Quem será o próximo presidente da Rússia?

Pútin em colégio eleitoral durante votação para o Parlamento, em setembro de 2016

Pútin em colégio eleitoral durante votação para o Parlamento, em setembro de 2016

Reuters
Anistias, reuniões no Kremlin, perseguições a políticos corruptos e apostas no atual presidente permeiam a futura corrida eleitoral, que já começa a ganhar ritmo.

Com um ano para as eleições presidenciais na Rússia, a corrida eleitoral já está ganhando ritmo. Até agora, existe a premissa de que o atual presidente Vladímir Pútin vencerá com mais de 70% dos votos, segundo fontes representando elites regionais.

Não houve, porém, nenhuma declaração oficial de que Pútin será candidato: as discussões no Kremlin se mantêm; marqueteiros são convocados pela administração presidencial, um após o outro; vários políticos estão sendo afastados de seus cargos; e as elites ficam apreensivas quando surge um novo vazamento de informação.

Há apenas uma certeza quanto aos planos do Kremlin para a campanha.

Voto de confiança

Pútin ainda não anunciou se irá ou não concorrer em 2018, mas, segundo o RBC Media Group, os oficiais do governo partem da premissa de que ele será candidato, e que este será o seu último mandato presidencial.

“O cenário é tal que nenhum outro político russo está preparado para desafiar Pútin na corrida, portanto, entende-se que, mesmo com adversários na disputa, Pútin acabará ganhando de qualquer jeito”, disse à Gazeta Russa o diretor do Instituto de Estudos Políticos, Serguêi Markov.

“O partido de oposição mais forte do país é o Partido Comunista [da Federação Russa]. Eles têm criticado fortemente a política socioeconômica de Pútin, mas até mesmo os comunistas, na verdade, apoiam a ideia de sua reeleição, porque o veem como pilar e símbolo da nação russa contemporânea”, acrescenta.

Segundo Markov, nenhum dos veteranos que ainda figuram na cena política russa, incluindo os septuagenários Guennádi Ziuganov (Partido Comunista) e Vladímir Jirinóvski (Partido Liberal Democrata da Rússia), ou Grigóri Iavlinski (Iábloko), de 64 anos, teriam chance contra Pútin.

Veteranos da política russa, como Jirinóvski (esq.) e Ziuganov, não são páreo para Pútin, segundo especialistas (Foto: Aleksêi Nikolski/RIA Nôvosti)Veteranos da política russa, como Jirinóvski (esq.) e Ziuganov, não são páreo para Pútin, segundo especialistas (Foto: Aleksêi Nikolski/RIA Nôvosti)

“Ninguém consegue [ganhar], Pútin não tem concorrência”, diz Mikhail Remizov, presidente do Instituto de Estratégia Nacional. “Em outras palavras, o que nos espera não é uma eleição, mas um voto de confiança em Pútin.”

Incentivo às urnas

O objetivo principal do Kremlin, e também o seu principal problema, é garantir que grande parcela da população compareça às urnas; o voto não é obrigatório no país. Um alto índice de abstenção seria prejudicial mesmo em caso de vitória, pois a legitimidade do próximo presidente é de extrema importância para o Kremlin.

“O ano de 2018 marcará o início de dolorosas reformas econômicas na Rússia, que afetarão muitas pessoas”, explicou à Gazeta Russa o diretor-geral do Centro de Tecnologias Políticas, Ígor Bunin. “Para que isso seja implementado com sucesso, não deve haver dúvidas sobre a legitimidade do presidente, portanto, os números [de comparecimento às urnas] devem falar por si só.”

Além disso, Pútin estará encerrando um mandato em 2018 e preferiria terminar seu atual governo com popularidade crescente. As eleições seriam, assim, uma avaliação nacional de seu desempenho geral como presidente .

Por outro lado, muitos apoiantes do presidente estão tão confiantes de que ele irá vencer que demonstram pouca motivação para votar. “A lógica é a seguinte: por que se preocupar se ele vai ganhar mesmo?”, explica Remizov.

Entre os especialistas acredita-se que nenhum dos possíveis candidatos de 2018 será capaz de despertar o interesse dos russos pelas eleições.

Jovens tecnocratas

A reestruturação de poder é uma das atividades que mais tem chamado atenção na linha de governo da Rússia. Cinco governadores perderam o mandato nos primeiros dez dias de fevereiro, e o processo está longe de terminar, garantem os observadores.

Os líderes de regiões afastados são, em sua maioria, políticos que vinham enfrentando críticas severas por seu fraco desempenho; em vez de serem substituídos por ex-oficiais do serviço de guarda-costas presidencial ou chefes de segurança pró-Putin, os suplentes são geralmente jovens “administradores eficientes” – não necessariamente leais ao presidente, mas sem peso político nem ambições políticas particulares.

O processo está sendo coordenado pelo novo supervisor de política da Casa Civil, o vice-chefe da administração presidencial Serguêi Kirienko.

Remizov acredita que Kirienko tenha sido nomeado exclusivamente para essa tarefa, cujo objetivo é reduzir o grau de tensão entre os governadores e a população, e entre os setores liberais da sociedade e as autoridades.

Opções para liberais

O Kremlin também lançou uma campanha eleitoral não oficial para o segmento liberal da sociedade, segundo os analistas, “com uma série de anistias”. Em três casos de destaque, as penas foram revogadas dentro de apenas um mês: o de duas mulheres, culpadas por respostar um vídeo em uma rede social e de enviar mensagens de texto para um amigo na Geórgia avisando sobre o movimento das tropas russas antes da guerra em agosto de 2008, respectivamente; e a de um ativista que participou de um protesto não autorizado, embora pacífico.

Oksana Sevastidi, que foi condenada por traição após alterar um conhecido na Geórgia por mensagens de texto, é fotografada deixando presídio em Lefortovo (Foto: Maksim Blinov/RIA Nôvosti)Oksana Sevastidi, que foi condenada por traição após alterar um conhecido na Geórgia por mensagens de texto, é fotografada deixando presídio em Lefortovo (Foto: Maksim Blinov/RIA Nôvosti)

“Esse degelo, como descrevem os meios de comunicação no país, deve aliviar as tensões nas grandes cidades, onde as pessoas costumam acompanhar os julgamentos de perto”, diz Markov.

O caso do líder da oposição Aleksêi Naválni contraria, porém, essa tendência. Com recursos negados, o oposicionista ainda está impossibilitado de concorrer à presidência.

“Mas isso pode mudar”, disse uma fonte do Kremlin à Gazeta Russa, acrescentando que a decisão final ainda será tomada. Alguns nomes da administração presidencial defendem que o opositor receba permissão para entrar na corrida, pois acreditam que Naválni não conseguirá vencer, mas sua participação legitimaria o processo eleitoral.

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