Eventos na Turquia não devem impactar retomada de relações

Famosa ponte sobre o Bósforo bloqueada por militares turcos

Famosa ponte sobre o Bósforo bloqueada por militares turcos

AP
Em conversa telefônica, Pútin e Erdogan destacaram importância de garantir segurança de turistas russos na Turquia, após tentativa de golpe. Maioria dos especialistas acreditam que acontecimentos não trarão benefícios aos contatos bilaterais.

O presidente russo, Vladímir Pútin, conversou por telefone com seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, após a tentativa de golpe de Estado na Turquia, na noite de sexta-feira para sábado (16). A iniciativa partiu do lado russo, informou a assessoria de imprensa do Kremlin.

“Em relação à tentativa de derrubar à força as autoridades turcas democraticamente eleitas, durante a noite de 16 de julho, Vladímir Pútin salientou que a Rússia considera categoricamente inaceitável as ações antidemocráticas e o uso da força na vida de um país”, declarou, em nota, o Kremlin. “Recep Tayyip Erdogan recebeu condolências, devido às diversas vítimas entre os civis e agentes da lei que se opuseram aos conspiradores, bem como o desejo de a mais rápida recuperação da ordem constitucional e estabilidade na Turquia.”

Segundo as últimas informações, cerca de 265 pessoas morreram e 1.440 ficaram feridas na tentativa de golpe militar em Istambul e Ancara, capital da Turquia. Bombas foram lançadas sobre o edifício do Parlamento e do palácio presidencial. Em Istambul, pontes sobre o Bósforo foram fechadas, e escritórios das principais organizações de mídia turcas – o canal TRT e a Media Group Dogan –, invadidos.

O golpe foi organizado por um grupo de oficiais da Polícia militar e da Força Aérea turca, anunciou o chefe interino do Estado-Maior General Umit Dundar. Mais de 2.800 pessoas foram presas por suspeita de participação na tentativa de golpe.

Mais cedo, o primeiro-ministro russo, Dmítri Medvedev, também havia urgido a Ancara que restaurasse a ordem constitucional o mais rapidamente possível. “O que aconteceu mostra que há fortes e profundas divisões dentro da sociedade turca e das forças armadas”, disse o premiê.

Turismo entre os países

Na conversa telefônica, os presidentes de ambos os países discutiram a segurança dos turistas russos na Turquia, após a tentativa de golpe militar no país.

“O presidente russo disse que, depois do levantamento das medidas proibitivas, o número de turistas russos na Turquia havia saltado, e expressou a esperança de que o lado turco, diante das condições atuais, seja capaz de fornecer o máximo de segurança”, lê-se no comunicado do Kremlin. “Recep Tayyip Erdogan garantiu que todas as medidas necessárias nesse domínio seriam tomadas.”

Os líderes também confirmaram a promessa anterior de realizar um encontro em breve, informou a assessoria de imprensa do governo russo.

Impacto nas relações bilaterais

No final de junho, Erdogan pediu desculpas à Rússia pelo incidente com o bombardeiro russo abatido, em novembro passado, que havia desencadeado uma crise de sete meses nas relações bilaterais Moscou-Ancara. Desde então, os países entraram em um processo de normalização das relações.

“Em geral, a situação não deve ter um efeito negativo sobre as relações russo-turcas”, sugere Ilshat Sayetov, diretor do Centro para Estudos Turcos Contemporâneos. “O país é comandado por um líder que manifestou clara intenção de restabelecer as relações. No entanto, a instabilidade geral na Turquia – ataques terroristas, semigolpes, polarização da sociedade e assim por diante – não traz, naturalmente, benefício para as relações entre os dois países. A concentração de todo o poder nas mãos do presidente turco aumenta o risco de decisões mal julgadas, e as autoridades russas levarão isso em conta”, explica.

Opinião semelhante é compartilhada por Iúri Mavachev, acadêmico focado em Oriente Médio e Turquia e colaborador no Clube Geopolítico do Cáucaso. “Os sete meses da crise russo-turca não podiam deixar de influenciar as opiniões de alguns setores da sociedade russa. Nas primeiras horas da tentativa de golpe, alguns membros da comunidade de especialistas russos estiveram inclinados a manter uma visão positiva sobre o que estava acontecendo. Foi sugerido que o golpe tinha causas profundas e refletia questões prementes da sociedade turca. Essas avaliações mostram que o público russo ainda não está totalmente convencido de que, dado a seus erros anteriores, a liderança turca tente realmente manter relações em um nível adequado.”

Os desenvolvimentos recentes poderiam, no entanto, dar um impulso na normalização das relações com Moscou, acredita Kerim Tem, analista do grupo independente Organização Internacional de Pesquisa Estratégica.

“A liderança do país vai começar a seguir uma política mais independente para reforçar a segurança no país. A desvantagem será uma queda no número de turistas russos e um atraso no levantamento das sanções econômicas da Rússia”, diz Tem.

O analista turco Hasan Oktay, que dirige o Centro de Estudos Estratégicos do Cáucaso, com sede na capital turca, também prevê que os acontecimentos não terão efeito negativo sobre as relações com Moscou. “A tentativa de golpe falhou. Os conspiradores foram presos. A democracia triunfou”, arremata.

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