Visita de secretário dos EUA a Moscou tem resultados incertos

Tillerson (esq.) fez visita oficial a Moscou na quarta-feira (12), quando encontrou-se com seu homólogo Lavrov (dir.) e com o presidente Pútin.

Tillerson (esq.) fez visita oficial a Moscou na quarta-feira (12), quando encontrou-se com seu homólogo Lavrov (dir.) e com o presidente Pútin.

Reuters
Rex Tillerson se encontrou com presidente russo na quarta-feira (12) em Moscou. Após primeira visita do novo secretário, Trump afirmou que seu país "não está se dando bem" com Rússia.

As relações bilaterais entre Rússia e Estados Unidos estão em condições muito ruins, de acordo com declarações do presidente Vladímir Pútin na véspera das negociações entre o ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguêi Lavrov, e do secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson.

Em entrevista ao canal russo Mir24, Pútin disse que nos primeiros meses da presidência de Trump nos EUA, o nível de confiança entre Moscou e Washington piorou, até mesmo em comparação aos últimos anos da presidência de Obama – quando analistas políticos afirmavam que os dois países voltavam à retórica da Guerra Fria. 

Lavrov (esq.) faz discurso de abertura durante encontro bilateral com Tillerson (dir.).  / ZUMA Press/Global Look PressLavrov (esq.) faz discurso de abertura durante encontro bilateral com Tillerson (dir.). / ZUMA Press/Global Look Press

Antes da visita de tillerson, a diplomacia dos EUA e da Rússia trocaram farpas. Tillerson mandou que Moscou escolhesse seu lado no conflito sírio, e seu homólogo russo, Lavrov, respondeu que “dar ultimatos à Rússia não funciona”.

Os EUA, em resposta, publicaram um relatório afirmando que a Rússia teria tentado encobrir o envolvimento do governo sírio no ataque químico de 4 abril. O porta-voz de Pútin, Dmítri Peskov, repudiou as acusações, classificando-as como não fundamentadas.

Um dia antes da chegada de Tillerson a Moscou ainda era incerto se ele seria recebido por Pútin no Kremlin, além do encontro acertado com Lavrov.

Na terça-feira (11), Peskov afirmou que a agenda de Pútin não continha um encontro com o secretário de Estado norte-americano. Mesmo assim, Pútin recebeu Tillerson na quarta-feira (12), após o encontro com Lavrov.

Diferenças sobre a Síria

Fontes do jornal russo “Kommersant” afirmaram que a Síria tomou o centro das atenções durante os encontros. Em declarações após esses, Lavrov e Tillerson mostraram que continuam a divergir sobre o tema, mas estão preparados para discuti-lo.

Tillerson reiterou que o regime de Bashar al-Assad está no fim e que é tarefa da Rússia explicar isso ao sírio.

Lavrov, por sua vez, questionou a efetividade da combate dos EUA aos islamistas do grupo Jabhat al-Nusra. “Ainda há suspeitas de que o Al-Nusra foi preservado até agora com a ideia de usá-lo para derrubar Assad”, disse Lavrov.

As hipóteses das partes para os acontecimentos de 4 de abril na Síria também diferem. Os EUA estão confiantes de que o ataque químico foi perpetrado pelo regime de Assad, enquanto a Rússia tem pedido que se considere as autoridades sírias inocentes até que a Organização para Proibição de Armas Químicas tenha divulgado seu relatório.

Baixo nível de confiança

Ambos os diplomatas descreveram a discussão como produtiva. Lavrov disse que a Rússia está preparada para reativar um memorando com os EUA para evitar incidentes e garantir a segurança na Síria. Moscou havia suspendido unilateralmente o memorando após ataque de 7 de abril da marinha norte-americana a uma base da Força Aérea da Síria.

O ministro russo também anunciou que será criado um grupo especial com representantes de sua pasta e do Departamento de Estado dos EUA para analisar os problemas bilaterais existentes.

“Há um baixo nível de confiança entre nossos países. As duas maiores potências nucleares mundiais não podem ter esse tipo de relações”, ressaltou Tillerson.

Para o editor-chefe da revista “Rússia na Política Internacional”, Fiódor Lukiánov, o encontro teve um aspecto positivo: o restabelecimento de mecanismos de comunicação bilaterais.

“Quanto ao restante, não percebi nenhuma reconcialização. Na minha opinião, os americanos estão agora mais propensos a uma política muito dura, e não apenas em relação à Rússia, mas em geral. Para a administração de Trump, parece ser importante mostrar que os EUA são os chefes”, diz.

O diretor do Centro de Estudos Europeus e Internacionais da Escola Superior de Economia de Moscou, Timofêi Bordatchev, viu outros pontos positivos no encontro.

“Pela primeira vez em muitos anos os EUA não tentaram intervir em questões internas russas. Tillerson não se encontrou com representantes da oposição e sua visita foi completamente voltada à política internacional”, diz Bordatchev.

Reação de Trump

O presidente norte-americano, que se encontrava com o secretário da Otan, Jens Stoltenberg, na quarta-feira (12), fez declarações sobre as negociações de Tillerson, que considerou excelentes, e relembrou que seria bom melhorar as relações com a Rússia.

“Seria ótimo se a Otan e nosso país pudessem se dar bem com a Rússia. No momento, nós não estamos nos dando muito bem”, disse Trump.

Há apenas uma semana, Trump fez duras críticas a Moscou. As declarações contraditórias podem indicar que a nova administração não tenha uma abordagem unifrome quanto à política externa.

“A administração ainda está sendo composta, há inúmeros conflitos internos ocorrendo entre diferentes grupos e indivíduos. Ainda não há uniformidade à vista”, afirma Bordatchev.

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