Não há ‘disputa por Havana’, avaliam especialistas russos

Obama é o 1º presidente americano a visitar Cuba em 88 anos

Obama é o 1º presidente americano a visitar Cuba em 88 anos

AP
Acadêmicos negam que retomada das relações EUA-Cuba afete a Rússia e apontam para obstáculos que ainda dificultam avanço da cooperação entre os vizinhos.

A viagem oficial do presidente dos EUA, Barack Obama, a Cuba, que se encerrou na terça-feira (22), é um evento “histórico” e não deverá interferir nas atuais relações entre Rússia e o país latino-americano, avaliam os observadores russos.

A aproximação entre os países foi saudada pelo porta-voz do presidente russo, Dmítri Peskov, que ressaltou a longa parceria entre Cuba e a Rússia.

“Rússia e Cuba mantém uma relação de parceria amigável ao longo de décadas. Agora, essas relações estão adquirindo uma nova natureza, [há] muitas oportunidades de cooperação bilateral, e, claro, gostaríamos que Cuba mantivesse boas relações com todos os seus vizinhos, sobretudo com os Estados Unidos”, disse Peskov.

Para Vladímir Davidov, diretor do Instituto da América Latina da Academia Russa de Ciências, o maior benefício para os EUA da recente visita é, porém, a abertura de portas para a região latino-americana.

“É improvável que os EUA consigam sufocar os cubanos com esse afago. Os líderes cubanos não pretendem (...) mudar o sistema político”, destaca o acadêmico.

“Para evitar cair na armadilha norte-americana”, diz Davidov, “os cubanos vão se esforçar para não apostar todas as fichas no mesmo cavalo. É neste ponto que a Rússia pode atuar como um contrapeso”.

Embora o atual interesse de Moscou por Havana seja limitado, os países atuam em uma série de projetos conjuntos na indústria de petróleo e gás e de metalurgia em Cuba.

Além disso, a Rússia perdoou uma dívida de Cuba no valor de US$ 30 bilhões, em 2014, e forneceu um empréstimo de 1,2 bilhão de euros para a construção de usinas de energia, no final de 2015.

Ainda assim, os especialistas acreditam que o principal concorrente econômico de Cuba para os EUA não será a Rússia, mas a China.

Nos três primeiros trimestres de 2015, o volume comercial entre Havana e Pequim aumentou 57%, para US$ 1,5 bilhão, e os chineses se destacam em segundo lugar entre os parceiros comerciais de Cuba, atrás da Venezuela.

Pendências

Apesar de a reunião bilateral de Obama com o líder cubano Raúl Castro ter contribuído para colocar um ponto final nas tensões, duas questões-chave entre os países – o bloqueio econômico e a base naval de Guantánamo – ficaram sem solução.

As sanções e normas restritivas contra Cuba foram introduzidas pelo Congresso dos EUA ao longo de 53 anos. “A maioria republicana no Congresso seria, assim, um provável obstáculo para tal movimento”, explica Mikhail Beliat, especialista em América Latina e pesquisadora da Universidade Estatal Russa de Ciências Humanas.

O encerramento da Base Naval de Guantánamo também não esteve no centro das discussões, embora tenha sido uma das promessas centrais da campanha de Obama em 2008 e o governo cubano qualifique a presença norte-americana na região como “ocupação”.

O presidente norte-americano já havia declarado, antes da visita, que a sua principal intenção era restaurar as relações mais com o povo de Cuba do que com o governo local.

Investimentos

A mudança de paradigma nas relações entre EUA e Cuba era uma necessidade de ambos os países, alegam os especialistas russos.

“Cuba está muito interessada nisso, pois não dispõe de investidores em energia depois de a Venezuela ter deixado de cumprir as suas obrigações”, diz Vladímir Sudarev, professor do departamento de História e Política na Mgimo (do russo, Instituto Estatal Moscovita de Relações Internacionais).

Espera-se, então, segundo o observador, que os EUA realizem investimentos sustentáveis em Cuba. No entanto, os investimentos serão provavelmente destinados para a indústria do turismo, e não para o setor de energia.

A própria delegação Obama, composta por diversos empresários do país, teria demonstrado claramente as intenções econômicas do governo norte-americano.

Um dia antes da visita, o tráfego aéreo entre os dois países, interrompido há 53 anos, foi novamente retomado, e a rede norte-americana de hotéis Starwood Hotels & Resorts Worldwide assinou o seu primeiro contrato em Cuba.

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