‘Até James Bond apresenta os russos como mais criativos’

Hillary foi principal afetada por vazamento de e-mails do Comitê Nacional Democrata

Hillary foi principal afetada por vazamento de e-mails do Comitê Nacional Democrata

AP
Hackers que invadiram os arquivos do Partido Democrata dos EUA utilizaram ‘inglês macarrônico’ e foram extremamente amadores, segundo o proprietário da empresa russa King Servers, cujos servidores foram usados para perpetrar os ciberataques.

A investigação da polêmica invasão ao sistema de votação estadual em dois estados norte-americanos levou especialistas a Bisk, uma pequena cidade industrial no sul da Sibéria (3,7 km a leste de Moscou). Este é o local onde vive e trabalha Vladímir Fomenko, 26 anos, cuja empresa King Servers aluga espaço no servidor para Estados Unidos, Holanda e Rússia.

Em junho passado, segundo o FBI, hackers russos promoveram ciberataques “significativos” a partir dos servidores alugados da King Servers, invadindo os sistemas de registro eleitoral de Illinois e Arizona.

Mais cedo, os invasores haviam conseguido acesso aos computadores do Comitê Nacional Democrata, expondo e-mails e correspondência, cuja publicação acabou comprometendo a posição da candidata presidencial democrata Hillary Clinton, bem dados da pesquisa feita por democratas sobre o candidato republicano Donald Trump.

Depois de o FBI revelar que russos poderiam estar provavelmente por trás dos ataques, a imprensa internacional foi rápida em divulgar os chamados “rastros russos”.

Embora o Kremlin tenha negado envolvimento no caso, os gestores da King Servers se perguntaram por que ninguém havia contatado a empresa de Bisk, uma vez que todos os relatos na imprensa dos Estados Unidos estariam ligados a ela.

Em um artigo do “The New York Times”, por exemplo, a companhia de segurança cibernética norte-americana ThreatConnect chegou a descrever Fomenko como um “elo de informação” usado por hackers que tinham como alvo Alemanha, Turquia e Ucrânia, entre outros países.

“Eu realmente não cooperei e não estou cooperando com serviços especiais russos ou qualquer outro”, disse Fomenko à Gazeta Russa. “Não fomos sequer contatados pelo FBI para obter dados que permitiriam que os criminosos fossem capturados.”

Fomenko: “Se a ideia era vincular o incidente à Rússia, a escolha da empresa foi óbvia” Foto: Arquivo pessoalFomenko: “Se a ideia era vincular o incidente à Rússia, a escolha da empresa foi óbvia” Foto: Arquivo pessoal

Teste de ingenuidade

Fomenko insiste ter ficado sabendo apenas pela imprensa que o banco de dados do Partido Democrata havia sido atacado por servidores pertencentes à King Servers.

“Logo após, excluímos os hackers de nossos servidores e conduzimos uma investigação enquanto as pistas estavam quentes”, acrescentou.

Segundo ele, os rastros teriam levado à Escandinávia e à Europa, mas foi tomado cuidado para não se tirar conclusões sobre os autores pertencerem a um determinado país com base somente na localização dos servidores a partir dos quais foram operados, ou a língua em que escreveram, pois isso seria uma abordagem “ingênua”.

Assim, é também difícil dizer quantas pessoas estão por trás do crime, segundo o especialista. Embora o hacker tenha se comunicado com Fomenko sob dois apelidos, isso não deixa claro se se trata de uma pessoa ou vários indivíduos.

“Em nossa empresa, existem procedimentos para verificar se os clientes ‘obedecem às leis'", explicou, antes de embarcar em comparações: “Como os nossos colegas dos EUA e da Europa, avaliamos apenas solvência. Ninguém está pensando em processar o Google porque os criminosos podem usar o Gmail para correspondência?”.

“Por que nos escolheram?”

Durante os oito anos de atuação da King Servers no mercado, esta foi a primeira vez que a empresa é envolvida nesse tipo de escândalo. Mas, de acordo com Fomenko, qualquer outra companhia do mesmo ramo poderia estar em seu lugar.

“Por que os criminosos nos escolheram? Somos conhecidos no mercado. Temos alguns dos servidores mais avançados, não só na Rússia, mas em todo o mundo. Além do mais, o custo dos nossos serviços é mais baixo – embora os criminosos ainda nos devam dinheiro”, argumenta.

Após os ataques, os hackers continuaram a usar os serviços da King Servers e receberam uma cobrança de US$ 290 referente ao próximo subsequente antes de serem limados do servidor, quando a investigação teve início.

Fomenko também não descarta teorias da conspiração. A King Servers foi estabelecida na Rússia e todo seu apoio técnico permanece instalado no país. “Se o propósito original era vincular o incidente à Rússia, então, a escolha da empresa foi um tanto óbvia”, sugeriu.

“Se considerarmos a situação pelo outro lado, não está claro por que o FBI e os especialistas envolvidos na investigação estão falando apenas sobre a nossa empresa”, acrescentou Fomenko.

O proprietário ressalta ainda que o relatório do serviço de inteligência dos EUA diz que a invasão foi conduzida a partir de oito endereços IP diferentes, “seis deles pertencentes a nossa empresa (isto, é os criminosos usaram nossa estrutura), e duas outras empresas que não têm qualquer conexão conosco. Uma delas está situada na Holanda, e a outra, não sei. Mas tudo recai apenas sobre nós”.

Erro amador ou pista falsa?

Outra crítica de Fomenko se refere aos “rastros russos”, que seriam demasiadamente óbvios para serem levados em conta.

As mensagens deixadas pelo hackers para o serviço de suporte da King Servers foram escritas em inglês macarrônico, o que o especialista considera “muito estranho para os serviços especiais da Rússia, caso estivessem buscando assistência de uma empresa nacional”.

Além disso, os endereços de e-mail utilizados no registo contêm o nome “Robin Good” (com G, em vez de H, o que caracteriza uma típica transliteração russa).

“Não acho que os serviços de segurança nacional atuam de modo tão pouco profissional”, disse Fomenko. “Claro, eu só posso julgar por filmes, mas até James Bond apresenta os russos como sendo mais criativos.”

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