“Problemas estão relacionados a deficit de desenvolvimento”

Clark pretende suceder Ban Ki-moon, cujo mandato se encerra em dezembro

Clark pretende suceder Ban Ki-moon, cujo mandato se encerra em dezembro

EPA
Em entrevista, Helen Clark, atual presidente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e candidata para o posto de secretária-geral da ONU, fala sobre desenvolvimento sustentável, Síria, tendências na Ásia-Pacífico e Rússia.

Fiódor Lukianov: A razão atual para a maioria das crises graves no mundo é a incapacidade de Estados e regiões de garantir o desenvolvimento sustentável. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) produz relatórios de desenvolvimento periodicamente. Como você, como chefe do PNUD, avalia a situação de hoje em relação ao desenvolvimento no mundo?

Helen Clark: A maioria dos problemas que chegam diante do Conselho de Segurança se relacionam com algum deficit oculto no desenvolvimento. Se observarmos os Estados particularmente frágeis, geralmente vemos uma combinação de coisas. A pobreza extrema não existe em um vácuo – existe um problema de posição fraca do Estado e ausência de legislação e ordem. Alguns desses países estão muito expostos a desastres naturais. Essas coisas, juntas, causam problemas.

Essas são as áreas em que o PNUD trabalha mediante pedido de um governo. Nós podemos ajudá-los a reforçar a administração pública, fortalecer a prestação de serviços, fortalecer o sistema judicial. Podemos ajudá-los a desenvolver a força policial para trabalhar ao lado e com respeito às comunidades. Há muitas coisas que podemos fazer junto com o trabalho socioeconômico do inclusão e proteção social.

Você está satisfeita com o nível de envolvimento dos membros da ONU e, especialmente, das grandes potências?

Infelizmente, crises e desastres consomem recursos que qualquer país preferiria investir em sociedades estáveis ​​tentando ampliar suas economias, incluindo a própria, e melhorar os seus sistemas de saúde e educação. No entanto, nas circunstâncias atuais, grande parte do dólar produzido está sendo desviado para outras coisas, como ajuda humanitária.

Temos sorte de que na Síria um grande número de parceiros estiveram preparados para ajudar, restaurar o abastecimento de água e energia, limpar áreas, trabalhar para dar oportunidades aos jovens, capacitar as mulheres e trabalhar com os grupos mais vulneráveis.

Temos dinheiro para tudo isso. E também no Iraque, em áreas retomadas do controle do Estado Islâmico, o PNUD tem a capacidade, que vem crescendo bastante, de dar suporte às comunidades voltarem e reassumirem suas vidas. Mas isso implica grandes custos para os países e o desvio de recursos de tantas outras regiões merecedoras.

ONU e as grandes potências

Você está satisfeita com a forma como as grandes potências contribuem para a eficiência da ONU?

A ONU funciona melhor com atrito mínimo entre as grandes potências. Quando há atrito, torna-se mais difícil obter consenso no Conselho de Segurança. E eu acho que um importante papel do secretário-geral deva ser sempre o de tentar conectar os membros e construir as pontes que contribuam para um clima de confiança.

A confiança é um bem escasso nos dias de hoje. Você acha que o secretário-geral da ONU pode ser visto como uma entidade neutra, igualmente distante de todos os principais intervenientes?

O secretário-geral deve ser definitivamente visto capaz de estar acima das diferenças dentro do Conselho de Segurança e entre os membros da ONU. O papel do secretário-geral é tentar facilitar que os próprios membros alcancem acordos.

Ser politicamente neutro é extremamente importante, e para o PNUD este é um princípio fundamental enquanto eu estiver lá –o PNUD não faz política. Temos orgulho de trabalhar no desenvolvimento humano e sustentável em todos os contextos políticos. Nem sempre é fácil, mas fazemos isso.

Você entende o humor e lógica da Rússia, sua liderança, sua opinião pública?

Antes de vir para o PNUD, fui especialmente exposta à Rússia através da lente da Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) e da comunidade econômica Ásia-Pacífico, que foi uma experiência construtiva, porque o que reunia as pessoas em torno daquela estrutura era um interesse comum pela paz e pela prosperidade. Era muito focada em cooperação econômica.

Ao chegar ao PNUD, um dos primeiros compromissos da minha agenda foi, por acordo com a Rússia, de fechar o escritório do PNUD [no país], porque não estava servindo a um propósito útil. E a minha visão era de que nós, como o PNUD, precisávamos nos relacionar com a Rússia como um parceiro estratégico e em desenvolvimento, trabalhando com a Rússia em países terceiros. Conseguimos concluir um acordo-quadro de parceria, criar um fundo fiduciário Rússia-PNUD. Esses foram [algumas das] formas que interagi com a Rússia.

Se voltarmos aos meus tempos de universitária, estudei bastante as grandes potências. Estudamos a Rússia e a União Soviética. E, em seguida, a Rússia passou por mudanças, então a gente se esforça muito para se manter atualizado sobre como é a Rússia moderna, e o que seus cidadãos e líderes estão pensando.

Uma das razões para fazer esta visita agora como candidata a secretária-geral é para ter uma ideia atualizada sobre o que está se passando na cabeça de pessoas que estão pesquisando e exercendo a política externa russa.

Guinada para Ásia

Quais são as suas expectativas para a região Ásia-Pacífico em 2030?

Em primeiro lugar, a Nova Zelândia vai sempre querer estabelecer um acordo inclusivo de comércio. E vem negociando o Tratado Transpacífico (TTP). Na verdade, as negociações em torno do TPP começaram no final do meu tempo como primeira-ministra da Nova Zelândia, e meu governo assinou o original Acordo de Parceria Econômica Estratégica Transpacífico, entre Nova Zelândia, Chile, Cingapura e Brunei [em 2005]. Porém, iniciamos esses acordos com um monte de frustração por causa de impasses nas rodadas da Organização Mundial do Comércio (OMC).

No Pacífico, a Nova Zelândia foi a primeira economia ocidental desenvolvida a negociar e concluir um acordo de livre comércio com a China. Se uma rodada na OMC continua a ser evasiva, uma rodada na Ásia-Pacífico, que compreende cerca de 60% ou mais da população mundial, teria então uma enorme força.

Você não tem medo de que o TTP possa gerar uma nova linha divisória entre a China e o resto da região?

Eu certamente não a vejo fazendo isso, tomando por experiência o meu país, que já tem um acordo de livre comércio com a China, e acho que o TPP precisa ser aberto para que outros possam entrar e fazer parte dele também.

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