Os cenários sírios após a ruptura com Washington

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry (esq.), e o chefe de chancelaria russo, Serguêi Lavrov (dir.), peças-chave nos acordos de paz para Síria.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry (esq.), e o chefe de chancelaria russo, Serguêi Lavrov (dir.), peças-chave nos acordos de paz para Síria.

Reuters
EUA anunciam fim de diálogo com Rússia sobre cessar-fogo na Síria. A Gazeta Russa examina três cenários possíveis após decisão norte-americana.

 

Na segunda-feira (3), o Departamento de Estado dos EUA anunciou o fim dos contatos bilaterais com a Rússia sobre a Síria, acusando Moscou de não cumprir com suas obrigações no cessar-fogo.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros, por sua vez, acusou Washington por sua prontidão em "fazer pacto com o diabo" - ou seja, extremistas islâmicos - apenas para conseguir a mudança do regime em Damasco.  

A Gazeta Russa examinou os possíveis cenários após o fim do cessar-fogo sírio e do diálogo EUA-Rússia.

1. Conflito EUA-Rússia em território sírio

A possibilidade e o esforço em evitá-lo estão baseados nas negociações sobre a Síria entre os líderes dos órgãos de política externa dos EUA e da Rússia, de acordo com o cientista político da Universidade Econômica Russa Plekhanov, Aleksandr Perendjiev.

Esse é o principal objetivo buscado pelas duas potências, já que, exceto por ele, não há entre elas ponto de contato acerca da Síria. Nessas condições, e levando em consideração os últimos passos de Washington, poderia ocorrer um conflito entre os dois países em território sírio, de acordo com Perendjiev.

"Ainda mais porque ele já ocorreu indiretamente: os americanos atiraram e bombardearam uma subdivisão militar do governo sírio onde havia conselheiros militares nossos; e a parte russa bombardeou terroristas, entre os quais havia americanos", disse o cientista político à agência Ria Nôvosti.

Perendjiev refere-se, no primeiro caso, ao ataque efetuado por aeronaves da coalizão dos EUA contra o exército do presidente Bashar Assad e, no segundo, à investida russa contra uma base militar britânico-americana na Síria.

Mas um confronto direto entre Moscou e Washington em território sírio ainda é pouco provável, de acordo com analistas.

"Ao romper relações com a Rússia no que diz respeito à Síria, os EUA mantiveram canais militares de comunicação para evitar os conflitos entre aeronaves militares dos dois países", ressalta o pesquisador do Instituto de Estudos do Oriente Médio da Academia Russa de Ciências, Vladímir Sotnikov.

Dessa maneira, os EUA tentam não permitir qualquer enfrentamento entre os militares dos dois países.

2.  "Plano B" da administração de Obama

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, relembrou da existência de um "plano B" ao citar alternativas para o beco sem saída em que se encontra o processo de paz.

"O 'plano B' sugere o fortalecimento da oposição anti-Assad e anti-EI", disse à Gazeta Russa o diretor do Centro de Análises de Conflitos no Oriente Médio do Instituto dos EUA e Canadá, Aleksandr Chumulin.

Os monarcas árabes e a Turquia, alinhados com Washington, ocupam-se justamente disso, segundo o cientista político. Ele acredita que, com essa intenção, serão armados também grupos como o Al-Nusra, classificado como terrorista pela ONU e pelos EUA.

Em outras palavras, todas as forças que se direcionam contra Bashar serão concentradas nessa luta, o que levará a uma intensificação dos combates e a um aumento no número de vítimas, já que os partidários do presidente sírio, entre eles a Rússia, não estão dispostos a recuar.

O porta-voz do presidente russo, Dmítri Peskov, já anunciou, após a decisão de Washington, que Moscou não se retirará da "guerra contra o terror e do apoio ao governo sírio".

Nesse cenário, Washinton pode tentar mudar o regime sírio à força, empregando sua aviação como na operação na Líbia, em 2011, que levou à morte de Ghadafi

"Nesse caso, porém, será inevitável um confronto com as Forças Aeroespaciais russas, que protegem o exército sírio via ar", diz o pesquisador do Instituto Moscovita Estatal de Relações Exteriores (Mgimo, na sigla em russo), Mikhail Vladímirov.

Isso torna a possibilidade mais improvável, já que um conflito entre duas potências nucleares é indesejável.

Dessa forma, segundo o analista, o abastecimento dos oponentes de Assad não terá resultados, já que não mudará o balanço de forças no conflito enquanto a aviação russa estiver destruindo os combatentes por via aérea.

3. Êxitos do exército de Assad

Livres, após a decisão de Washington, das restrições existentes nos acordos de paz, os soldados de Assad, com o apoio da Rússia, poderão obter importantes êxitos, derrotando seus oponentes em Aleppo, mesmo que esses contem com o auxílio de Washington e sua coalizão.

Ao conseguir o controle sobre essa cidade, tão importante na Síria, o exército sírio começaria a atuar na província de Idlib, de acordo com Vladímirov.

Mas só um posicionamento dos grupos sunitas predeterminaria a vitória de Assad, segundo o cientista político.

Se, pelo menos, parte deles, vendo o êxito de Damasco, fechar acordos de paz com Assad, então o conflito irá se exaurir. Se não, "dez anos de guerra aguardam a Síria", arremata.

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