Diálogo entre Rússia e Turquia não será restabelecido em breve

Pontes estabelecidas há anos entre os países não devem se manter sem mudança em algum dos regimes, dizem analistas.

Pontes estabelecidas há anos entre os países não devem se manter sem mudança em algum dos regimes, dizem analistas.

Reuters
Analistas avaliam consequências de derrubada de caça russo pela Turquia. Além de não se reunirem na Conferência do Clima, em Paris, presidentes dos dois países trocaram farpas em declarações indiretas.

A Conferência do Clima, que se iniciou na última segunda-feira (30) em Paris, esteve cheia de declarações políticas sem qualquer relação com sua agenda.

E, apesar de participar de uma série de reuniões bilaterais, o presidente russo Vladímir Pútin rejeitou um convite para se reunir com seu homólogo turco, Recep Erdogan.

"Tudo nos leva a crer que a decisão de derrubar nosso avião aconteceu para proteger as vias de fornecimento de petróleo [do Estado Islâmico] à Turquia", declarou o presidente russo à imprensa após a conferência.

Segundo ele, Ancara não correspondeu às expectativas de Moscou, e o regime de isenção de vistos de turismo tem possibilitado a livre circulação de extremistas entre a Federação Russa e a Turquia.

"Já há muito tempo pedimos que se levasse em consideração o fato de que  membros de organizações terroristas nos combateram no passado e continuam a tentar nos combater empunhando armas em algumas regiões da Rússia (...) e podem emergir no território da Turquia", disse.

Erdogan rebateu as acusações, dizendo que deixaria o cargo ficasse comprovado que a Turquia compra petróleo do EI (Estado Islâmico).

Enquanto o regime não muda

Analistas dizem que será muito difícil restaurar a cooperação entre a Turquia e a Rússia aos níveis pré-derrubada do Su-24.

"As duras declarações de Pútin, que provocaram declarações tão duras quanto as suas por parte dos turcos, poderão destruir a ponte que existia há anos entre os dois países", disse à Gazeta Russa especialista em conflitos e Oriente Médio da Escola Superior de Economia, Leonid Issaiev.

O especialista em Turquia Vladímir Avatkov concorda, e acrescenta que só a mudanças em um dos dois regimes poderá tirar os países dessa situação.

"O regime turco se alinhou com o terrorismo ao abater nosso avião, mas temos que pensar no futuro", diz.

Intervenção

Para o pesquisador-sênior do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais, Víktor Nadein-Raiévski, o próprio Pútin deixou clara a possibilidade de as relações turcas serem definitivamente afetadas diante da situação.

"De que 'coalizão ampla' podemos falar quando ela te apunhala pelas costas? Mas a Rússia continua interessada em combater o EI e não vai rejeitar a cooperação com os franceses", diz Nadein-Raiévski.

Nesse cenário, porém, é difícil imaginar o agravamento da luta contra o terrorismo na Síria, segundo ele.

"Na verdade, a situação só melhorou. A introdução dos sistemas de defesa aérea S-400 na Síria mudou radicalmente o equilíbrio de forças: o raio de ação dos sistemas de radar abrange quase todos os setores da frente e os aviões turcos preferem não entrar nessa área. Os turcos bombardeavam essas brigadas praticamente todos os dias e elas são realmente muito eficazes na luta contra os extremistas islâmicos em seu território", diz.

 

Confira outros destaques da Gazeta Russa na nossa página no Facebook

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.