Moscou pede “solução política” para oposição síria

Ahmad al-Jarba é ex-presidente da Coalizão Nacional de Forças de Oposição e Revolução Síria

Ahmad al-Jarba é ex-presidente da Coalizão Nacional de Forças de Oposição e Revolução Síria

Reuters
Encontro entre partes teria abordado participação de oposição moderada em ações contra o Estado Islâmico. Mas, apesar de aparente mediação entre rebeldes e Assad, falta de consenso sinaliza longo caminho de negociações pela frente.

O vice-chanceler russo e enviado especial do Kremlin, Mikhail Bogdânov, encontrou-se no sábado (17) com Ahmed al-Jarboe, um dos líderes da oposição síria, para discutir uma “solução política para crise síria com base no acordos de Genebra”, informou o Ministério dos Negócios Extrangeiros russo.

Pouco se sabe ainda sobre os resultados da reunião realizada no Cairo, capital do Egito, mas tudo indica que a opção de ignorar a oposição ou tentar destruí-la já não é mais considerada pelo governo central de Damasco, que conta com o respaldo de Moscou.

“Damasco não é capaz de lutar em diversas frentes ao mesmo tempo. A guerra contra a oposição interfere no estabelecimento de uma frente unida contra o Estado Islâmico”, explica o diretor do Instituto de Pesquisas Socio-Políticas, Viatcheslav Igrúnov. 

A oposição recebe também o apoio de Arábia Saudita, Turquia e Estados Unidos, o que aumenta o grau de tensão. “O ideal seria unir as forças contra o inimigo comum, mas é necessário primeiro chegar a um acordo sobre o status da oposição síria. A Rússia está pronta para desempenhar um papel-chave na qualidade de mediador”, continua o especialista.

No entanto, para que as conversações produzam resultados, Igrúnov acredita que as partes devam estar prontas a fazer concessões. “Por incrível que pareça, Assad pareceu mais flexível, reiterando sua disponibilidade de se retirar – o que não pode ser dito sobre a oposição. Não tivemos deles qualquer afirmação razoável sobre uma possível guerra conjunta contra o EI.”

“Ocorre que a oposição síria não romperá com a Arábia Saudita, sua principal patrocinadora, e os sauditas ainda não estão prontos a um acordo com Assad. Sem a Arábia Saudita, a Rússia não terá sucesso. Ou seja, ainda há pela frente um longo caminho de negociações”, ressalta Igrúnov.

Moderação relativa

Não é a primeira vez que diplomatas russos se encontraram com representantes da oposição síria. Por mais que a situação no país tenha modificado nos últimos tempos, o objetivo dos encontros permanece o mesmo: chegar a um consenso sobre os integrantes da chamada oposição moderada.

“Há uma posição clara entre os russos: quem pega em armas é terrorista. Talvez tenha sido discutido o fato de que existem estruturas e organizações não consideradas terroristas, mas vistas assim pela Rússia”, alega Leonid Siukiainen, professor na Escola Superior de Economia. “Afinal, se não são terroristas, então tomem a iniciativa de resolução política do conflito”.

O diretor do Centro de Estudos para o Oriente Médio do Instituto Moscovita de Relações Internacionais (Mgimo), Andrêi Fedortchenko, relembra também que, desde o início do ano, Moscou já havia realizado outras duas reuniões consultivas com os sírios.

“A Rússia sugeriu oito propostas para resolver a situação, entre elas aumentar a responsabilidade de autoridades regionais e internacionais para interromper ações em apoio a fundamentalistas, bem como liberar os territórios ocupados”, diz Fedortchenko, acrescentando que as iniciativas foram em parte adotadas, mas não por “aqueles que guerreiam contra o governo”.

Mais otimista, o especialista em questões orientais Konstantin Dudarev acredita, porém, que se os opositores realmente se orientam por interesses sírios, e não estrangeiros, eles irão buscar um compromisso entre as partes. “Caso contrário, não estamos falando de patriotas sírios”, arremata.

 

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