Porta-voz comenta denúncia de offshores de pessoas ligadas a Pútin

Músico e amigo de Vladímir Pútin, Serguêi Roldugin (esq.), acompanhado pelo presidente e pelo premiê russo Dmítri Medvedev, em visita à Casa da Música

Músico e amigo de Vladímir Pútin, Serguêi Roldugin (esq.), acompanhado pelo presidente e pelo premiê russo Dmítri Medvedev, em visita à Casa da Música

EPA / Vostock-photo
Coalizão internacional de jornalistas divulgou no domingo (3) documentos que demonstram o envolvimento de escritório panamenho com lavagem de dinheiro e sonegação de impostos de diversos empresários e políticos, inclusive da Rússia e do Brasil. Saiba quem é Serguêi Roldúguin, músico e amigo do presidente apontado em documento como peça-chave de rede de empresas offshore do governo russo.

As denúncias sobre transações financeiras de pessoas ligadas a empresários e líderes políticos, incluindo o presidente russo Vladímir Pútin, foram confrontadas pelo porta-voz do presidente, Dmítri Peskov.

As informações foram divulgadas no domingo (3) por veículos de comunicação internacionais ligados ao ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos). 

“Não há nada específico ou nada novo sobre Pútin ali, nenhum detalhe”, disse Peskov, que é mencionado no relatório. Parte da pesquisa foca 13 políticos e empresários russos, cujas atividades, em grande parte, estariam indiretamente ligadas ao presidente.

O porta-voz ressaltou, porém, que o nome de Pútin não é mencionado uma vez sequer no documento em questão. “Parece claro que o principal objetivo dessas acusações tem sido e continua a ser o nosso presidente”, acrescentou Peskov.

A investigação foi baseada em mais de 11 milhões de documentos do escritório de advocacia panamenho Mossak Fonseca, especializado na abertura de pessoas jurídicas em paraísos fiscais.

As informações foram vazadas por uma fonte anônima para o jornal alemão “Sueddeutsche Zeitung” e então compartilhadas com o ICIJ e outros cem veículos de comunicação no mundo.

Os dados apresentados no relatório comprovam que o escritório no Panamá contribuiu para a lavagem de dinheiro e sonegação de impostos de seus clientes.

Segundo os dados publicados por veículos de informação ligados ao  ICIJ, o famoso violoncelista de São Petersburgo e amigo próximo do presidente russo, Serguêi Roldúguin, seria um elemento-chave da rede de empresas offshore do governo russo.

Alega-se que Roldúguin leve uma vida dupla há anos: por um lado, é um professor e músico modesto, ainda que famoso, enquanto, por outro, seria o “guardião do dinheiro de Pútin”, em cujo nome contém vários grupos e empresas offshore com receitas estimadas em bilhões de dólares. 

“Não sou empresário nem tenho milhões de dólares”

Roldúguin nunca escondeu a antiga e sólida amizade com Pútin. Na principal biografia do presidente russo, “Em primeira pessoa” (2000), o presidente conta como se conheceram em 1977 e como “não se separaram mais”.

“Para mim, [Pútin] é como um irmão. Antes, quando não tinha para onde ir, ia para a casa dele, e ali dormia e comia”, lembra Roldúguin, também no livro. Descreve ainda que, juntos, iam ao teatro com “a atraente Liuda”, que mais tarde se tornou a primeira-dama Liudmila Pútina, e passeavam à noite por Leningrado (atual São Petersburgo). Além disso, Roldúguin é padrinho da primeira filha de Pútin, Masha.

Depois de se formar no Conservatório de Leningrado, o músico fez uma viagem pelo Japão. “Eu tinha mais dinheiro do que Vovka [Pútin]. Eu lhe trouxe lembranças, camisetas e outras coisas, das minhas viagens”, conta.

Os veículos de comunicação não costumam, porém, referir-se a Roldúguin como amigo de Pútin. O músico é geralmente apresentado como solista e maestro do Teatro Mariinsky, em São Petersburgo, e diretor musical.

Poucas vezes mencionou-se a participação minoritária de Roldúguin no banco Rossiya, apontado pela impressa russa e pelos meios de comunicação estrangeiros como “o melhor banco para o círculo de amigos íntimos de Pútin”.

De acordo com os documentos do banco, Roldúguin se tornou acionista em 2005 e, após um aumento de capital, adquiriu uma participação de 3,96% por 375 milhões de rublos (US$ 13,3 milhões, conforme a taxa de câmbio na época).

No entanto, Roldúguin sempre enfatizou que não estaria interessado no mundo dos negócios. “Eu não sou um homem de negócios, eu não tenho milhões de dólares”, declarou o músico em uma entrevista ao “The New York Times” em 2014. Segundo o jornal russo RBC, Roldúguin não tem envolvimento com a gestão do banco.

O violoncelista, porém, já havia tentado conciliar a carreira musical com a atividade administrativa. Durante um ano, Roldúguin foi reitor do Conservatório de São Petersburgo, e dali surgiram boatos de que ele poderia assumir a pasta da Cultura.

Em 2005, contrariando as expectativas, o músico se tornou diretor artístico da Casa da Música, em São Petersburgo, que se mudou para o edifício de um palácio construído no século 19. Parte do financiamento das obras de restauro deste prédio partiram do banco Rossiya, e a gigante energética russa Gazprom, segundo Roldúguin, “doou os pianos”.

Acusações e defesa

A investigação com base nos documentos do escritório de advocacia panamenho Mossak Fonseca garante ser possível concluir que Roldúguin seria o “rei de um império offshore”, alegam os correspondentes do jornal “Novaya Gazeta”, que participaram da investigação conjunta com o ICIJ e supervisionaram as partes referentes à Rússia.

De acordo com os documentos, Roldúguin seria o proprietário de quatro empresas (duas diretamente, e outras duas por pessoas ligadas a ele). Por meio dessas empresas, afirma o relatório, teriam circulado milhões de rublos por dia de oligarcas russos, também amigos de Pútin, que mais tarde foram usados em operações suspeitas e na compra de ativos estratégicos do país (Kamaz, AvtoVaz ou Video International, uma empresa líder no setor de publicidade para TV) ou em “instalações recreativas”, como palácios, clubes náuticos e resorts. Além disso, as empresas de Rolduguin teriam concedido empréstimos em condições economicamente inviáveis.

O resultado dessas transações, segundo os jornalistas ligados ao ICIJ, é o acúmulo de uma fortuna de US$ 2 bilhões no Panamá. Uma fonte conhecida de Roldúguin, que preferiu não ser identificada, acredita que “o presidente precisava de uma pessoa em quem pudesse confiar implicitamente, para que, por meio de suas ‘participações’, fosse capaz de monitorar a condição dos negócios”, publicou o “Novaya Gazeta”.

Questionado sobre as supostas empresas offshore com base no Panamá, Roldúguin não deixou claro, porém, a quem pertence o dinheiro.

“Eu tinha ligação com esse negócio há muito tempo, antes da perestroika. Depois tudo começou a se desenvolver e foi isso o que aconteceu. Este dinheiro é usado, entre outras coisas, para subsidiar a Casa da Música. Isso é assunto para uma discussão à parte”, declarou a jornalistas na Rússia.

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