‘Lutar contra o Estado Islâmico é uma experiência amarga’, diz comandante

Homem e criança em frente a casa incendiada por EI fotografados minutos antes de deixar Mossul

Homem e criança em frente a casa incendiada por EI fotografados minutos antes de deixar Mossul

Reuters
Soldados peshmerga desempenharam um papel importante na libertação parcial da cidade iraquiana de Mossul, que estava sob domínio do grupo terrorista. Em Moscou para os preparativos para a próxima operação contra o EI, Kava Husein falou à Gazeta.ru.

No norte do Iraque, a cidade de Mossul tornou-se peça fundamental no conflito entre o Estado Islâmico (EI) e a coalizão internacional que busca libertar as cidades ocupadas pela organização.

A ofensiva, iniciada em outubro, já conseguiu ocupar a parte oriental da cidade e se prepara para atacar o oeste de Mossul. Os soldados peshmerga (Forças Armadas do Curdistão iraquiano) tiveram um papel fundamental nessa conquista. Em poucos dias, eles libertaram as populações do norte da cidade, abrindo espaço para as forças governamentais do Iraque.

O major Kava Husein luta nas fileiras dos peshmerga (“aqueles que enfrentam a morte”, em tradução literal) desde os 18 anos e hoje é o comandante de um grupo de 400 pessoas. Em Moscou, ele falou à Gazeta.ru sobre o combate.

Gazeta.ru​: A parte oriental de Mossul foi completamente liberada ou ainda há distritos em disputa?

Kava Husein: Há alguns dias, os últimos membros do Estado islâmico deixaram a cidade. Verificamos os distritos e transferimos controle para o Exército iraquiano, conforme o acordo entre Erbil (capital do Curdistão iraquiano) e Bagdá (Iraque). Em muitos distritos liberados encontramos cabeças cortadas de heróis de nossas fileiras.

Crianças em um bairro industrial de Mossul (Foto: Reuters)Crianças em um bairro industrial de Mossul (Foto: Reuters)

Gazeta.ru​: Quando as Forças Armadas poderão liberar a parte ocidental da cidade?

Kava Husein: Acho que vai demorar cerca de três ou quatro meses porque distritos ainda ocupados serão muito difíceis (de liberar).

Gazeta.ru​: Qual é a maior dificuldade?

Kava Husein: Os guerrilheiros do EI em Mossul mantêm contato com a Síria. Eles atravessam as fronteiras quando querem e recebem ajuda sempre que necessário. Além disso, o Exército iraquiano não é bem preparado para a operação, embora tenha armamentos de última geração e soldados bem equipados.

Nós nunca atacamos de frente, preferimos ir ao redor. Os destacamentos de ataque do EI são sempre soldados suicidas. Não é fácil se defender contra eles e sair vivo. Tentamos cercá-los e iniciar o ataque por trás.

Hotel cinco estrelas Ninewah Oberoi atingido por ataques (Foto: Reuters)Hotel cinco estrelas Ninewah Oberoi atingido por ataques (Foto: Reuters)

Gazeta.ru​: Qual é a tática do Estado Islâmico?

Kava Husein: Lutar contra o Estado Islâmico é uma experiência muito amarga, porque eles são guerrilheiros suicidas. Eles costumam usar as crianças contra nós, e isso é a única coisa que nos impede de lutar. Por exemplo, eles podem amarrar um dispositivo explosivo em uma criança e enviá-la ao local das nossas tropas. Eles também usam mulheres como escudos humanos.

Gazeta.ru​: Os terroristas têm prisoneiros?

Kava Husein: Quando os terroristas capturam um soldado peshmerga, sua cabeça é cortada em 10 minutos...

Gazeta.ru​: Nem em troca de resgate?

Kava Husein: Eles só querem sangue. O Estado Islâmico não tem a intenção de chegar a qualquer acordo econômico, porque não precisam de dinheiro. Eles têm bom suporte financeiro. O Estado Islâmico tem tudo que precisa, por isso não tem intenção de negociar.

Suposto militante do EI capturado por soldados iraquianos (Foto: Reuters)Suposto militante do EI capturado por soldados iraquianos (Foto: Reuters)

Gazeta.ru​: E os peshmerga têm prisioneiros? Ou é uma guerra de morte?

Kava Husein: Uma vez capturei um membro do EI pessoalmente. Amarrei as mãos, dei água para acalmar. Quando capturamos prisioneiros, oferecemos comida porque, antes de tudo, são pessoas, e não queremos que as pessoas sofram. Mas a atitude deles é outra.

Muitos combatentes do Estado Islâmico começaram a se render, eles estão conscientes de que o Estado Islâmico no Iraque está chegando ao fim. Já abrimos um campo especial em Kirkuk, no norte do país, para proteger os guerrilheiros que optam por deixar os terroristas.

Fugidos de Mossul, iraquianos se aglomeram no campo de Khazer (Foto: Reuters)Fugidos de Mossul, iraquianos se aglomeram no campo de Khazer (Foto: Reuters)

Gazeta.ru​: O que acontecerá após a libertação completa do Iraque?

Kava Husein: Vamos defender a nossa independência. Mas não podemos resolver esse problema por conta própria. Esperamos a ajuda e apoio da Rússia.

Publicado originalmente pelo jornal on-line Gazeta.ru

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