Moscou e Ocidente negam conflitos em torno do Ártico

Lavrov: “Não há potencial para qualquer tipo de conflito no Ártico”

Lavrov: “Não há potencial para qualquer tipo de conflito no Ártico”

Aleksandr Scherbak/TASS
A região do Ártico não é motivo de qualquer potencial conflito entre a Rússia e os outros países polares, disse o chanceler russo Serguêi Lavrov, durante reunião ministerial do Conselho Ártico. Observadores, no entanto, acreditam que a situação seja mais complexa, ainda que países consigam contornar os problemas por agora.

Nos últimos anos, a Rússia e o Ocidente concordaram pouco acerca dos temas globais. Moscou, Washington e Bruxelas apoiam lados opostos no conflito sírio, interpretam a questão no leste da Ucrânia de forma diferente e se acusam mutuamente de interferência nos assuntos internos alheios.

No entanto, quando o assunto é Ártico, a retórica entre as partes parece mais amigável. Pelo menos a julgar pela reunião ministerial do Conselho Ártico que aconteceu na última quinta-feira (11) em Fairbanks, no Alasca.

“Não há potencial para qualquer tipo de conflito no Ártico”, destacou o chanceler russo Serguêi Lavrov durante a reunião. Segundo ele, Moscou está disposta a garantir que a região se desenvolva como um território de paz e cooperação.

Declarações semelhante partiram também dos demais ministros das Relações Exteriores do Conselho Ártico, que engloba Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia.

Da esq. para dir., Margot Wallstrom (Suécia), Serguêi Lavrov (Rússia), Rex Tillerson (EUA) e Borge Brende (Noruega) posam para foto de grupo após reunião no Alasca (Foto: Aleksandr Scherbak/TASS)Da esq. para dir., Margot Wallstrom (Suécia), Serguêi Lavrov (Rússia), Rex Tillerson (EUA) e Borge Brende (Noruega) posam para foto de grupo após reunião no Alasca (Foto: Aleksandr Scherbak/TASS)

Ameaças e corridaarmamentista

Alguns especialistas internacionais não estão convencidos de que essas declarações correspondam à realidade.

A região polar vem sendo altamente militarizada desde a Guerra Fria, segundo Aleksêi Fenenko, colaborador sênior do Instituto RAS de Problemas de Segurança Internacional. “Todas as trajetórias intercontinentais de mísseis balísticos – russos e norte-americanos – passam pelo Ártico”, disse Fenenko à Gazeta Russa.

As principais forças nucleares estratégicas da Rússia também estão concentradas na região. “Nesse sentido, o Ártico está na vanguarda”, acrescentou o pesquisador.

Oficiais relatam ainda uma “corrida armamentista oculta” no Ártico.

O comandante da Guarda Costeira dos EUA, Paul Zukunft, expressou preocupação com a vantagem da de Moscou em relação a Washington na região, em entrevista à revista “Foreign Policy”, em 3 de maio – a Rússia estaria dando um “xeque-mate” nos EUA, tanto em termos de quantidade como em qualidade de armas e tecnologia.

O Kremlin tem mostrado insatisfação com o avanço da Otan na região. Em abril passado, o ministro da Defesa russo, Sergei Choigu, criticou a Aliança por criar um campo de tiro no norte da Noruega, onde estão sendo implantados contingentes em uma base rotativa. Na ocasião, o ministro russo se referiu às ações como “uma demonstração da promoção militar dos interesses da Otan”.

Interesses russos na região

Apesar desses incidentes, a Rússia e o Ocidente ainda estão tentando manter uma evolução pacífica da situação, acredita Andrêi Kortunov, diretor-geral do Conselho Russo para Assuntos Internacionais. “Em relação à superioridade militar da Rússia no Ártico, isso é algo que se formou historicamente”, diz.

Segundo Kortunov, há uma compreensão tácita no Ocidente de que o Ártico é importante para a Rússia porque sua Marinha, ao contrário da dos Estados Unidos, não tem acesso aos oceanos Atlântico e Pacífico.

“É por isso que os países da Otan não estão tentando alcançar paridade com a Rússia na região. Se esse entendimento for preservado, penso que seremos capazes de evitar uma corrida armamentista”, acrescenta.

Grandes recursos e territórios

Os cientistas estimam que 13% das reservas mundiais de petróleo não comprovadas e 30% das reservas de gás estão concentradas no Ártico.

Além disso, a Rota Marítima do Norte ganha maior importância com o derretimento do gelo polar. Pelas estimativas do Conselho Ártico, até o final da década de 2030, a rota não terá mais gelo e se tornará a maior via arterial de transporte do mundo.

O Ártico está dividido entre cinco países (Canadá, Dinamarca, EUA, Noruega e Rússia), com status de Região do Patrimônio Mundial. As reivindicações territoriais dos países, entretanto, se sobrepõem umas às outras.

Esse é o caso de Rússia, Canadá e Dinamarca. Em exigências apresentadas à Comissão das Nações Unidas, cada país determinou o território da plataforma continental de sua maneira, invalidando as reivindicações dos vizinhos.

Desavença, mas não guerra

Fenenko observa que, dependendo do que a Comissão da Nações Unidas decidir, atritos mais sérios poderão surgir daqui cinco a dez anos.

“Por exemplo, se a ONU transferir o território próximo do polo Norte para um dos países da Otan e a aliança operar aviões lá, pode haver um choque. Um conflito local pode ocorrer na Rota Marítima do Norte”, diz.

Kortunov, do Conselho de Assuntos Internacionais, enumera três fatores que permitem descartar as possibilidades de conflito: os principais depósitos minerais estão concentrados em regiões exploradas e divididas, cuja propriedade não cria argumentos; embora as disputas territoriais existam, os países podem resolvê-las com concessões mútuas, como no caso da Rússia e Noruega, que partilharam o mar de Barents em 2010; e a ONU demora para examinar todas as reivindicações.

“A decisão não deve ser tomada antes da metade da década de 2020. Nesse meio tempo muita coisa pode mudar. As tensões internacionais podem desaparecer”, afirma o especialista. Para ele, “não devemos dramatizar o problema do Ártico. Ele existe, mas não é um conflito que pode levar à guerra”.

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