“Cooperação militar com a Síria continua e não escondemos isso”

Embaixador russo em Damasco, Aleksandr Kinschak Foto: AP

Embaixador russo em Damasco, Aleksandr Kinschak Foto: AP

Embaixador russo em Damasco fala sobre novo cenário com Estado Islâmico, antiga cooperação com governo do país, projetos e execução de acordos em meio à guerra civil, entre outros temas.

Apesar da guerra civil na Síria, a Rússia tem intenção de continuar sua parceria comercial e econômica com o país, além de colaborar no setor técnico-militar, segundo o embaixador russo em Damasco, Aleksandr Kinschak, declarou em entrevista às agências Ria Nôvosti e Sputnik.

Como o senhor acredita que o acordo sobre a resolução do problema nuclear no Irã poderia se refletir na situação da Síria?

As expectativas são positivas. Queremos acreditar que o Irã, que sem isso teve papel ativo e positivo nos negócios sírios, receberá possibilidades complementares e recursos para prestar um auxílio maior aos aliados sírios. Em conformidade com isso, o acontecimento se refletirá positivamente na situação no país.

Que contratos entre Rússia e Síria estão sendo preparados para assinatura?

Sob as condições de um grave conflito civil, as possibilidades para realização de grandes projetos de cooperação  comercial-econômica para  nossos agentes econômicos na Síria são limitadas.

Mas existem áreas onde se pode e se deve trabalhar, e nossas companhias estão fazendo uso dessas possibilidades.

Todas essas questões foram discutidas de maneira complexa em outubro do ano passado na sessão da comissão intergovernamental em Sôtchi. Tendo em vista que a guerra, em algum ponto, acabará, e será preciso reconstruir o país.

Quais são esses projetos [em andamento]?

Por exemplo, a Stroitransgaz está aqui desde os tempos soviéticos. Eles têm um contrato grande para a construção da planta de processamento de gás GP3-2. Os trabalhos continuam. Boa parte deles é realizada por subcontratos locais, por motivos de segurança. Os trabalhos continuam, os contratos são realizados, não há queixas.

No início de 2013, a Soizneftgaz assinou um contrato para extração de petróleo em Latakia [principal porto da Síria]. O que atrapalha o trabalhos, considerando-se que é uma área tranquila?

Eu não diria que o contrato não será executado. Os representantes da companhia vêm para cá regularmente para acertar o andamento das coisas. Lá, antes de se tratar diretamente da perfuração, devem ocorrer certos estágios de estudos preliminares. De meus contatos com o governo sírio, entendo que eles estão satisfeitos com o andamento do trabalho no âmbito desse projeto. Além disso, lá também há um campo de pertóleo que poderá ser desbravado por nossos petroleiros.

Como anda a cooperação técnico-militar?

Ela continua  a se desenvolver. Não escondemos isso. Vladímir Pútin também falou sobre isso durante a última visita da delegação síria à Rússia. Ele relembrou que a posição russa se mantém sem mudanças, nós iremos também no futuro apoiar o povo sírio e o governo sírio, inclusive em questões de defesa, trabalhando a possibilidade de cooperações na esfera técnico-militar.

Estou convicto de que isso é o correto, porque a Síria está na dianteira na luta contra o terrorismo. Se não quisermos que os terroristas vençam na Síria, com todas as consequências decorrentes para os países da região - ainda mais que essas consequências se espalham para longe, além das fronteiras dos países da região -, então é preciso ajudar o governo sírio nessa guerra.

Veja, a Síria e o Iraque guerreiam contra o Estado Islâmico. Apesar disso, uma série de países consideram que se deve ajudar o Iraque, mas o governo sírio, não. Como assim? Não temos dois padrões, se o governo sírio luta contra o terrorismo, e achamos que está nos nossos interesses apoiá-lo nesta guerra, então é preciso prestar auxílio na medida do possível, inclusive técnico-militar. E prestamos.

Você considera possível, pelo menos teoricamente, uma ajuda militar direta à Síria por parte da Rússia?

Acredito que já façamos isso o bastante para aumentar o nível de capacidade de combate do exército sírio. Inclusive, por vezes, ajudamos também com conselhos, quando esses são necessários.

O que o senhor acha sobre a ideia de criação de uma união regional para a luta contra o terrorismo?

