De volta às ruas, oposição cobra alternância de poder

Opositores protestaram contra permanência de Pútin no poder, que já dura 15 anos

Opositores protestaram contra permanência de Pútin no poder, que já dura 15 anos

Reuters
Entre 4 e 7 mil pessoas participaram de segunda tentativa de protesto em massa do ano. Número abaixo do atingido em protestos anteriores mostra não só falta de engajamento da população, como medo de retaliações.

Milhares de russos protestaram neste domingo (20) sob o lema “Pela Alternância de Poder”. A manifestação na periferia de Moscou foi marcada justamente para a data em que Vladímir Pútin anunciou sua terceira candidatura à presidência há quatro anos.

De acordo com o Ministério do Interior,  4 mil pessoas estiveram presentes no local. Já os organizadores estimaram a presença de 7 mil manifestantes. A autorização concedida pela prefeitura, necessária para qualquer protesto na capital, limitava o evento a 40 mil participantes.

Ainda que os números não sejam tão expressivos quanto os de marchas passadas, o protesto de domingo foi a segunda maior iniciativa da oposição neste ano. A primeira foi a marcha em memória do ex-vice-premiê e líder oposicionista Boris Nemtsov, que reuniu 16 mil pessoas.

“Apesar de termos sido espremidos na periferia da capital, veio muita gente”, disse à Gazeta Russa o vice-presidente do partido Parnas [Partido da Liberdade Popular, sem representação no Parlamento], Iliá Iachin, que se mostrou satisfeito com a adesão dos cidadãos.

“Mas, de fato, não há nenhuma força política da oposição capaz de reunir em um mesmo locar, sob a pressão e ataque propagandístico constantes, um número tão grande de simpatizantes.”

Lugar e hora errada

A oposição só concordou em marcar o local da concentração no bairro de Marino, nos arredores da capital, após as autoridades proibiram formalmente a realização do protesto no centro. “Se temos exigências políticas e econômicas ao governo, então iremos anunciá-las em Marino”, escreveu em seu blog o iniciador da manifestação e líder da oposição Aleksêi Naválni.

O protesto ficou, contudo, centrado em questões políticas, como a abolição da censura, a libertação de presos políticos, o fim da guerra no sudeste da Ucrânia, a luta contra a corrupção e o acesso incondicional da oposição às eleições.

A ação aconteceu uma semana após as eleições regionais, nas quais o Parnas conseguiu menos de 2% dos votos e, por isso, não entrou para o Parlamento regional.

“Depois de uma derrota dessas, Naválni não podia ficar sentando em algum lugar na sombra”, diz o diretor do Grupo de Especialistas Políticos, Konstantin Kalatchev. “Mas a oposição não conseguiu convencer com sua principal demanda: a alternância de poder.”

Segundo Kalatchev, já existe alternância de poder em nível regional em algumas localidades do país. “Em Irkutsk, por exemplo, e as pessoas estão bem mais preocupadas com a agenda social.”

As perspectivas para a oposição podem ser ainda mais pessimistas se os representantes usarem o mesmo slogan para a campanha federal. “Ir para as eleições da Duma (câmara dos deputados) com um slogan desses, havendo 14 partidos autorizados a participar das eleições sem a recolha de assinaturas, soa um pouco estranho. A maioria da população não irá entender isso”, prevê.

Oposição sem marketing

“Não dá para chamar ambos os projetos da oposição, as eleições e a manifestação, de falha completa”, afirma o diretor-geral do Centro de Informação Política, Aleksêi Mukhin, “pois a oposição conseguiu atrair olhares para si.”

“Mas, infelizmente, atraiu olhares, acima de tudo, de observadores estrangeiros. E isso coloca a oposição na zona marginal da famosa quinta coluna”, acrescenta Mukhin. “Além disso, a agenda [da oposição] já está nas mãos das autoridades, que lidam com ela de um modo bastante eficaz.

Para o especialista, a oposição precisa ampliar o seu leque de teses com as quais se dirige à população, já que “chamar atenção apenas para o que é negativo não funciona mais”.

Os membros da oposição, contudo, não acreditam em uma diminuição do espírito de protesto, mas no crescente medo de sair às ruas. “Pessoas foram presas, processadas, sujeitas a buscas e interrogatórios. O líder da oposição foi assassinado. Nesse contexto, o número de manifestantes diminuiu, mas o número de descontentes está aumentando”, garante Iachin.

 

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