Nomeação de Rex Tillerson é recebida com otimismo em Moscou

Pútin (dir) e Tillerson durante assinatura de acordo entre Rosneft e ExxonMobil, em 2011

Pútin (dir) e Tillerson durante assinatura de acordo entre Rosneft e ExxonMobil, em 2011

Aleksêi Druzhinin/RIA Nôvosti
Novo secretário de Estado dos EUA é empresário conhecido na Rússia e é retratado como ‘amigo de Pútin’ pela mídia ocidental. Especialistas russos não acreditam, porém, que reestabelecimento das relações será automático.

O presidente eleito dos EUA Donald Trump nomeou na terça-feira (13) o CEO da petroleira ExxonMobil, Rex Tillerson, 64 anos, como o próximo secretário de Estado norte-americano. A notícia foi recebida com otimismo pelo observadores russos, que esperam de Tillerson correções significativas nas relações bilaterais com Moscou.

“Eu escolhi um dos verdadeiramente grandes líderes empresariais do mundo”, escreveu Trump em seu Twitter, antes de acrescentar que Tillerson é o melhor candidato ao cargo porque “tem experiência em lidar de forma bem-sucedida com todos os tipos de governos estrangeiros”.

O presidente e CEO da maior companhia de petróleo da América está familiarizado com círculos influentes em muitos países, incluindo a Rússia, e é conhecido pela forte oposição às sanções contra Moscou. A mídia ocidental apresenta-o como “amigo de Pútin” e um homem próximo a políticos e empresários russos.

Tillerson foi premiado por Pútin com a Ordem Russa da Amizade (por melhorar as relações entre os dois países) e mantinha colaboração estreita com a estatal russa Rosneft; em 2011, a ExxonMobil chegou a planejar um grande investimento em depósitos russos. O acordo com a Rosneft para produção conjunta de petróleo no Ártico e na Sibéria só não seguiu adiante devido às restrições impostas pelas sanções.

A assessora de Trump, Kellyanne Conway, garante que as relações entre Pútin e Tillerson não são tão próximas quanto parecem. “Não é que Vladímir Pútin e Rex Tillerson bebam shots de vodca juntos no bar”, disse Conway recentemente.

Contrário aos antecessores

“Acreditamos que esse pragmatismo será uma boa base para construir relações mutuamente benéficas do ponto de vista da cooperação russo-americana e do ponto de vista da resolução de problemas internacionais”, declarou o chanceler russo Serguêi Lavrov, salientando que pragmatismo é também qualidade de Trump.

O Kremlin, porém, enfatizou que entre os negócios e a diplomacia há “uma enorme diferença”.

“As afinidades, sem dúvida, sempre ficam em segundo plano [quando se assume o cargo de secretário de Estado] e tudo que resta é a vontade de mostrar uma atitude construtiva e o devido profissionalismo”, declarou o porta-voz da presidência russa Dmítri Peskov.

Apesar das críticas às sanções, acredita-se em Moscou que as declarações de Tillerson sejam motivadas apenas por interesses comerciais.

“Sua empresa é uma das poucas empresas norte-americanas que realmente sofreram sanções contra a Rússia, que teve alguns prejuízos e perdeu benefícios com os quais contava”, disse a Gazeta Russa o diretor da Fundação para Estudos dos EUA Franklin Roosevelt (Universidade Estatal de Moscou) Iúri Rogulev.

Segundo o reitor da Faculdade de Economia e Política da Escola Superior de Economia, Serguêi Karaganov, Tillerson é um diplomata corporativo com vasta experiência em negócios internacionais, e que “de maneira alguma teria permanecido em tal cargo na maior empresa de petróleo do mundo se não fosse competente”.

“Ao menos Moscou sabe ao certo quem é Tillerson e, assim como todos os outros nomeados por Trump para política externa e segurança, ele é, em primeiro lugar, uma pessoa competente, ao contrário de seus antecessores, e, em segundo, um homem não ideologizado, também ao contrário de seus antecessores”, diz Karaganov.

Conflito de interesses

A nomeação de Rex Tillerson, que ainda deverá ser aprovada pelo Senado, gerou controvérsia. Antes do anúncio, os rumores sobre a nomeação de Tillerson já soavam como “provocação”. O título de “amigo de Pútin” gerou resistência entre os congressistas norte-americanos, especialmente os democratas.

“Vemos que Trump continua sua política de ‘drenar o pântano de Washington’ e nomeou um homem afastado da política”, disse Rogulev à Gazeta Russa.

É por esse motivo que, segundo o acadêmico, os senadores americanos insistirão no conflito de interesses embutido na nomeação de Tillerson. “Uma política destinada a atenuar ou eliminar as sanções poderia aumentar consideravelmente os preços das ações da ExxonMobil.”

Segundo Rogulev, como os republicanos possuem maioria no Senado (52 votos contra 48 dos democratas), é quase certo que a nomeação será aprovada. Tillerson já iniciou o processo de saída da corporação.

“Além das relações entre a Rússia e os EUA, o novo secretário de Estado vai ter um monte de problemas para resolver, então, eu não acho que terá pressa em resolver esse problema bilateral sem consultar a Europa. Mas podemos ter certeza de que, com ele no governo, os EUA vão conduzir uma política mais ponderada”, concluiu.

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