Essa ideia tem bases sólidas. A maior parte dos países da região está se dando conta de que o terrorismo é uma ameaça real e atual não apenas para Síria e Iraque, mas também para os países vizinhos. Se pegarmos os últimos atentados terroristas no Kuwait, na Tunísia, no Sinai egípcio, então que prova mais precisamos disso? Para todo lado o grupo Estado Islâmico reivindicou a autoria dos atentados.

Claro, ainda há aqueles que acreditam que as organizações terroristas possam ser usadas direta ou indiretamente para a realização de seus planos, por exemplo, para a queda do presidente Assad. Mas é um jogo perigoso.

Isso significa que uma união antiterrorista é possível, mesmo levando-se em conta a posição incompatível dos EUA em relação ao presidente da Síria?

Vamos nos recordar do exemplo relativamente recente do desarmamento químico na Síria. Então, todos pensavam: amanhã haverá uma guerra. Esperavam que  as atividades bélicas começariam de uma hora para a outra. E ali estava, no último segundo, a iniciativa inesperada e também, para muitos, irrealizável do presidente Pútin  , que funcionou.

Não houve guerra, resolveram-se as armas químicas, foi conduzida com muito êxito uma operação complicada que atraiu a Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas), a ONU e muitos países.

Ninguém está tentando criar uma união político-militar de países que, costumeiramente, estejam divididos em suas atitudes para uma resolução do problema sírio. Trata-se de ação coordenada. Ou inação.

Isso não significa que para cá, para a Síria, devam vir soldados turcos e sauditas para guerrear contra os soldados do Estado Islâmico. É a coordenação de atitudes na guerra contra uma ameaça comum. Acredito que essa iniciativa pode ser realizada. Pode ser que isso não ocorra em um futuro próximo, mas as bases para a ação coordenada existem.

Que papel Israel poderia ter na luta contra o terrorismo, considerando-se que Damasco acusa os israelenses de apoiar extremistas na região das colinas de Golã?

Temo que aqui as chances de realizar tal esquema incluindo nele Israel e outros Estados árabes vizinhos seriam muito menores, se falarmos nas perspectivas de uma coalizão antiterrorista com a participação da Síria e seus vizinhos. Apesar de eu não ver um papel significativamente subversivo de Israel na crise síria. Se compreendermos de onde vem a maior parte do problema, então é claro que não é da parte de Israel. Apesar de ele sempre se manter como um fator de tensão.

Quais as perspectivas da terceira consulta interssíria, que já ocorreu duas vezes em Moscou?

As conversas sobre esse tema se desenrolam desde o final do segundo encontro. Além disso, nesta etapa o lado mais interessado pode ser o governo sírio. Apesar de que me lembro como, a certa altura, foram necessários muitos esforços para ganhar nossos parceiros sírios no fato de que participar desse evento e sentar-se à mesa de negociações com seus oponentes faz sentido.

Como resultado, eles entenderam quais vantagens surgem para eles nesse formato. Assim, agora eles estão extremamente interessados na continuidade do processo em Moscou. Se quisermos uma solução política na Síria - e todos no Ocidente e no Oriente, inclusive os próprios sírios, dizem que este é o único meio -, então, só é possível alcançá-la por meio do diálogo. Para a oposição interna síria, essa saída também é positiva.

No momento, quantos cidadãos russos permanecem na Síria? 

Pelas contas consulares, na embaixada em Damasco e no consulado-geral em Aleppo, são mais de oito mil pessoas. Quantos são, efetivamente, ninguém sabe, já que nem todos consideram necessário registrar sua chegada ou saída. Se nos orientarmos pelo volume de operações consulares, ele caiu durante o período da crise. Por inícios indiretos, há muitos russos aqui. Muitos são de famílias mistas.

Deve-se tentar ajudar nossos compatriotas que foram para o "lado negro" e passaram para o Estado Islâmico?

Isso também deve ser feito. De tempos em tempos, membros das famílias de nossos compatriotas que partiram para a jihad aqui e lutam nas fileiras de grupos terroristas nos buscam. Há apenas alguns dias se comunicou conosco a irmã de um desses russos, que foi morto lutando pelo EI. Em outro caso, nos buscaram parentes próximos de outro compatriota nosso que também foi morto. Mas a esposa com filhos continuaram no território controlado pelo grupo armado ilegal, e nos pediam para tomar providências para repatriá-los.

 

Versão reduzida de material publicado pela agência Ria Nôvosti.

 

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