síria sob pressão do Conselho de Segurança, caso fosse definida uma zona de exclusão aérea.

Na visão do Ocidente, a Rússia não estaria à procura de uma solução pacífica para o conflito, mas sim de uma vitória militar para presidente sírio Bashar al-Assad.

Os principais nações ocidentais acreditam que a rejeição a uma zona de exclusão aérea conduzirá a mais derramamento de sangue. No entanto, Moscou critica o Ocidente por sua postura desequilibrada sobre a Síria e apoio latente ao “terrorismo”.

“Graças a suas ações de hoje, os sírios continuarão perdendo suas vidas em Aleppo e muito além devido aos bombardeios russos e sírios”,  disse o embaixador britânico para ONU, Matthew Rycroft, dirigindo-se a Tchúrkin.

Em sua página oficial no Facebook, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo acusou os autores da resolução elaborada pela França de “tentativa de proibir voos militares nas proximidades de Aleppo para dar cobertura a terroristas da Frente al-Nusra” e de estarem “obcecados com a ideia de poder inconstitucional na Síria”.

Hora errada para negociar

De acordo com Leonid Issaiev, professor sênior do departamento de ciência política na Escola Superior de Economia, em Moscou, a resolução elaborada pela França não poderia ser adotada uma vez que as partes estão com os “ânimos exaltados”.

“Devido aos escândalos que eclodiram após o bombardeio do Exército sírio pelos norte-americanos em Deir al-Zor [em 17 de setembro] e o ataque ao comboio de ajuda humanitária em Aleppo [em 19 de setembro, supostamente pela Rússia], as partes tomaram posições fundamentalmente opostas”, disse Issaiev à Gazeta Russa.

“Talvez, teria sido possível chegar a um consenso sobre a resolução sugerida pela França”, admitiu Issaiev, embora acredite que os franceses não conseguiram convencer Moscou dos benefícios de seu projeto.

“Mas é necessário que os ânimos se acalmem. Agora, qualquer iniciativa russa ou ocidental será recebida pela outra parte com hostilidade.”

Opinião semelhante é compartilhada por Vassíli Kuznetsov, chefe do Centro de Estudos Árabes e Islâmicos, da Academia Russa de Ciências.

“Na fase atual, não podemos esperar por uma solução diplomática”, afirma Kuznetsov. “Não se trata apenas da posição destrutiva dos EUA, que nitidamente acusam a Rússia de tudo o que está acontecendo na Síria. Os participantes do conflito no próprio país não estão dispostos agora a achar uma solução.”

Primeiro guerra, depois conversa

Após o fracasso dos acordos, Assad está tentando obter uma vitória militar decisiva em Aleppo, sugere Issaiev. “O regime sírio está claramente tentando tirar proveito do fato de que a situação no campo de batalha é mais favorável para eles do que para os rebeldes”, disse.

Segundo o especialista, Damasco quer prosseguir com uma solução política só depois de alcançar uma vitória em Aleppo, o que lhe daria vantagem nas negociações.

Kuznetsov, no entanto, não está convencido de que as tropas de Assad, mesmo com o apoio militar do Irã e da Força Aérea russa, tenham capacidade de retomar Aleppo. “E mesmo se eles conseguirem recuperar a cidade, Damasco já chegou a seu limite e terá de negociar”, explica.

Apesar da falta de consenso demonstrada nas últimas reuniões, o observador acredita que as Nações Unidas continuam sendo uma  importante plataforma de negociação.

“Não há alternativa para resolução do conflito no âmbito da ONU. (...) De Mistura e seu grupo trabalharam bastante, produziram vários materiais para o período de transição – então, quando o processo de paz for iniciado, não será a partir do zero”, afirma Kuznetsov.

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