Pútin obtém permissão para usar força militar no exterior

Última vez que se recorreu a um procedimento semelhante foi em março do ano passado, em meio ao conflito na Ucrânia

Última vez que se recorreu a um procedimento semelhante foi em março do ano passado, em meio ao conflito na Ucrânia

Reuters
O Conselho da Federação (Senado russo) autorizou o presidente Vladímir Pútin a usar o contingente militar em outros países, após pedido feito pelo líder sírio Bashar al-Assad. Ideia é que Rússia e Estados Unidos estreitem cooperação na luta contra o Estado Islâmico.

Em sessão a portas fechadas nesta quarta-feira (30), o Senado russo autorizou o uso das Forças Armadas russas no exterior. O respectivo pedido foi apresentado pelo presidente Vladímir Pútin, após solicitação de assistência militar pelo líder sírio Bashar al-Assad.

Imediatamente após o anúncio da resolução, o chefe da administração do Kremlin, Serguêi Ivanov, ressaltou que a medida contribui para a luta contra o Estado Islâmico e informou que o número de cidadãos russos aderindo ao grupo vem crescendo vertiginosamente.

“Não se trata de dezenas, nem de centenas, mas de milhares de pessoas. Essa resolução se justifica por interesses nacionais.”, disse Ivanov, acrescentando não ser a primeira vez que o país recorre a suas forças armadas para combater o terrorismo no exterior. “No início dos anos 90, fizemos praticamente a mesma coisa no Tadjiquistão.”

O assessor de imprensa do Kremlin, Dmítri Peskov, explicou que o uso das Forças Armadas em território de outros países é legítimo por resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas ou a pedido da liderança do país em questão.

“Nesse caso concreto, a Rússia será o único país a realizar essa operação com fundamento legal legítimo, ou seja, a pedido do presidente legítimo da Síria”, disse Peskov.

Segundo Ivanov, todos os outros países que atualmente efetuam ataques aéreos em território sírio estão violando o direito internacional. “Essa é a diferença fundamental entre a nossa abordagem e a abordagem de nossos parceiros ocidentais. Eles não respeitam, e nós respeitamos”, arrematou.

A última vez que se recorreu a um procedimento semelhante foi em março do ano passado, quando o Senado russo autorizou o presidente a usar as forças armadas na Ucrânia. “No final, ela acabou não sendo usada”, diz o diretor do Centro de Conjuntura Estratégica e especialista em segurança internacional Ivan Konovalov.

Acordo, mas nem tanto

Alguns dias antes, na véspera da Assembleia Geral da ONU, que teve início na segunda-feira (28) em Nova York, Pútin disse ao canal norte-americano CBS que o país não participaria de operações militares na Síria nem em outros localidades. “Não estamos planejando isso no momento”, disse.

Para o diretor do Centro de Segurança Internacional Imemo (Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais), Aleksêi Arbatov, o presidente se referia apenas a operações terrestres.

“Isso não incluía o apoio aéreo, com ataques sobre as posições do Estado Islâmico”, afirmou à Gazeta Russa.

Opinião semelhante também foi expressa pelo especialista militar e coronel aposentado Viktor Litóvkin. “Pútin estava se referindo a operações terrestres. Nelas, de fato, a Rússia não vai participar, mas o país não se negou a prestar apoio aéreo, de inteligência e ataques a bases terroristas. Após as conversações com Barack Obama [realizadas à margem da Assembleia Geral], foram tomadas decisões sobre a participação da Rússia nessa operação”, explica.

O acordo entre os líderes da Rússia e dos Estados Unidos foi confirmado pela Embaixada norte-americana da Rússia depois do anúncio da decisão do Conselho da Federação. “Os presidentes concordaram que há um interesse comum na luta contra os terroristas do Estado Islâmico”, declarou a assessoria da embaixada.

Apesar do acordo entre os países, isso não significa que a Rússia tenha concordado em fazer parte de uma coalizão internacional contra o EI sob os auspícios dos Estados Unidos.

“Muito provavelmente, será apenas uma estreita colaboração da Rússia com os seus aliados – Iraque, Irã e Síria. Na realidade, seria a cooperação de uma coalizão com outra”, explica Konovalov, do Centro de Conjuntura Estratégica.

 

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