Rússia e EUA concordam com cessar-fogo na Síria

Lavrov (esq.) e Kerry chegaram a consenso em reunião bilateral em Munique, na Alemanha

Lavrov (esq.) e Kerry chegaram a consenso em reunião bilateral em Munique, na Alemanha

AP
Cientistas políticos traçam três perspectivas para evolução do acordo. Decisão deverá entrar em vigor dentro de uma semana.

Os Estados Unidos, a Rússia e outros membros do Grupo Internacional de Apoio à Síria concordaram nesta quinta-feira (11), em reunião em Munique, na Alemanha, em implementar um cessar-fogo na Síria e ampliar o envio de ajuda humanitária ao país.

Se implementado, o regime de cessar-fogo poderia marcar uma guinada na prolongada guerra síria e levar a uma solução política em longo prazo. No entanto, os compromissos entre as partes ainda serão testados nos próximos dias.

A não inclusão do Estado Islâmico e da Frente Al-Nusra, ambos considerados organizações terroristas pela ONU, também compromete os resultados da iniciativa.

A Gazeta Russa conversou com especialistas políticos sobre o cessar-fogo forjado pelo grupo e suas implicações para o conflito sírio.

Cessar-fogo local é possível, mas conflito permanece

Parte dos especialistas acreditam na possibilidade de um cessar-fogo local, limitada a alguns setores da linha de frente. “Esse será provavelmente um acordo de cessar-fogo local, e não em nível nacional. Só poderia ser introduzido em locais onde as forças da oposição demonstrem disposição para negociar”, diz Nikolai Kojanov, acadêmico não residente no Centro Carnegie de Moscou e colaborador no Instituto do Oriente Médio.

O cessar-fogo não seria, portanto, um passo decisivo para a resolução final, segundo o especialista. “Embora o acordo anunciado possa estabelecer um precedente positivo para novas negociações, é improvável obter mudanças consideráveis na Síria em um futuro próximo”, acrescenta.

Do mesmo modo, o cessar-fogo local dificilmente se transformará em um processo de paz em longo prazo. Para que isso aconteça, segundo Kojanov, as partes em conflito deveriam esgotar a sua capacidade de combate. “Não haverá nenhum avanço imediato se os lados não pararem de usar seus avanços militares como uma ferramenta de barganha.”

Cessar-fogo pode levar a acerto final

Outro grupo de especialistas veem o cessar-fogo anunciado como um caminho direto para a resolução final da crise síria. Para eles, a iniciativa denota que as potências internacionais estariam dispostas a assumir compromissos.

O próprio apoio dos Estados Unidos aos curdos sírios, apesar das fortes críticas de Ancara, demonstraria o compromisso do país por uma uma resolução final na Síria.

“O presidente Obama, que em breve estará deixando o cargo, pretende concluir seu mandato presidencial com considerável sucesso de política externa, e isso inclui dar um passo decisivo para a paz na Síria”, sugere Vladímir Sotnikov, um dos principais pesquisadores do Instituto de Estudos Orientais da Academia Russa de Ciências.

Maksim Sutchkov, do Conselho Russo para Assuntos Internacionais russo, percebe o mesmo compromisso por parte da liderança russa. Para ele, o recente reforço dos ataques aéreos perpetrados por Moscou não complicaram a situação na Síria, mas “deixaram sua operação militar mais perto do fim e, eventualmente, transferiram o conflito para a esfera política”.

Embora não seja realista esperar que todos as partes apoiem o cessar-fogo, o acordo entre as principais potências do grupo de apoio à Síria será suficiente para estabelecer uma paz durável, de acordo com os especialistas. Se isso acontecer, alguns acreditam que a Rússia poderá ainda considerar a opção de retirar seu contingente do país.

Cessar-fogo impossível no futuro próximo

Há ainda, entre os especialistas mais pessimistas, quem descarte a possibilidade de um cessar-fogo seguro no atual cenário incerteza política e militar.

“A Rússia e o Irã parecem mais interessados em obter ganhos adicionais em terra (...) do que interromper seus avanços territoriais”, diz Simond de Galbert, pesquisador convidado do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Embora concorde que o cessar-fogo é “mais necessário do que nunca”, o acadêmico não o enxerga como uma proposta realista.

Já Sotnikov do Instituto de Estudos Orientais russo, aponta os vários grupos militares que lutam contra o regime de Assad independentemente da Coalizão Nacional Síria como o maior obstáculo para um acordo de paz duradouro.

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