Moscou propõe inclusão da Síria em coalizão contra o EI

Russia's Foreign Minister Sergey Lavrov (C) walks with others before a trilateral meeting in Doha, Qatar

Russia's Foreign Minister Sergey Lavrov (C) walks with others before a trilateral meeting in Doha, Qatar

Reuters
Detalhes de plano russo foram revelados em reunião com diplomatas norte-americanos e sauditas na terça-feira (3). Proposta deve ser rejeitada por EUA e seus aliados regionais, que desejam a derrubada do presidente sírio Bashar al-Assad.

Os detalhes do projeto de Moscou para combater o Estado Islâmico (EI) foram divulgados, pela primeira vez, pelo chanceler russo Serguêi Lavrov, em reunião com ministros das Relações Exteriores dos EUA e da Arábia Saudita em Doha, capital do Qatar, na terça-feira (3). Os planos já haviam sido mencionados pelo presidente Vladímir Pútin no final de junho.

A proposta russa pressupõe a criação de uma frente unida de combate ao grupo terrorista, da qual, além das forças iraquianas e das milícias armadas dos curdos, fariam parte tropas governamentais sírias leais ao presidente Bashar al-Assad.

“Só ataques aéreos [realizados contra o EI pelas forças de coalizão lideradas pelos Estados Unidos] são insuficientes”, declarou Lavrov na reunião em Doha.  “É necessário formar uma coalizão de países que apoiam a mesma ideia, inclusive daqueles que estão in loco, fazendo oposição armada à ameaça terrorista.”

Em um comunicado emitido na quarta-feira (5), o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo afirmou que a coalizão contra o EI deve ser formada em “uma base internacional de coerência jurídica”, o que implica na necessidade de obtenção de mandato por parte do Conselho de Segurança da ONU.

A principal barreira para implementação da proposta russa deve ser a participação do governo da Síria na iniciativa, já que os Estados Unidos e uma série de países do Golfo Pérsico continuam insistindo na derrubada do líder sírio Bashar al-Assad.

Para Lavrov, porém, não faz sentido discutir a questão do apoio russo a Assad, pois, durante as negociações sobre a Síria em Genebra, “a comunidade internacional, incluindo os membros do Conselho de Segurança da ONU, a Turquia, a UE e os países árabes, foi a favor não da mudança de regime, mas da transição política”.

Fadado ao fracasso

Embora não se tenha conhecimento da reação dos outros participantes às propostas russas, o presidente do Instituto do Oriente Médio, Evguêni Saranovski, acredita que, diante do atual cenário político mundial, não se deve esperar resultados palpáveis do encontro no Qatar.

Não há sinais de que a posição assumida pelos EUA em relação a Assad irá mudar, o que inviabiliza a implementação do plano russo. Washington teria, segundo Saranovski,  recebido “a incumbência de derrubar Assad” e “um dos clientes que fez a encomenda é a Arábia Saudita”.

Para o analista, nem mesmo a ameaça crescente do Estado Islâmico levará a uma mudança de abordagem dos EUA em relação ao regime sírio. “As atividades do EI não afetam diretamente os interesses dos Estados Unidos”, justifica.

De oposição a terroristas

Apesar dos apelos de Moscou e da proposta russa de inclusão síria no combate a ameaças terroristas, os Estados Unidos revelaram, também na terça-feira (3), um plano que irá endurecer as ações norte-americanas contra o governo de Assad.

A ideia é que os EUA treinem e defendam representantes da “oposição moderada” de ataques não só por parte do Estado Islâmico, mas também do próprio Exército sírio.

Segundo informações do Pentágono, o “apoio defensivo” já foi efetuado na sexta-feira passada (31) contra os militantes da organização extremista Frente al-Nusra, que mantêm ligações com a Al Qaeda. Esse tipo de apoio, que se baseia em ataques aéreos, será feito “independentemente de contra quem eles [oposição moderada síria] atuem”, garantem os norte-americanos.

Na reunião em Doha, Lavrov qualificou essa abordagem como “ilegal do ponto de vista do direito internacional”, criando um obstáculo à formação de coalizão para combater o EI.

“O mais importante aqui é o fato de que, até agora, todos os exemplos de treinamento em países vizinhos dado por instrutores norte-americanos à chamada oposição moderada terem terminado com a passagem desses combatentes para o lado dos extremistas”, destacou o chanceler russo.

“Eu não acho que seja capaz de mudar a posição dos Estados Unidos, mas discordamos claramente nessa questão”, concluiu Lavrov.

 

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