É possível chegar a consenso entre Rússia e Ocidente, dizem especialistas

Divisão da Síria entre Assad e opositores foi defendida por especialistas em Moscou

Divisão da Síria entre Assad e opositores foi defendida por especialistas em Moscou

Reuters
Observadores de ambas as partes se encontraram em Moscou para debater sobre três temas em que há dificuldade de se chegar a um consenso: Otan, Síria e Ucrânia.

Especialistas em assuntos internacionais oriundos da Rússia e de países ocidentais se reuniram em Moscou para uma conferência dedicada a áreas políticas de importância global em que as partes são incapazes de encontrar um denominador comum. O fórum “Hipocrisia vs Diplomacia” aconteceu na segunda-feira (5).

“O tecido da conversação está sendo despedaçado no mundo”, disse Fiódor Lukianov, um dos organizadores da conferência e presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa, um grupo independente de reflexão baseado em Moscou.

Embora a ausência de diálogo entre a Rússia e o Ocidente, segundo os participantes da reunião, tenha o potencial de ser “fatal”, ainda é possível chegar a um consenso por meio de uma discussão adequada, mesmo sobre os problemas mais sensíveis.

Expansão da Otan rumo ao Oriente

A expansão da Otan é uma das contradições mais profundas nas relações entre a Rússia e o Ocidente, e diversos especialistas russos repetiram a linha oficial do Kremlin e que a aliança “prometeu” não se expandir após o colapso da União Soviética .

“Prometeram para nós que a Otan nunca iria se expandir. Queríamos agradar nossos nossos amigos ocidentais, e fomos enganados”, disse Serguêi Karaganov, reitor do Departamento de Política e Economia Mundial da Escola Superior de Economia.

No entanto, em entrevista à Gazeta Russa em 2014, o ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov admitiu que não houve nenhuma promessa.

O diplomata britânico e ex-conselheiro do Serviço de Ação Externa Europeu, Robert Cooper, também ressaltou durante a conferência que, segundo a aliança ocidental, não existem documentos que confirmem as alegações da Rússia.

“A Otan desempenhou um papel positivo, ajudando os países da Europa Oriental, nos quais muitos as lembranças da ocupação soviética e da dominação permanecem frescas, e sentem-se muito mais seguros [com a aliança]”, disse Cooper.

Andrêi Kortunov, diretor-geral do Conselho de Relações Exteriores russo, ressalta que o país não pode, por razões óbvias, fazer parte do sistema de segurança ocidental da Otan, mas também não acredita ser necessário agora.

“Provavelmente haverá dois sistemas de segurança: o euro-atlântico e o eurasiático [que a Rússia tenta construir em conjunto com a China], sugeriu Kortunov à Gazeta Russa.

“Cada sistema terá sua esfera de responsabilidade, mas haverá ainda um nível ‘superior’ no qual todos juntos combaterão as ameaças globais, como terrorismo, problemas ecológicos e etc”, acrescentou o russo.

Oriente Médio e a guerra na Síria

A Síria é outra área de profunda incompreensão entre as partes ressaltaram os especialistas. Enquanto os EUA acusam a Rússia de apoiar o presidente sírio Bashar al-Assad, a quem consideram um assassino, Moscou responde acusando Washington de flertar com o grupo terrorista Frente Al-Nusra.

Para o acadêmico e diplomata Aleksandr Aksenionok, membro do Conselho de Negócios Estrangeiros russo, porém, tanto a Rússia como os países ocidentais estão fazendo a mesma coisa no Oriente Médio: cuidando de seus interesses.

“A Rússia sentiu-se enganada após a adoção da resolução sobre a Líbia [pelo Conselho de Segurança da ONU] que sancionou a intervenção humanitária e a derrubada de Gaddafi] e decidiu pagar com a mesma moeda”, afirma Aksenionok.

Quanto à Síria, o diplomata acredita que há uma grande possibilidade de o país ser dividido em áreas controladas pelo governo e pela oposição.

A mesma opinião foi apontada por Soli Özel, professor de relações internacionais na Universidade Kadir Has, em Istambul. “Acho que Assad vai acabar ficando com a parte ocidental do país, onde 85% da população vive”, disse Özel à Gazeta Russa.

Segundo o observador turco, os países ocidentais estão “cansados ​​do conflito sírio” e “prontos para fazer concessões a Assad”. “Moscou também não insistirá em apoiar a oposição, especialmente depois que Donald Trump se mudar para a Casa Branca.”

Impasse na Ucrânia

O processo para encontrar uma resolução pacífica para o conflito no Donbass, que foi lançado ainda em 2014 em Minsk, na Bielorrússia, chegou a um beco sem saída. Os ministros dos Negócios Estrangeiros da Rússia, da Ucrânia, da França e da Alemanha prosseguem com as negociações, mas as reuniões em Minsk não têm gerado frutos.

Em meio a trezes tentativas fracassadas, os governos da Rússia e da Ucrânia, apoiada pelos ocidentais, acusam-se mutuamente de minar o processo de paz.

“Ninguém acredita que Minsk possa ser implementado”, diz Aleksêi Miller, professor da Universidade Europeia de São Petersburgo. “E não está claro como sair disso.”

Embora concorde que as medidas foram ineficazes, o diretor do Serviço de Planejamento de Política Exterior do Ministério das Relações Exteriores alemão, Thomas Bagger, acredita que Minsk ainda é a única solução para se sair do impasse.

“Agora, após a 13ª rodada de reuniões ministeriais e discussões tediosas, o principal argumento para manter a Minsk é que o processo conseguiu, pelo menos, impedir que coisas piores acontecessem”, disse Bagger. “A desconfiança ainda está bloqueando o processo de paz, mas vale a pena continuar a apoiar o diálogo”, concluiu.

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