Presença militar russa na Síria divide observadores

Manifestantes pró-Assad reunidos em frente à Embaixada da Rússia em Beirute, no Líbano

Manifestantes pró-Assad reunidos em frente à Embaixada da Rússia em Beirute, no Líbano

AP
Presença militar russa na Síria é um dos tópicos mais controversos do conflito que assola o país árabe. Enquanto alguns analistas destacam apoio ao regime de Assad, outros apontam para atuação de Moscou na luta contra o Estado Islâmico em Damasco.

De acordo com a impressa ocidental, a Rússia teria enviado uma força expedicionária à Síria e dado início à construção de uma base aérea militar perto do aeroporto internacional na província de Latakia, no norte do país árabe. Embora Moscou refute tais alegações, as autoridades do país não negam o fornecimento de armas ao regime de Bashar al-Assad.

“Nós sempre lhes fornecemos [às autoridades sírias] equipamento para combater os terroristas”, disse ao jornal norte-americano “The New York Times” a representante do Ministério das Relações Exteriores russo Maria Zakharova. “Nós os apoiamos, sempre apoiamos e continuaremos apoiando.”

O reforço da presença militar de Moscou na Síria é, no entanto, motivo de preocupação em Washington. Desde agosto do ano passado, os Estados Unidos lideram uma coalizão internacional para conter o avanço o grupo terrorista Estado Islâmico (EI), que já controla grandes áreas nos territórios da Síria e do Iraque.

Em conversa telefônica no último dia 5 de setembro, o secretário de Estado dos EUA John Kerry reiterou ao chanceler russo Serguêi Lavrov que o envio de equipamento militar à região pode levar a uma nova escalada do conflito e à morte de um número ainda maior de civis, além de intensificar o fluxo de refugiados e o risco de confronto com a coalizão que atua contra o EI.

Também para conter a atuação da Rússia na região, os Estados Unidos pediram recentemente à Grécia, seu aliado na Otan, que feche o espaço aéreo para aviões russos com destino à Síria. O próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros grego confirmou o pedido dos EUA e anunciou que irá analisá-lo nos próximos dias.

Parceria ou provocação?

Para grande parte dos observadores russos, o possível reforço da presença militar da Rússia na Síria tem por objetivo principal dar suporte ao presidente sírio Bashar al-Assad.

“Há mais de quatro anos e meio que Moscou decidiu apoiar o regime de Assad na Síria e, por isso, vai se manter fiel a ele”, disse à Gazeta Russa Tatiana Tiukaeva, professora da Mgimo (da sigla em russo, Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou).

Segundo Tiukaeva, o contingente militar russo na Síria pode ser visto como uma resposta à política norte-americana de apoio a grupos de oposição síria e suporte a oposicionistas na Turquia e na Arábia Saudita, entre os quais figuram grupos extremistas.

“Também levando em conta a declaração de Assad de que as forças do regime enfrentam escassez de pessoal e armas, (...) Moscou reforça sua imagem como parceiro de confiança e não altera sua posição – o que é importante para a região”, acrescenta.

Já Daniel Pipes, presidente do Fórum do Oriente Médio, não acredita que as ações da Rússia na Síria estejam orientadas para apoiar o regime de Assad, mas para “conquistar simpatia entre a liderança iraniana e irritar os norte-americanos”. O Irã é o principal aliado do regime sírio na região, e as forças do país já estiveram envolvidas em combates ao lado das tropas de Assad.

Salvar Assad, mas não só

“Embora, obviamente, Moscou fique feliz em ajudar um dos poucos aliados que ainda lhe restam no mundo, não estou convencido de que o único objetivo seja apoiar Assad”, diz Mark Galeotti, professor do Centro para Assuntos Globais da Universidade de Nova York.

“Em vez disso, suspeito que essa postura seja resultado de uma crescente preocupação em relação ao EI, uma vez que vemos cada vez mais sinais de penetração do grupo no Cáucaso do Norte. Também é uma esperança para a Rússia, que conseguiria romper o atual impasse diplomático com o Ocidente e passaria a integrar a coalizão anti-EI”, afirma Galeotti.

A necessidade de uma coalizão mais ampla para executar uma operação terrestre é igualmente apontada por Tiukaeva. “A principal contribuição da Rússia é sua participação na coligação antiterrorista de Damasco, que é um dos poucos intervenientes da região realmente interessados na vitória sobre o EI e que já vem combatendo, com alguns sucessos, os terroristas”, disse.

“Nossa proposta é juntar as forças de todos os intervenientes estrangeiros, de todos os vizinhos da Síria, de todos os membros da coalizão de oposição, de todos os envolvidos”, destacou Zakharova, do Ministério russo dos Negócios Estrangeiros, ao “The New York Times”.

 

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