Reflexos de visita relâmpago de Assad serão sentidos em Viena

Líder sírio encontrou-se três vezes com Pútin na terça-feira (20).

Líder sírio encontrou-se três vezes com Pútin na terça-feira (20).

AP
Operação militar na Síria é acompanhada por ações diplomáticas inesperadas em Moscou, e resultados deverão ser sentidos na reunião entre chanceleres de EUA, Rússia, Turquia e Arábia Saudita na sexta-feira (23).

Na quarta-feira (21), a assessoria do Kremlin e da administração de Bashar al Assad revelaram mais detalhes sobre a visita surpresa do presidente sírio à capital russa realizada no dia anterior.

De acordo com a agenda de Bashar, ele encontrou-se três vezes com o presidente russo Vladímir Pútin - só os dois a portas fechadas, com mais participantes e no formado de jantar de negócios.

"O povo sírio resiste quase sozinho, luta contra o terrorismo internacional já há alguns anos, sofre grandes perdas, mas nos últimos tempos alcança resultados bem positivos nessa guerra", disse Pútin em encontro com Assad.

Pútin ressaltou ainda a prontidão russa em "fazer a contribuição possível ao processo político" na Síria e esclareceu que se deve tratar de uma "resolução de longo prazo".

Na Europa, evitaram-se comentar os acordo no Kremlin. "A Rússia deve desenvolver perspectivas que permitam manter o Estado sírio", disse o chefe das Relações Exteriores da Alemnaha, Frank-Walter Steinmeier.

Já a reação de Washington à visita do líder sírio a Moscou foi negativa. "A Rússia não devia estender o tapete vermelho diante de Assad, que usou armas químicas contra o próprio povo", anunciaram na Casa Branca.

Reação semelhante despertou o encontro na Turquia. "Seria melhor que Assad tivesse ficado mais tempo em Moscou, para que o povo sírio pudesse tirar umas férias dele", disse o premiê turco Ahmet Davutoglu.

Sinal político

 O encontro no Kremlin, assim como suas condições, foram recebidos por especialistas como um sinal do início de uma ofensiva diplomática de Moscou.  

"A visita do presidente sírio tem dois elementos: um de imagem, outro político. Na imagem, a visita tentou relembrar que Bashar al Assad é o presidente eleito da Síria, que de modo algum está isolado", diz o pesquisador do Centro de Estudos Políticos da Rússia, Dmítri Polikanov.

"O sinal político, é a lembrança de que sem a Rússia e Bashar al Assad, a resolução síria não acontecerá", completa.

Além disso, segundo o ex-vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Andrêi Fedorov, a visita também é um gesto voltado ao Irã. "O país recentemente receava que a Rússia em algum momento entregasse Assad nas negociações com o Ocidente", diz.

De acordo com Fedorov, as condições da visita também têm significado importante. "A visita pode não ter sido divulgada previamente, mas tampouco foi escondida, apesar de que poderíamos tê-lo feito. Sentando-se de forma incomum com Bashar no Kremlin, Moscou coloca, definitivamente, suas cartas na mesa", arremata Fedorov.

Encontro em Viena

O encontro em Viena entre chefes de diplomacias da Rússia, EUA, Arábia Saudita e Turquia na próxima sexta-feira (23) mostrará os resultados para o Kremlin de seus passos.

A reunião foi proposta pelos norte-americanos e as negociações devem girar em torno do aprofundamento de acordos testados no Catar, quando se reuniram o chefe da chacelaria russa Serguêi Lavrov, o secretário de Estado norte-americano John Kerry e o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir.

Nas negociações em Doha, Lavrov falou pela primeira vez com maiores detalhes sobre o plano de Pútin quanto aos extremistas islâmicos, de se criar uma ampla coalizão com participação dos exércitos sírio e iraniano, curdos e outros países da região. O plano, porém, foi rejeitado pela coalizão liderada pelos EUA, e a Rússia passou a agir em coordenação apenas com a Síria.

De acordo com o jornal russo Kommersant, Moscou propôs, no âmbito dos acordos em Viena, atrair outros países, sobretudo o Irã, à mesa de negociações. Mas os EUA teriam rejeitado também essa proposta.

Com material do jornal Komersant

 

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