Kremlin faz alerta após teste nuclear da Coreia do Norte

Planos de Kim Jong-un (centro) haviam sido qualificados como “blefe”

Planos de Kim Jong-un (centro) haviam sido qualificados como “blefe”

Reuters
Com poder de negociação limitado, Moscou condenou iniciativa e anunciou que continuará esforços para evitar escalada da situação. Especialistas concordam ser preciso sentar-se à mesa de negociações para buscar solução conjunta.

A Rússia está extremamente preocupada com os últimos testes nucleares na Coreia do Norte e os condena veementemente, segundo o porta-voz do Kremlin, Dmítri Peskov.

“Posso dizer que esse acontecimento certamente nos causou extrema preocupação”, disse Peskov a jornalistas nesta sexta-feira (9), acrescentando que Moscou continuará a negociar com seus parceiros para resolver o problema.

“Acreditamos que tais ações por parte da República Popular Democrática da Coreia [RPDC] não contribuem para estabelecer um clima de segurança e confiança mútua na península coreana. (...) Além disso, eles levam a tensões crescentes”, afirmou.

Ainda segundo Peskov, o governo russo pede a todas as partes que demonstrem autocontenção e empreendam esforços sistemáticos para evitar a escalada da situação na península e promover sua desnuclearização.

Na manhã desta sexta, a Coreia do Norte realizou o quinto e maior de seus testes nucleares. A Instituto de Pesquisa Geológica dos EUA e o Centro Sismológico da China registraram um forte terremoto na área geralmente usada para testes nucleares.

Mais tarde, Pyongyang confirmou a condução dos testes.

“Não foi surpresa, porque a liderança norte-coreana disse que realizaria testes como parte de seu programa de longo prazo”, disse à Gazeta Russa o ex-embaixador da Rússia na Coreia do Norte, Valéri Sukhinin.

As intenções públicas de Pyongyang foram então ignoradas e consideradas como “blefe e propaganda” pela comunidade internacional, segundo Sukhinin.

Limites de Moscou

Na semana passada, a presidente sul-coreana Park Geun-Hye dedicou grande parte de seus discursos no Fórum Econômico Oriental, em Vladivostok, ao programa nuclear de Pyongyang, visto como “a principal ameaça para as economias do leste da Ásia”.

Em sua resposta a Park Geun-hye, o presidente russo Vladímir Pútin reiterou que Moscou mantém canais de comunicação com a liderança norte-coreana e iria tentar ajudar a normalizar a situação na península.

Além dos canais diplomáticos de alto nível com a Coreia do Norte, Sukhinin destaca que, recentemente, diversos funcionários de alto escalão participaram de uma recepção norte-coreana em Moscou.

“No entanto, apesar de contar com esses canais, Moscou tem sido incapaz de fazer com que Pyongyang pare de desenvolver novas capacidades [nucleares] ou que Kim se torne mais colaborativo com a comunidade internacional”, diz Aleksandr Gabuev, presidente da Rússia no Programa Ásia-Pacífico do Centro Carnegie de Moscou.

“Ao contrário da China, a Rússia não tem ferramentas econômicas de influência sobre a Coreia do Norte e é difícil imaginar que o país se torne mais influente e útil para resolver o problema do que agora”, acrescenta.

A ideia de pressão econômica é também refutada por George Toloraya, chefe do departamento de leste asiático do Instituto de Economia da Academia Russa de Ciências.

“A Coreia do Norte colocou-se em uma posição em que não pode ser influenciada a não ser por meio do uso da força”, explica Toloraya.

Próximos capítulos

A Coreia do Norte vai continuar reforçando seu potencial de mísseis nucleares, prevê Toloraya.

“Isso é feito tanto do ponto de vista de segurança como para reforçar a sua posição como negociador, porque Kim Jong-un espera que ‘os norte-americanos peçam misericórdia e concordem com as negociações”, diz.

Para Sukhinin, o governo de Pyongyang já deixou claro que só brecaria o seu programa nuclear se houvesse um desarmamento nuclear global.

“Acredito que precisamos de compromisso, precisamos de soluções construtivas e medidas recíprocas”, disse o ex-embaixador à Gazeta Russa.

“Precisamos entender o que realmente está incomodando Pyongyang e por que eles fazem isso. Não muito tempo atrás, por exemplo, eles sugeriram parar os testes nucleares se os EUA e a Coreia do Sul cancelassem os exercícios militares conjuntos. É preciso sentar-se à mesa das negociações para tentar encontrar soluções”, arremata.

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